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Como é o necrotério improvisado onde cadáveres se acumulam a céu aberto após terremotos na Venezuela: 'Estou com medo do que vou encontrar lá'

G1 (Globo)
Como é o necrotério improvisado onde cadáveres se acumulam a céu aberto após terremotos na Venezuela: 'Estou com medo do que vou encontrar lá'

ONP Summary

Twin earthquakes devastated north-central Venezuela, with the official death toll now exceeding 2,300 and tens of thousands unaccounted for. One week after the disaster, hospitals are overwhelmed, international rescue operations continue, and disease risk in crowded shelters is rising.

Progressive: Progressive outlets emphasize inadequate government response and highlight trapped U.S. deportees, raising human rights concerns in the disaster's aftermath.

Moderate: Centrist outlets focus on the humanitarian scale of the disaster and international coordination efforts to address the overwhelming medical and shelter emergency.

Conservative: Conservative outlets highlight substantial U.S. military aid deployment and question whether this disaster may signal a thaw in historically strained U.S.-Venezuela relations.

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Após o terremoto duplo de 24/6 na Venezuela, Los Silos foi transformado em um necrotério improvisado.
Reuters via BBC
"Não, irmão, não, irmão! Não! Por que você está fazendo isso comigo?", grita uma mulher enquanto o marido tenta segurá-la para que ela não desabe no chão.
A cena se repete uma vez ou outra nos arredores de Los Silos, uma imponente estrutura de concreto em La Guaira que, em meio à tragédia provocada pelo terremoto duplo de 24/6 na Venezuela, deixou de funcionar como instalação portuária de armazenamento e passou a servir como um necrotério improvisado.
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Ali, sob o forte sol tropical, dezenas de famílias aguardam entre a angústia e o medo. Vieram para confirmar a morte de seus parentes.
As autoridades instalaram cadeiras dentro e fora do prédio, onde também foram montadas várias tendas. A espera é longa. Longa demais, talvez, para quem já passou dias entre hospitais, abrigos e escombros.
Na fila, o luto parece se espalhar de uma pessoa para outra. Ninguém conversa. Alguns olham fixamente para o vazio. Outros consultam o celular para ler notícias ou responder mensagens.
A poucos metros dali, militares das Forças Armadas Bolivarianas, armados com fuzis, controlam o acesso.
"Tenho medo do que vou encontrar lá dentro, mas é a única maneira de pôr fim a essa agonia", diz uma mulher antes de atravessar o portão.
Ela procura o sobrinho há quase uma semana.
"Procurei por ele em todos os lugares: no prédio, nos hospitais, falei com todo mundo... e ninguém sabe de nada."
Lá dentro, a primeira coisa que chama a atenção é o cheiro de decomposição.
O cheiro e as imagens
Vários parentes levam as mãos à boca. A maioria cobre o rosto com máscaras de tecido, que não conseguem bloquear o mau cheiro. Em poucos minutos, muitos deixam de reagir: acabam se acostumando ao odor nauseante.
A poucos metros dali, centenas de corpos estão enfileirados, cobertos por sacos plásticos e expostos ao sol e ao calor intenso de La Guaira, o que acelera a decomposição.
Os corpos estão organizados de acordo com a data em que foram resgatados. Em uma das extremidades, uma tenda oferece cremação gratuita. Na outra, uma pequena unidade de odontologia forense tenta identificar corpos que já quase não conservam traços humanos.
As famílias têm duas opções.
Quem acredita que conseguirá identificar o parente pelas roupas que ele vestia é encaminhado para uma área específica.
Os demais — a maioria — se acomodam diante de dois televisores.
É ali que começa mais um calvário.
Mais de mil imagens de corpos passam na tela em uma sequência que parece interminável. Os mortos têm o rosto inchado, a pele escurecida e marcas provocadas pelos impactos, pelo calor e pela passagem do tempo. Alguns já não podem ser reconhecidos.
As famílias procuram qualquer vestígio que permita identificar seus parentes: uma tatuagem, uma pulseira, uma peça de roupa ou algum objeto de casa que tenha aparecido na fotografia.
Quando necessário, as duas funcionárias que passam as imagens em um iPad voltam a foto e ampliam detalhes, como os dentes, uma tatuagem ou uma cicatriz.
Diante de um dos televisores, uma mulher começa a chorar ao reconhecer o filho por causa de um cobertor repleto de poeira que aparece em uma das imagens. Outra mulher a abraça, embora não a conheça.
O silêncio é interrompido pelo toque de um telefone.
'Isso parece um filme de terror'
"Tio, estou aqui tentando reconhecer minha mãe... mas é muito difícil. A maioria dos corpos parece carbonizada", sussurra um jovem.
"Isso parece um filme de terror", diz ao sair Liliana González, moradora de Catia La Mar, de 60 anos, que conseguiu reconhecer o sobrinho, de 37 anos, por causa de uma tatuagem. "Eu estava procurando minha tia... mas minha prima, que é enfermeira, me disse que meu sobrinho estava aqui", conta.
"[O nome dele] não estava na lista. Tive que ver as imagens." A voz dela treme.
Em seguida, González reflete em voz alta: "É a primeira vez que passo por uma situação dessas. Eu vi minha mãe quando ela morreu, mas isso... isso é diferente."
"Há corpos inchados, com os olhos para fora, crianças... Nunca vi uma coisa dessas na minha vida", afirma González.
'Ninguém as tirou de lá'
Modesta Alemán, de 56 anos, veio de Carayaca, no oeste de La Guaira, em busca da irmã mais velha, Matilde.
O prédio onde ela morava, em Playa Grande, uma das praias mais populares do litoral central da Venezuela, foi um dos mais atingidos da região.
"Disseram para nós que não havia sobreviventes. Que todos estavam mortos", conta Alemán.
"Depois um grupo de voluntários disse que ouviu vozes... que havia pessoas presas no elevador pedindo socorro. Mas ninguém as tirou de lá."
Alemán não entra no necrotério improvisado. Permanece do lado de fora enquanto outros parentes fazem o reconhecimento.
Talvez, diz ela, tenha sido melhor assim.
O processo pode levar horas. Quando um corpo é identificado, começa a etapa para sua liberação.
Após o reconhecimento, são colhidas as impressões digitais, quando isso ainda é possível.
Em seguida, o corpo é colocado em um caixão. Depois, se inicia o processo para emissão da certidão de óbito, documento indispensável para que a funerária possa retirar os restos mortais.
Jéssica Soto, de 42 anos, moradora do edifício OPP 33B, em Caraballeda, está sentada em uma cadeira na entrada de Los Silos.
Há dois dias ela espera a liberação dos corpos da filha, de 15 anos, e da neta, de 3, que ficaram presas no apartamento onde moravam depois dos terremotos. Os corpos foram resgatados na terça-feira (30/6), quase uma semana após os tremores.
"Eles fazem a gente esperar e esperar até chegarem os documentos, os caminhões e sei lá mais o quê", diz Soto em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
"Elas estão ali, dentro de um caixão, tomando sol desde ontem. Não me resta outra opção além de esperar e confiar em Deus."
'É bom sentir a mão de alguém'
Depois de perder a casa, Soto está agora abrigada no clube de golfe de Tanaguarena. Os parentes tentaram convencê-la a não fazer o reconhecimento dos corpos.
"Quando a vi, foi a pior coisa. Minha filha ficou... ficou desfigurada. Reconheci que era ela por causa da camisa e sabia que era ela, mas o rosto dela já não era o rosto dela. Era o rosto de um monstro."
O número de mortos já se aproxima de 2,6 mil em toda a Venezuela, e as autoridades acreditam que esse total deve aumentar significativamente.
González conta que entrou em pânico quando foi informada de que teria de reconhecer o sobrinho sozinha.
"Mas, quando me viram daquele jeito, dois funcionários me acompanharam até o corpo. Eles me ajudaram a encontrá-lo para que eu não sofresse tanto", relata. "Graças a Deus, porque, numa hora dessas, é bom sentir a mão de alguém."
Ao ver o corpo, ela diz que quase desmaiou. Sentiu náuseas.
"Mesmo agora, ainda estou com vontade de vomitar", confessa.
A tia dela continua sob os escombros. Ela teme ter de voltar ao necrotério improvisado nos próximos dias e passar por tudo de novo. ...

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