Brasil teve média de 4 golpes registrados por minuto em 2025, mostra estudo; veja tipos mais comuns

O Brasil vive uma epidemia de golpes. Os registros de estelionatos cresceram 429,8% desde 2018, segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).
Foram 2.261.055 ocorrências registradas no ano passado, média de 258 por hora — ou quatro por minuto — e alta de 2,7% em relação a 2024, segundo o estudo, que existe desde 2011 e mapeia os registros criminais feitos pelas secretarias de segurança pública dos 26 estados e do DF.
O número é recorde e inclui casos mais tradicionais, em que os golpistas usam encenações, cenários falsos e documentos físicos, e fraudes digitais, por meio de links, aplicativos, redes sociais, e IA.
Crimes patrimoniais mudaram no pós-pandemia: roubos caíram, estelionatos cresceram
Arte/g1
O aumento dos golpes digitais foi de 20,6%, com mais de 346 mil casos no ano passado.
Os autores do estudo, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmam que o aumento dos estelionatos vem na contramão da queda registrada de roubos e furtos e é explicado por mudanças de hábitos da população e também na dinâmica do crime organizado. O número total de roubos registrados caiu 18,3%, de 745.193 para 610.959.
Anuário da Segurança: feminicídios batem recorde,taxa de assassinatos é a menor desde 2012
"A taxa de registros acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado — o que ajuda a explicar por que unidades mais urbanizadas e digitalmente conectadas, como São Paulo e Distrito Federal, encabeçam a lista", dizem Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, pesquisadores do fórum.
SP lidera ranking de estados com mais casos
São Paulo é o estado com a maior taxa de estelionatos país, com 1.808 casos registrados por 100 mil habitantes. Na sequência, vêm Distrito Federal, Paraná, Rondônia, Santa Catarina e Espírito Santo.
Segundo o fórum, "a taxa de registros acompanha, ainda que imperfeitamente, o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado".
Golpe da Bíblia: criminosos usam leitura de salmo por telefone para gravar voz de vítimas e aplicar fraudes
Reprodução
Veja os golpes mais comuns, segundo o estudo
Clonagem ou troca de cartão de crédito
Criminosos obtêm os dados do cartão da vítima por meio de páginas falsas, maquininhas adulteradas, vazamentos de dados ou contatos fraudulentos para realizar compras sem autorização. Em outra modalidade, durante uma compra presencial, trocam o cartão da vítima por outro semelhante e ficam com o original e, muitas vezes, com a senha.
Golpe do WhatsApp
Os criminosos se passam por familiares ou amigos usando fotos e informações obtidas nas redes sociais. Alegam estar com um novo número e pedem dinheiro com urgência. Em outros casos, conseguem invadir a conta verdadeira da vítima e passam a solicitar transferências aos contatos.
Golpe da falsa central bancária
O estelionatário liga ou envia mensagens dizendo ser funcionário do banco e informa uma suposta fraude na conta. Durante a conversa, induz a vítima a fornecer senhas, códigos, instalar aplicativos de acesso remoto, transferir dinheiro para uma "conta segura" ou entregar o cartão a um falso funcionário.
Golpe do PIX
O PIX é usado como meio para concluir diferentes fraudes, como pedidos falsos de conhecidos, falsas centrais bancárias, vendas inexistentes, comprovantes adulterados, QR Codes alterados e falsas promessas de investimento. A transferência ocorre após a vítima ser enganada por técnicas de engenharia social.
Golpe do uso indevido de CPF via SMS
Mensagens de texto informam supostas irregularidades envolvendo o CPF, como pendências na Receita Federal, abertura de empresas ou compras suspeitas. Ao clicar em links ou entrar em contato com os criminosos, a vítima fornece dados pessoais, credenciais bancárias ou instala programas maliciosos.
Golpe do leilão ou da loja falsa
Criminosos criam sites, perfis em redes sociais ou anúncios que imitam lojas conhecidas e oferecem produtos com preços muito abaixo do mercado. Após o pagamento, normalmente via Pix ou boleto, o produto nunca é entregue e, em alguns casos, os dados da vítima ainda são usados em novas fraudes.
Nova dinâmica do crime organizado
Um dos fatores apontados como decisivo para a expansão das fraudes é o uso da engenharia social, método explora sentimentos como medo, urgência, confiança, solidariedade ou promessa de lucro fácil.
Em vez de invadir sistemas, os criminosos manipulam as vítimas para que elas próprias forneçam informações sigilosas, instalem aplicativos, entreguem cartões, compartilhem códigos de autenticação ou realizem transferências bancárias.
Essas atividades são consideradas de baixo risco e alta rentabilidade, em comparação ao tráfico de drogas.
"Mais de 97% de todos os estelionatos relatados às polícias brasileiras não chegam ao Poder Judiciário. Dar golpes no Brasil oferece riscos excepcionalmente baixos de punição", dizem os especialistas.
O levantamento também aponta uma mudança na dinâmica do crime organizado. Os pesquisadores destacam a atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que mantêm atualmente "escritórios do crime" voltados à prática de fraudes digitais.
Segundo o relatório, qualquer medida que não ataque simultaneamente a estrutura organizacional e seus canais de lavagem de dinheiro é ineficaz.
"O Brasil não está diante de um problema de estelionatários dispersos, mas de uma economia criminal integrada, com estrutura empresarial, financiamento faccional e capacidade de captura do sistema financeiro", diz o texto.
Veja outros destaques do Anuário de Segurança Pública de 2025
Os feminicídios bateram recorde em 2025, o que vai na contramão da redução das mortes violentas como um todo;
Foram 1.571 mulheres assassinadas pelo fato de serem mulheres, uma média de quatro por dia e aumento de 4% em relação a 2024;
O Brasil registrou o menor número de mortes violentas desde 2012, quando começou o levantamento. Ainda assim, os números seguem altos: 40.775 pessoas assassinadas;
O país teve, pela primeira vez, taxa de mortes violentas abaixo de 20: ficou em 19,1. É o menor número registrado no histórico feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública;
A redução de mortes de violentas é uma tendência que vem desde 2018. No ano passado, houve uma queda de 8,2% em relação a 2024;
As dez cidades com as maiores taxas de mortes violentas ficam no Nordeste, metade na Bahia.
Maranguape (CE) lidera o ranking pelo 2º ano seguido e foi o único município a superar a taxa de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes;
Santa Catarina registrou 7,6 mortes violentas por 100 mil habitantes e se tornou o estado com a menor taxa do país. São Paulo ocupava essa posição desde 2014;
As mortes cometidas por policiais aumentaram 5% no ano passado, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%;
Os registros de produção, posse ou distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil cresceram 25%;
Os casos de bullying e cyberbullying cresceram mais de 60% entre jovens. Isso ocorre após a criação de tipo penal específico, em 2024;
A quantidade de adolescentes que cumprem medida socioeducativa no Brasil caiu 54% em 9 anos: são 12,2 mil jovens, a maioria meninos (93%), negros (74%) e entre 16 e 18 anos (76%). As ocorrências mais comuns são roubo (29%) e tráfico de drogas (28%);
O número de pessoas no sistema prisional cresceu 6% e chegou a 964 mil. O estudo prevê que, se for mantida a tendência, o Brasil pode bater 1 milhão de presos já em 2027;
Há 2,1 milhões de empresas e pessoas autorizadas a ter armas — desse total, 1 milhão têm licença de CAC (Caçadores, Atiradores e Colecionadores) — e 1,6 milhão de armas cadastradas. Três em cada 10 armas estão com registro vencido. ...
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