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Voz de Elza Soares é enfocada como afiado instrumento político do século XXI no livro 'Insurreição na garganta'

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Voz de Elza Soares é enfocada como afiado instrumento político do século XXI no livro 'Insurreição na garganta'

Elza Soares (1930 – 2022) é retratada em ilustração na capa do livro da jornalista Lígia Moreli
Reprodução / Capa do livro 'Elza Soares – Insurreição na garganta'
♫ CRÍTICA DE LIVRO
Título: Elza Soares – Insurreição na garganta
Autor: Lígia Morelli
Cotação: ★ ★ ★ ★
“Cantar é político! Não se canta sem as marcas ou cicatrizes que dizem sobre um corpo, que agem sobre ele. Cada um canta aquilo que consegue carregar: memórias apagadas, lembranças vagas, marcas que de tão profundas se personificam”
♬ O pensamento reproduzido acima é fragmento do texto escrito pela cantora e pesquisadora musical Fabiana Cozza, “A voz-puíta na carne negra de Elza Soares”, para introduzir o livro “Elza Soares – Insurreição na garganta”, escrito pela jornalista Lígia Moreli e publicado via Edições Sesc. O prefácio de Cozza tem tamanha espessura que, mais do que apresentar o livro, valoriza e complementa a tese da autora.
No livro, a voz e o corpo de Elza da Conceição Soares (23 de junho ou 22 de julho de 1930 – 20 de janeiro de 2022) são dissecados como instrumentos políticos na luta contra o racismo e a violência contra a mulher, entre outras pautas identitárias associadas à cantora carioca, sobretudo a partir de 2015, ano que Elza lançou um álbum, “A mulher do fim do mundo”, que a recolocou no topo da música brasileira com músicas de sonoridade e letras impactantes.
O recorte da narrativa do livro “Elza Soares – Insurreição na garganta” é interessante justamente por mostrar a ruptura que esse álbum antológico de 2015 estabeleceu na discografia da cantora, remodelando e consagrando a imagem de Elza com contornos políticos mais nítidos.
Foi quando a artista – até então quase sempre percebida pela mídia como a estereotipada mulata assanhada dos sambalanços da década de 1960 – ressurgiu como a altiva mulher do fim do mundo, renascida das cinzas de um mercado musical já em galopante mutação para a era digital.
É fato que essa mulher transcendental – vinda do Planeta Fome como a então caloura Elza se apresentou em 1953 no programa de Ary Barroso (1903 – 1964) – sempre existiu e já tinha dado explicitamente as caras em discos como “Somos todos iguais” (1985) e sobretudo “Do cóccix até o pescoço” (2002), álbum muito citado ao longo do livro por ter esboçado a revolução que somente seria efetivada 13 anos depois com o disco de 2015 produzido por Guilherme Kastrup sob direção artística de Celso Sim e Romulo Fróes.
Mas é fato também que Elza Soares somente conseguiu assumir plenamente o controle da própria narrativa a partir desse álbum de 2015, surgido numa era em que todos os artistas tinham voz através das redes sociais, sem depender da mídia para poder se expressar para o mundo e sem depender de uma gravadora para fazer e jogar um disco nesse mundo.
É nesse momento novamente áureo que Lígia Morelli capta e analisa a voz de Elza Soares, enfatizando tanto a ótica politizada do repertório do álbum “A mulher do fim do mundo” como o discurso feito pela cantora no palco do Rock in Rio na estreia do show “Planeta fome”, baseado no homônimo álbum de 2019 e apresentado por Elza no festival em 29 de setembro daquele ano de 2019 com diversos convidados.
Ao longo de três capítulos (“Elza à luz do século XXI”, “Vozes e extremidades do fim do mundo” e “Poética da insurreição na garganta”) e uma conclusão (“Uma voz que ainda move a história”, sobre os ecos da bossa negra e do discurso da artista em vozes como a da cantora Luedji Luna), a autora mostra como Elza Soares levantou a voz para dizer o que se calava, hasteando alto bandeiras como a do feminismo negro.
Por mais que o enfoque esteja na luminosa representatividade da cantora a partir de 2015, a narrativa do livro também reverbera vários momentos da trajetória de Elza Soares em que a cantora subverteu expectativas e passou pelas frestas de portas fechadas para sobreviver, cantando para não enlouquecer (como sublinhou o título da biografia escrita pelo jornalista José Louzeiro e editada em 1997) e sempre renascendo como fênix até transcender definitivamente ao sair de cena em janeiro de 2022 para ficar na história como exemplo de resiliência em um mundo que sempre tentou abafar as falas e o cantar político de vozes negras.
Capa do livro 'Elza Soares – Insurreição na garganta', de Lígia Moreli
Divulgação / Edições Sesc ...

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