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Como luta do escritor Rubem Alves contra 'ditadura do x' ajudou a criar vestibular da Unicamp há 40 anos

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Como luta do escritor Rubem Alves contra 'ditadura do x' ajudou a criar vestibular da Unicamp há 40 anos

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Luta de Rubem Alves contra 'ditadura do x' criou vestibular da Unicamp há 40 anos
Por duas décadas, o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi feito em parceria com outras instituições e tinha um modelo consolidado no Brasil: exclusivamente com perguntas de múltipla escolha (alternativas). Esse tipo de avaliação perdurou de 1966, quando a universidade começou a funcionar, até 1986.
Em 1987, pela primeira vez a Unicamp elaborou o seu próprio vestibular. Um grupo de professores e especialistas, liderado pelo escritor e professor Rubem Alves, idealizou um modelo de prova para levar o candidato a interpretar, desafiando a chamada "ditadura do X". Para o grupo, o modelo de múltipla escolha possibilitava ao candidato decorar o conteúdo para conseguir passar
"Nós queríamos um vestibular que não testasse a memória, porque há pessoas com memória perfeita que são completamente estúpidas. Então, a grande questão é: como testar a capacidade de pensar de maneira inteligente dos alunos? [...] O que importa é a articulação do pensamento", explicou Alves em entrevista a uma emissora da própria universidade, em 2006.
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Escritor Rubem Alves, à esquerda, e aplicação do vestibular da Unicamp à direita
Instituto Rubem Alves/Acervo Unicamp
As principais mudanças, que permanecem até hoje, foram as adições de questões discursivas — nas quais o candidato tem de escrever a resposta — e redação.
Essa história e outras curiosidades foram resgatadas em um memorial dos 40 anos da Comvest inaugurado na semana passada.
Além do lançamento de um documentário, o projeto reúne fotos, vídeos, documentos e depoimentos sobre a trajetória do vestibular da universidade. Confira abaixo como ter acesso ao conteúdo.
Uma ideia que cresceu
Sala de aplicação do vestibular da Unicamp em 1989
Memorial de 40 anos da Comvest
O ex-coordenador de logística da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) Ary Orozimbo Chiacchio se recorda que a ideia de Alves começou após discussões de um pequeno grupo, ainda em 1986, mas se materializou no ano seguinte.
"Foi crescendo. Outros professores foram colaborando, participando, querendo integrar a equipe. Um trabalho conjunto mesmo. Demorou, teve resistência, mas foi bom", recordou.
"O Rubem era contra essa 'ditadura do X'. Na verdade, a gente queria ideias, conteúdo, leitura, interpretação de texto. Nada de 'cruzinha', nada de só 'decoreba' e saber a resposta exata. Não existia resposta exata em uma questão aberta", completou.
Aos 88 anos, Jocimar Archangelo, ex-coordenador da Comvest e um dos idealizadores do vestibular junto a Alves, lembra que a redação foi a principal mudança. "A gente tinha muitas ideias. A redação era a principal, para [fazer o candidato] pensar", ponderou.
Dificuldades
Nos primeiros anos, vestibular da Unicamp enfrentou percalços para 'inovar'
Mas fazer uma prova para candidatos interpretarem ou usarem a criatividade foi um desafio em uma época sem computadores. O ex-colaborador da Comvest, José de Alencar Simoni, conhecido como Cajá, recordou que havia um trabalho "artístico" em algumas perguntas.
"As primeiras provas, quando você tinha uma figura, tinha a letra [assinatura] de alguém. As figuras eram feitas à mão", disse.
Cajá guarda memórias de exercícios criativos, como uma prova que teve várias perguntas com o tema dos Jogos Olímpicos, outra em que as questões eram uma conversa entre um casal e um exercício de química no qual o candidato montava combinações de moléculas colando figurinhas.
"A gente sempre quis fazer uma coisa que fosse inusitada, mas não que causasse um grande constrangimento, uma grande dificuldade para o estudante. Que o estudante pudesse ver a prova de uma forma diferente", comentou.
Percalços: de cambistas a pombos
Correção de provas do vestibular da Unicamp aconteciam em ginásios
Memorial de 40 anos da Comvest
Para fazer os vestibulares, a Unicamp também teve, por muitos anos, de superar percalços desde as inscrições até as correções. No caso das inscrições, os problemas eram os cambistas.
As inscrições eram realizadas apenas presencialmente e o candidato tinha de pegar uma ficha, pagá-la no banco e, depois, preenchê-la para entregar na universidade. Porém, cambistas pagavam fichas e as vendiam em branco no portão dos locais de prova.
"Vendiam por um preço bem mais alto do que o da inscrição, mas pelo menos salvavam a vida do candidato que não tinha feito a inscrição", lembrou Ary.
"Para resolver um pouquinho esse problema, nós criamos um dia extra de inscrição, que era para casos excepcionais comprovados. [...] Quando informatizou, acabou tudo", completou.
Já a correção era manual, prova por prova e em ginásios da Unicamp. Isso só foi mudar com a digitalização do processo, nos anos 2000.
"Precisava lançar a nota em papel, depois a nota era lançada em uma firma fora da Unicamp. Nós nos reuníamos durante dois dias e um ficava recitando a nota que foi lançada e o outro conferia se era a nota que a gente tinha dado", contou Cajá.
Em 1995, o telhado de um ginásio onde aconteceria a correção caiu após um vendaval. Por sorte, nenhuma prova ou corretor estava no local, mas foi uma demonstração dos problemas — que só foram resolvidos após a Comvest conseguir um espaço próprio para os trabalhos, em 2019.
"Tinha goteira, tinha chuva, os corretores saíam correndo com as caixas para proteger as provas, corriam para debaixo das escadas dos ginásios. Os pombos faziam sujeira em cima da prova", apontou Ary.
Democratização
Aplicação de provas da Unicamp em 2003
Memorial de 40 anos da Comvest
Segundo a Comvest, o novo modelo de prova, bem como a implantação de cotas para pretos, pardos, pessoas com deficiência e egressos de escolas públicas e a realização do vestibular para indígenas, tornaram a Unicamp mais democrática.
Dados levantados para o memorial mostram que o número de inscritos no vestibular saltou de 13.260, em 1987, para 61.698, em 2026. Desses totais, 5.227 eram de escolas públicas em 1987, enquanto neste ano foram 19.257.
Entre os estudantes (aqueles que se matricularam), a mudança foi ainda mais visível: o percentual de egressos de escolas públicas entre os alunos aumentou de 29%, em 1987, para 50,4%, em 2026.
Já os pretos, pardos e indígenas correspondiam a 10,1% dos estudantes em 2003. Hoje, são 32,8%. Por fim, em 1987, a maioria dos estudantes era composta por homens, com 60,3%. Neste ano, as mulheres lideram com 54,5%.
"A prova da Unicamp foi muito inovadora por valorizar a leitura e a interpretação. Nós continuamos, sobretudo hoje, em um universo invadido por fake news, invadido por negacionistas, incentivando a saber ler e a decodificar adequadamente a informação", pontuou o atual diretor da Comvest, José Alves de Freitas Neto.
"Os alunos que entram são alunos bem formados, são alunos que estão interessados em ajudar a transformar o mundo, em ser protagonistas e ter uma boa formação, para poder exercer bem a sua profissão", completou.
Serviço
Memorial de 40 anos foi inaugurado na sede da Comvest
Poliana Belo/g1
O memorial dos 40 anos do vestibular da Unicamp foi construído no prédio da Comvest, na Rua Josué de Castro, na Cidade Universitária, em Campinas (SP). No local, é possível ver fotos e documentos da história da prova, além de ouvir relatos de pessoas envolvidas.
O espaço é aberto ao público, inclusive a grupos escolares e de pesquisadores, de forma gratuita. É necessário fazer o agendamento por meio do e-mail vestibular@unicamp.br.
As informações também foram disponibilizadas em um site do projeto.
"É fundamental contar essa história, porque, afinal de contas, são 2,2 milhões de pessoas que tentaram entrar nessa universidade ao prestar o vestibular nesses 40 anos. Pensar tudo o que está por trás, a identidade que a universidade transmite a partir do seu vestibular, é fundamental", comentou José Alves.
*Estagiária sob supervisão de Gabriel Pitor
Imagem de arquivo do vestibular do Unicamp
Comvest
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