Paciente do SUS com câncer de pulmão vive menos por falta de acesso ao tratamento mais indicado

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Imagine duas pessoas que descobrem, no mesmo dia, que têm o mesmo tipo de câncer de pulmão. Os exames mostram que o tumor das duas tem uma característica rara, mas tratável: uma alteração no gene ALK, um tipo de defeito genético encontrado em cerca de 5 a cada 100 casos desse câncer no Brasil, mais comum em pessoas jovens e que nunca fumaram.
Para esse tipo específico de tumor, existe um remédio em comprimido, tomado em casa, que ataca diretamente o que faz aquela célula doente crescer —diferentemente da quimioterapia, que circula pelo corpo inteiro e afeta também células saudáveis. Pacientes que tomam esse remédio costumam viver mais e passar mais tempo sem o câncer voltar a crescer.
Só que uma dessas duas pessoas é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A outra, por um plano de saúde particular. E é aí que a história de cada uma começa a mudar.
Essa diferença, hoje, não é uma suposição: ela foi medida. Dois estudos conduzidos por médicos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) acompanharam, com rigor científico, o que de fato acontece com pacientes brasileiros nessa situação: um ouviu mais de 150 oncologistas do país inteiro sobre o que eles conseguem oferecer aos pacientes; o outro foi direto aos prontuários de mais de 100 pessoas tratadas em 12 hospitais brasileiros. Os dois foram publicados neste ano na revista científica JCO Global Oncology, ligada à Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).
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Primeiro obstáculo: acesso ao exame
Antes de qualquer remédio, é preciso um exame que confirme a alteração genética no tumor. E aqui já está o primeiro degrau da desigualdade: enquanto praticamente todo médico da rede privada (94 em cada 100) disse ter acesso de rotina a esse exame para seus pacientes, no SUS esse número cai para menos da metade —44 em cada 100.
Os próprios médicos explicaram por que isso acontece. O motivo mais citado foi a falta de reembolso: muitos hospitais públicos simplesmente não têm como pagar pelo exame com regularidade. Outros médicos relataram que o pedaço de tumor retirado em biópsia, às vezes, não é grande o suficiente para fazer a análise —e em muitos casos, diante da urgência de começar algum tratamento, a quimioterapia acaba começando antes mesmo de o resultado do exame sair.
O efeito disso aparece de forma indireta em outro número: dos pacientes com essa alteração genética encontrados pelos pesquisadores em 12 hospitais brasileiros, apenas 1 em cada 5 estava no SUS —mesmo o SUS atendendo a cerca de três quartos da população do país.
Isso sugere que boa parte dos pacientes da rede pública com esse tipo de câncer nunca chega a descobrir que tem a alteração genética —e, portanto, nunca chega a ser considerada para o tratamento mais indicado.
Segundo obstáculo: o remédio pode não estar lá
Passado o exame, vem a etapa do tratamento. E aí a diferença só aumenta. Entre os médicos que atendem pelo SUS, praticamente nenhum relatou ter acesso rotineiro aos remédios mais modernos dessa classe. O mais antigo deles, o crizotinibe, já incorporado ao sistema público, foi citado por apenas 1 em cada 10 médicos da rede pública como opção disponível logo de início.
Na rede privada, o cenário se inverte: o remédio mais moderno e considerado hoje o tratamento de referência, o alectinibe, foi citado por 8 em cada 10 médicos como disponível para seus pacientes desde o começo do tratamento.
Isso não significa que o SUS ignore esses remédios. Pelo contrário: o crizotinibe foi formalmente incorporado ao sistema público em 2022, e um remédio mais novo, o brigatinibe, em 2025 —ou seja, o governo já reconheceu, oficialmente, que esses tratamentos funcionam e devem ser oferecidos.
O problema está no que vem depois dessa decisão: segundo os autores do estudo, o valor que o SUS paga aos hospitais por esse tipo de tratamento não cobre o custo real de comprar o remédio, e o rombo financeiro acaba caindo sobre os próprios hospitais públicos —que, sem dinheiro suficiente, recorrem à quimioterapia, mais barata, mesmo quando ela não é a melhor opção para aquele paciente.
O resultado final: anos de diferença
É aqui que a história das duas pessoas do início desta reportagem se separa de vez. O segundo estudo do GBOT, que olhou diretamente os prontuários de mais de 100 pacientes brasileiros tratados entre 2015 e 2020, mostrou o tamanho real dessa diferença.
Já no tempo até descobrir a doença, o SUS demora mais: em média, mais que o dobro do tempo da rede privada entre o início dos sintomas e o diagnóstico.
Mas é no resultado final que a diferença mais impressiona. Três anos depois do diagnóstico, 87 em cada 100 pacientes da rede privada ainda estavam vivos, contra 61 em cada 100 no SUS. E o tempo que cada paciente passou sem o câncer voltar a crescer foi, em média, três vezes maior na rede privada: 40 meses, contra 11 meses no SUS.
"Nos nossos dados, essa desigualdade de acesso virou diferença real de resultado clínico", resume a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT e autora dos dois estudos. Segundo ela, parte do que se perde ao começar o tratamento com quimioterapia pode ser recuperada depois, quando o remédio-alvo finalmente chega —mas nem sempre por completo, porque o atraso pode fazer o paciente piorar a ponto de não aguentar mais nenhum tratamento.
Por que isso não é simplesmente o SUS falhando
Vale entender por que essa diferença existe, porque a resposta não é simples nem é só sobre o SUS. O Brasil já demora, de forma geral, para aprovar remédios assim: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) levou cinco anos a mais que os Estados Unidos para liberar os primeiros remédios desse tipo no país. E o mesmo padrão de dificuldade de acesso se repete em outras alterações genéticas tratáveis por remédios parecidos —não é um problema isolado desse câncer específico.
Segundo Mascarenhas, o entrave central, hoje, é econômico: não basta um remédio funcionar bem clinicamente, o sistema público também precisa decidir se aquele benefício compensa o custo, especialmente quando o tratamento é caro e atende a um grupo pequeno de pacientes.
"Esse é justamente o racional da medicina de precisão: tratar menos pessoas, mas tratar melhor as pessoas certas", diz a médica. Ela cita exemplos de outros países que negociam o preço desses remédios direto com os fabricantes, em vez de cada hospital pagar um valor diferente —ou que só pagam o valor cheio se o remédio realmente funcionar no paciente. Modelos que, segundo ela, poderiam ser adaptados à realidade do SUS.
Questionada se o maior obstáculo da medicina de precisão no Brasil hoje é científico, regulatório ou econômico, ela não hesita: "é principalmente econômico, de colocar em prática."
Já se sabe bem quais alterações genéticas respondem a quais remédios, e as regras para aprovar essas tecnologias têm avançado. O que falta, segundo ela, é encurtar a distância entre aprovar um remédio no papel e ele realmente chegar ao paciente —exatamente a distância que os dois estudos do GBOT tentaram medir.
O que diz o Ministério da Saúde
Procurado, o Ministério da Saúde afirma que "vai disponibilizar mais 23 medicamentos oncológicos de alto custo —entre eles brigatinibe, gefitinibe, erlotinibe e durvalumabe, para o tratamento do câncer de pulmão— de forma gradual a partir de outubro, conforme pactuado com estados e municípios".
"Será a maior entrega já realizada pelo SUS para ampliar o acesso da população aos tratamentos contra o câncer, um aumento de 35% na oferta dos fármacos na rede pública que vai solucionar pendências que chegavam a até 12 anos em alguns casos. Mais de 112 mil pacientes serão beneficiados. Os novos medicamentos serão 100% custeados pelo Governo do Brasil.
Para assegurar que pacientes tenham acesso aos medicamentos oncológicos de maneira ainda mais segura e organizada, a pasta lançou no ano passado o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco). Essa política pública garante Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) unificados, cria um modelo mais eficiente para compra dos medicamentos e reduz a burocracia no acesso aos remédios", conclui a nota. ...