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Benedito Ruy Barbosa, autor de mais de 30 novelas na televisão brasileira, morre em São Paulo

G1 (Globo)
Benedito Ruy Barbosa, autor de mais de 30 novelas na televisão brasileira, morre em São Paulo

Benedito Ruy Barbosa, autor de mais de 30 novelas na televisão brasileira
O Brasil perdeu, nesta terça-feira (7), Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas que mostraram a grandiosidade do interior do país, seus conflitos e suas transformações.
Toda a beleza e magia da nossa terra e a força de quem nela trabalha. A arte de um dos gigantes da televisão brasileira teve muito da vida do menino do interior paulista que nasceu na cidadezinha de Gália, cresceu no campo e ouvindo nosso sotaque, misturado ao dos imigrantes italianos e seus descendentes.
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“Eu fiz todo o trabalho que um homem faz no campo. Tirei leite de vaca, eu aprendi a tirar também. E mais do que isso. Mais tarde, me serviu muito o que eu aprendi com os colonos italianos, da colônia que meu tio tinha. E quando eu escrevo, eu já escrevo o ‘italianês’ que eu aprendi”, contou Benedito Ruy Barbosa.
Como esquecer uma cena de "O Rei do Gado"? A novela falava de coronéis e da luta do povo pela terra. O gosto pelas sagas, o jeito épico de contar histórias e criar heróis do cotidiano são marcas do criador de personagens como Zé Inocêncio, de "Renascer".
Se a gente se emocionava de cá, ele também chorava escrevendo do lado de lá.
“Era o coronelzinho que fazia o papel no começo. E ele vê o jequitibá, ele pega o facão e enfia na terra, até o cabo, e fala: ‘Enquanto esse meu facão estiver encravado aqui, nem eu, nem você haveremos de morrer. Nem de morte matada, nem de morte morrida’”, lembrou Benedito Ruy Barbosa.
Benedito Ruy Barbosa conquistou o público com tudo o que criou para a TV. Escreveu a primeira novela, "Somos Todos Irmãos", em 1966, para a TV Tupi. A paixão por contar histórias já vinha de longe. O avô e o pai foram jornalistas. E um castigo ao menino Benedito fez da literatura mais um empurrão, como mostrou uma reportagem especial do Globo Rural.
“Quando criança, ele pediu de presente uma bicicleta. Sem ter dinheiro, o pai deu o livro ‘Peter Pan’. O menino ficou contrariado e jogou o livro no alto de um armário. Dias depois, aprontou alguma e foi colocado de castigo. Sem ter o que fazer, resgatou o livro e começou a se distrair. Nunca mais abandonou a leitura e, com isso, veio também a contação de histórias”.
“Sentava todo mundo e eu contava. Cada dia inventava uma. Inventei tanta história”, contou Benedito Ruy Barbosa.
Nesse dia, o ator Antonio Fagundes pegou carona na história do menino encantado para definir o trabalho do amigo:
“Vou falar uma coisa para você. Você encantou a vida de muita gente. Você não tinha o pó de pirlimpimpim, mas fez muita gente voar nas suas histórias”.
Benedito Ruy Barbosa morre em São Paulo
Jornal Nacional/ Reprodução
As primeiras que saíram da máquina de escrever de Benedito Ruy Barbosa foram histórias reais. Depois de perder o pai e trabalhar duro para ajudar a mãe e quatro irmãos, ele seguiu a vocação da família e se tornou jornalista. Foi revisor, cronista esportivo, escreveu até a biografia do Rei Pelé. Mas guardava nas gavetas da juventude aquele que seria o seu destino.
Ele já tinha passado por agências de publicidade e era apaixonado pelo teatro, e foi o dramaturgo e diretor Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, que nos tirou um jornalista e deu ao Brasil um dos maiores autores do país.
“Falou: ‘Você não tem nada escrito? Você fala de um jeito que parece que eu estou vendo a cena na minha frente’. Falei: ‘Eu tenho um romance que eu comecei a escrever em Marialva, depois que houve a grande geada lá. E eu não tinha o que fazer, então comecei a escrever um romance, que se chama ‘Fogo Frio’. Por que ‘Fogo Frio’?. Falei: ‘Porque a geada queima o cafezal’”, contou Benedito Ruy Barbosa.
A peça ganhou prêmio. Nos primórdios da TV, Benedito Ruy Barbosa editou textos de novelas cubanas, fez adaptações de livros. A primeira que escreveu para a Globo, em parceria com a TV Cultura, foi "Meu Pedacinho de Chão". Era 1971, tempo de ditadura e censura.
“Uma vez eu escrevi uma cena em que o personagem Giramundo, ele começava a ensinar os caboclos a cantar o hino nacional. A censura cortou as cenas porque dizia que o hino nacional não podia ser cantado em um ambiente daquele. E eu briguei com a censura. Eu briguei com a censura e consegui liberar as cenas”, lembrou Benedito Ruy Barbosa.
E seguiu botando fogo na máquina.
“Eu cheguei a escrever cinco capítulos em um dia. Tanto amor eu tinha por aquilo. Estava tão dentro de mim a história, que derretia a máquina”, disse Benedito Ruy Barbosa.
Escreveu rápido outro sucesso: "Cabocla", de 1979. Nesse ritmo, Benedito Ruy Barbosa criou mais de 30 novelas. E não só elas. Ganhou também o público infantil, com 220 capítulos do "Sítio do Picapau Amarelo". Em 1990, foi para a TV Manchete para fazer "Pantanal".
“Foi o nascer do sol em um pantanal. E os passarinhos passando por cima de mim. Aí eu comecei a escrever naquele dia”, contou Benedito Ruy Barbosa.
A história de Juma Marruá, a mulher onça que luta por justiça, ganhou remake em 2022 na Globo, reescrita pelo Bruno Luperi, neto de Benedito. E foi de Bruno também o remake de "Renascer", adaptada para falar de dramas contemporâneos, como a terra castigada pelo homem.
Benedito Ruy Barbosa
Jornal Nacional/ Reprodução
Mas não podemos falar de Benedito Ruy Barbosa sem falar de amor. De amores difíceis, como o de Matteo e Giuliana, o casal de imigrantes italianos que o autor separou e uniu em "Terra Nostra", para mexer com as nossas emoções.
“Você tem que pegar o público a laço no primeiro capítulo. Pintar que esse amor vai ser maravilhoso. Quem assistiu ‘Terra Nostra’ não se apaixonou por aquele amor nascendo naquelas condições, naquele navio. Sem uma grande história de amor, a novela não vai para frente”, afirmou Benedito Ruy Barbosa.
Noventa e cinco anos: uma existência multiplicada em muitas outras. Benedito Ruy Barbosa nos guiou pelos caminhos da emoção, para ensinar a beleza dos ciclos da vida e da natureza. Ele se inspirou no pai para criar o Velho do Rio, a figura mística que dribla a morte em “Pantanal”. Uma pista de que pessoas e histórias inesquecíveis são capazes de ganhar a eternidade.
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