Trump acusa Brasil de trabalho forçado na pecuária, mas isenta carne bovina de nova tarifa
Carne bovina Cindie Hansen/Unplash Os Estados Unidos acusam o Brasil de usar trabalho forçado na produção de gado e propõem aplicar tarifas adicionais de 12,5% a países que falham em proibir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Apesar disso, a carne bovina está inclusa na lista de produtos que devem ficar isentos da medida. A proposta foi anunciada nesta terça-feira (2), após uma investigação do governo americano concluir que 60 países, entre eles o Brasil, não adotam medidas consideradas suficientes por eles para barrar a entrada de produtos feitos com trabalho forçado. A lista também inclui a China, que é a maior compradora de carne do Brasil. Procurada pelo g1, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) reforçou que as carnes estão isentas da nova tarifa sugerida, e que não fará comentários, neste momento. O g1 também procurou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para comentar as acusações, mas não teve retorno até a última atualização dessa reportagem. O que diz os EUA sobre a pecuária brasileira O documento que embasa a proposta da nova tarifa traz um capítulo específico que relaciona a pecuária brasileira ao trabalho forçado, sugerindo que esse foi um dos fatores que provocou a queda das exportações de carne congelada dos EUA para a China, nos últimos anos. O capítulo começa dizendo que é "amplamente documentado que trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil", citando pesquisas independentes, além de uma lista do governo americano conhecida como TVPRA. "A lista TVPRA afirma que há razões para acreditar que existe trabalho forçado na produção de gado no Brasil. Pesquisas independentes sugerem que pecuaristas brasileiros constam na chamada 'Lista Suja'." Em seguida, os EUA começam a citar uma série de dados de exportações de carne do Brasil e EUA, ressaltando que o mercado americano tem estado em desvantagem em relação ao brasileiro. "Entre 2015 e 2025, o volume das exportações brasileiras de carne bovina congelada para as economias investigadas praticamente dobrou, enquanto as exportações americanas cresceram 21% em volume no mesmo período." "A participação do Brasil nas importações chinesas de carne bovina congelada também cresceu de forma significativa, passando de 38% em 2021 para 53% em 2025. Já a participação dos Estados Unidos caiu de 6% para 2% no mesmo período", acrescentou. De forma contraditória, diversos tipos de carnes congeladas estarão isentas da nova tarifa, caso ela entre em vigor. Os EUA também comentam sobre desvantagem de preço. "Em 2025, o valor médio das importações de carne bovina do Brasil foi de US$ 2,40 por unidade, 41% menor que o valor registrado para a carne americana, de US$ 4,20." E reforçam que, embora nem toda a carne bovina congelada importada pela China do Brasil tenha sido necessariamente produzida com trabalho forçado, "a prevalência dessa prática na produção de carne" sugere que "pelo menos parte dessas importações foi produzida total ou parcialmente com trabalho forçado.", diz. "A falha da China em impor e aplicar de forma eficaz uma proibição à importação de carne bovina produzida com trabalho forçado do Brasil conferiu uma vantagem de custo à carne brasileira e distorceu a concorrência", destaca. Por outro lado, o documento reconhece que outros fatores, como o tamanho do rebanho bovino dos EUA, também podem ter influenciado a competição entre a carne americana e a brasileira. "Ainda assim, conclui que, caso existisse uma proibição efetiva à importação de produtos ligados ao trabalho forçado, os Estados Unidos provavelmente teriam registrado maiores vendas, receitas e exportações de carne bovina para a China, mantidas as demais condições constantes", destaca. (Esta reportagem está em atualização)