Mulher submetida a 36 anos de trabalho escravo pede para voltar ร casa de antigos patrรตes; MPT apura falhas da prefeitura do Recife
Local onde domรฉstica foi resgatada apรณs 36 anos em situaรงรฃo anรกloga ร escravidรฃo MPT/Divulgaรงรฃo Uma mulher resgatada de condiรงรตes anรกlogas ร escravidรฃo no Recife pediu para voltar ร casa dos antigos patrรตes, que hรก 36 anos a mantinham sem salรกrio e em situaรงรตes degradantes. Segundo o Ministรฉrio Pรบblico do Trabalho (MPT), a trabalhadora procurou o รณrgรฃo e disse se sentir sozinha apรณs o resgate, e afirmou que o atendimento socioassistencial da prefeitura do Recife havia cessado. Diante disso, o MPT informou que abriu uma investigaรงรฃo diante da "precariedade da polรญtica pรบblica municipal de atendimento ร s vรญtimas de trabalho escravo". A prefeitura alega que cumpriu "os limites institucionais e legais de competรชncia da polรญtica pรบblica de assistรชncia social" e que "nรฃo possui competรชncia investigativa ou fiscalizatรณria" (veja mais abaixo). โ Receba as notรญcias do g1 PE no WhatsApp A mulher, que nรฃo teve o nome divulgado, tem 54 anos e foi resgatada no dia 7 de novembro de 2025, numa casa no Porto da Madeira, na Zona Norte do Recife. Desde 1989, quando tinha 17 anos, ela era submetida a jornadas exaustivas, controle rรญgido da rotina diรกria e fortes restriรงรตes ร liberdade de circulaรงรฃo, alรฉm de nรฃo receber qualquer remuneraรงรฃo durante todo esse tempo. A notรญcia do pedido da domรฉstica para voltar ร casa dos patrรตes foi publicada inicialmente pelo Diario de Pernambuco, e confirmada pelo MPT ao g1. Na รฉpoca do resgate, a mulher optou por ser acolhida por parentes, e deveria ser acompanhada pela Assistรชncia Social municipal. Segundo o MPT, a trabalhadora procurou o ministรฉrio no dia 28 de abril e disse que queria voltar ร casa dos antigos patrรตes. Ela foi informada que poderia ser recontratada, desde que tivesse respeitados os direitos trabalhistas, incluindo registro formal do contrato, limite da jornada de trabalho e a salubridade das condiรงรตes de alojamento. No mesmo dia, o MPT ligou para a Secretaria Executiva de Assistรชncia Social para que a prefeitura atendesse a trabalhadora, e o รณrgรฃo se prontificou a prestar assistรชncia. O Ministรฉrio Pรบblico do Trabalho voltou a pedir o pedido de atendimento ร vรญtima no dia 12 de maio. Entretanto, a prefeitura informou ao MPT que a mulher nรฃo tinha sido localizada. O MPT reiterou o pedido no dia 21 de maio, e informou o endereรงo da empregadora para fins de diligรชnica. A prefeitura voltou a informar, na quarta-feira (27), que nรฃo localizou a vรญtima. Por mais uma vez, o MPT pediu que a prefeitura procurasse a mulher, e mais uma vez a gestรฃo informou que, em diligรชncia realizada na quinta-feira (28), nรฃo encontrou a trabalhadora. "O secretรกrio executivo informou, ainda, que sequer houve a atualizaรงรฃo dos dados da trabalhadora resgatada no Cadรnico [Cadastro รnico para Programas Sociais], sob a justificativa de que seria necessรกria sua presenรงa pessoal para a realizaรงรฃo de autodeclaraรงรฃo", informou o MPT. Diante do quadro, a Coordenadoria Nacional de Erradicaรงรฃo do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Trรกfico de Pessoas (Conaete) do MPT avaliou que o caso "revela inegรกvel falha no atendimento socioassistencial prestado a vรญtima, o qual deve ser integral e continuado, em razรฃo do elevado grau de vulnerabilidade social e econรดmica da trabalhadora". Informou, ainda, que foi determinada a abertura de uma investigaรงรฃo da prefeitura, que terรก "oportunidade de aprimorar seus fluxos de atendimento, acompanhamento e monitoramento dessas pessoas". O que diz a prefeitura Procurada, a Secretaria de Assistรชncia Social e Combate ร Fome do Recife (SAS) disse que "atua de acordo com os princรญpios da Polรญtica Nacional de Assistรชncia Social" e que observa "os limites institucionais e legais de competรชncia da polรญtica pรบblica de assistรชncia social". Afirmou, ainda, que ofereceu acolhimento institucional, mas a vรญtima preferiu ficar na casa de parentes, e que, ao visitar a residรชncia dos familiares da trabalhadora e ao posto de saรบde onde รฉ atendida, mas nรฃo foi encontrada. Apรณs o recebimento do endereรงo encaminhado pelo MPT, uma equipe do Cadรnico foi ao local onde a mulher trabalhava para atualizar o cadastro, mas ela tambรฉm nรฃo estava. "[...] A Polรญtica de Assistรชncia Social nรฃo possui competรชncia investigativa ou fiscalizatรณria, cabendo aos รณrgรฃos competentes a apuraรงรฃo de responsabilidades nas esferas trabalhista, criminal ou administrativa", informou a SAS. A prefeitura disse, ainda, que "permanece ร disposiรงรฃo dos รณrgรฃos competentes e seguirรก realizando os encaminhamentos e acompanhamentos necessรกrios no รขmbito de suas competรชncias, buscando o fortalecimento contรญnuo dos fluxos de atendimento e proteรงรฃo ร s pessoas em situaรงรฃo de vulnerabilidade social". VรDEOS: mais vistos de Pernambuco nos รบltimos 7 dias