Ameaçado de extinção, surdo e desajustado: conheça sapinho-pingo-de-ouro que mede 1 cm encontrado no ES

Ameaçado de extinção, surdo e desajustado: sapinho-pingo-de-ouro mede 1 cm
Surdo, desajeitado, do tamanho de uma unha, colorido e sensível: este é o sapinho-pingo-de-ouro, anfíbio raro e ameaçado de extinção encontrado em Vargem Alta, no Sul do Espírito Santo, e monitorado por pesquisadores da Reserva Kaetés há pouco tempo.
Apesar do pouco tamanho e da falta de audição, o sapinho Brachycephalus alipioi é parte fundamental da natureza local, como explicou o médico veterinário e coordenador do projeto de proteção, Marcelo Renan de Deus Santos.
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"Como todos os animais, ele é um bicho fundamental para o equilíbrio ecológico da área. E, por ser tão pequenininho, ele não tem audição. Então, ele se relaciona com o meio através de outros sentidos, especialmente da pele. A pele dos anfíbios é muito sensitiva", explica o especialista.
Além das características específicas, os sapinhos encontrados na reserva são exclusivamente apixabas, como indicam os poucos registros existentes deste animal.
"A família dele tem vários exemplares na Mata Atlântica, várias espécies de sapinhos semelhantes a ele. Alguns também coloridos, amarelos, outros escurinhos, são todos pequenininhos. Mas essa espécie é nossa", explicou Marcelo.
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Sapinho-pingo-de-ouro mede 1 cm e é encontrado no Espírito Santo.
Reprodução/Instituto Marcos Daniel
Monitoramento e coleta de dados
O sapinho-pingo-de-ouro capixaba passou a ser monitorado recentemente na Reserva Kaetés, que existe originalmente para proteger o pássaro saíra-apunhalada, na divisa dos municípios de Castelo e Vargem Alta.
"A gente começou a ver o sapinho em algumas áreas muito específicas. E esse ano a gente fez uma parceria com um pesquisador de anfíbios. Aí passamos a registrar oficialmente, com registros científicos, a existência do sapinho ali", contou Marcelo.
Segundo o coordenador, o objetivo agora é coletar dados sobre o anfíbio pouco conhecido, a fim de entender como ele se alimenta e se reproduz, por exemplo.
A Reserva Kaetés foi criada pelo Instituto Marcos Daniel e reúne conservação, pesquisa e experiência para a proteção da Mata Atlântica capixaba. Atualmente, a área abrange 777 hectares, sendo que 264 deles já são legalmente reconhecidos como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
Características do sapinho-pingo-de-ouro
O sapinho, apesar de pequeno, possui um veneno que, em grande quantidade, ou ao ser ingerido por um ser humano, poderia causar complicações ou até ser letal, segundo o biólogo e doutor em zoologia, Thiago Silva-Soares, coordenador do projeto Herpeto Capixaba que fundou o Programa de Conservação do Pingo-de-ouro-capixaba.
"Mas não é algo que eu não possa encostar nele, tanto que, se a gente pega ele na mão em um primeiro momento, não tem uma grande preocupação por ter pego ele na mão. A gente só tem que lavar a mão depois e ter muito cuidado para não botar a mão na boca ou no olho, que são mucosas, que pode absorver toxina", explica o especialista.
Além disso, Thiago destaca:
os pingos-de-ouro são diurnos, diferentemente da maioria dos anfíbios;
os sapinhos nadam mal e não passam pela fase de girino;
eles não costumam pular como os outros sapos, e sim, caminhar;
a vocalização deles se parece com a de grilos.
Uma outra característica dos sapinhos que chama a atenção é o fato de que eles vivem em ambiente de serrapilheira - camada de folhas caídas no chão da mata. Isso, conforme o biólogo, faz com que eles sejam bons indicadores de qualidade ambiental.
"Se eles só sobrevivem em uma mata saudável, em uma floresta que está equilibrada, quando a mata começa a entrar em desequilíbrio, ele começa a reduzir no local. Então, se ele está na região e começa a desaparecer, quer dizer que a região está com algum desequilíbrio, algum problema", afirma Thiago.
Ameaçado de extinção
Sapinho-pingo-de-ouro mede 1 cm e é encontrado no Espírito Santo.
Reprodução/Instituto Marcos Daniel
Segundo dados do Espírito Santo, por meio do decreto nº 5.237-R, de 2022, que declara as espécies de fauna ameaçadas de extinção no estado, o sapinho-pingo-de-ouro é considerado um animal "em perigo".
Conforme a classificação, definida conforme critérios e diretrizes da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), isso significa que a espécie apresenta risco muito alto de extinção na natureza, em decorrência de grandes alterações ambientais ou de significativa redução populacional, ou ainda, de grande diminuição da sua área de distribuição.
Devido ao risco iminente de extinção, o pesquisador reforçou a necessidade e importância de estudar sistematicamente a espécie, extremamente sensível a mudanças climáticas, a fim de desenvolver ações para protegê-la, como a criação de áreas protegidas sem nenhum tipo de impacto humano.
"A gente precisa tomar ações que sejam favoráveis à biodiversidade, porque a gente depende dela para a nossa própria sobrevivência. Então, conhecimento científico aliado a ações efetivas de conservação podem garantir que não só o sapinho, mas todas as espécies que vivem nas áreas onde ele ocorre também sobrevivam ou executem suas ações ecológicas, seu papel na natureza", defende Marcelo.
Menor do que uma moeda de R$ 1, sapo-pingo-de-ouro é considerado o menor anfíbio terrestre do mundo
Bruna Lucheze/Arquivo Pessoal
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