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Filho se torna assistente de acusação em processo que julga réu pelo assassinato da mãe dele há 28 anos

G1 (Globo)
Filho se torna assistente de acusação em processo que julga réu pelo assassinato da mãe dele há 28 anos

28 anos após perder a mãe, filho se torna assistente de acusação contra suspeito do crime
A comoção por um feminicídio recente no Ceará levou à descoberta de que um desfecho para um outro crime, ocorrido há 28 anos, ainda é possível. Ao acompanhar notícias sobre a morte da jovem cearense Ana Kévile, Bruno Fernandes quis saber se havia uma possibilidade de resgatar o caso da mãe, assassinada na cidade de Milhã, no ano de 1998.
Bruno tinha dois anos quando Ivaneide Barbosa Fernandes Silva foi morta após ser atacada com dois golpes de faca. A vítima trabalhava em um bar da cidade, e o acusado havia comprado uma faca pouco antes de ferir a mulher na porta do estabelecimento, por volta das 21h30.
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O crime aconteceu há exatamente 28 anos, no dia 9 de julho de 1998. Em junho de 2026, Bruno foi habilitado como assistente de acusação do Ministério Público no processo contra o réu, que ficou foragido por mais de duas décadas e ainda deve passar por júri popular (confira no vídeo acima).
🔍 A figura jurídica do assistente de acusação é prevista em qualquer ação do Ministério Público em que a vítima não pode se defender, podendo ser exercida por pais, cônjuges, filhos ou irmãos.
Descoberta do processo em andamento
28 anos após perder a mãe, filho se torna assistente de acusação contra suspeito do crime no Ceará
Arquivo Pessoal
Até pouco tempo, Bruno Fernandes e outros três filhos de Ivaneide acreditavam que, pelo tempo decorrido, o crime já havia prescrito. Quando um crime prescreve, o Estado não pode mais aplicar penas ao acusado.
No entanto, ele foi lembrado mais uma vez da própria tragédia familiar ao ler sobre Ana Kévile, que foi vítima de feminicídio em Deputado Irapuan Pinheiro, no interior do Ceará, no mês de abril.
“A Ana Kévile recusou a investida dele [o suspeito do crime] e foi assassinada. E a minha mãe também foi dessa maneira, embora na denúncia oferecida pelo Ministério Público não conste especificamente este motivo. Mas a minha família e a cidade inteira sabem o real motivo: que o réu, à época, tinha interesse nela e ela não queria”, afirmou Bruno em entrevista ao g1.
Aos 30 anos, Bruno exerce o cargo de ouvidor-geral adjunto do Município de Milhã. Comovido com a repercussão de vários feminicídios nos últimos meses, ele resolveu enviar um ofício ao Ministério Público do Ceará pedindo informações sobre o caso da mãe, como o andamento do processo, prescrição e providências adotadas.
A resposta do órgão trouxe algumas surpresas. Uma delas era uma ação penal em curso contra o acusado. Após ter sido preso e ter fugido da cadeia semanas depois do crime, o homem ficou foragido por décadas. Ainda em 1998, a Justiça interrompeu a prescrição do crime.
“Para a nossa família, até então, o que tínhamos era: ‘prescreveu’. Uma família simples, antigamente, em 1998, não tinha entendimento e não sabia, de fato, como proceder”, explicou Bruno.
Chances de um novo desfecho
O caso voltou a andar em 2016, quando o Ministério Público expediu novo mandado de prisão e solicitou informações a diversos órgãos em busca da localização do suspeito. Com a descoberta do endereço atualizado, por meio do domicílio eleitoral, ele foi preso em 2023, no estado de Rondônia.
Quando Bruno e os familiares descobriram sobre a prisão, o suspeito, que tem 63 anos, já tinha recebido a liberdade provisória. Ele aguarda julgamento monitorado por tornozeleira eletrônica. Bruno Fernandes não quis divulgar o nome do réu.
“Ele se isentou da Justiça em 25 anos, é preso em outro estado, longe de onde cometeu o crime. A Justiça prende, a Justiça solta cinco meses depois porque ele está longe da família da vítima”, detalha Bruno.
Entre as testemunhas que já foram ouvidas na ação penal, estão a ex-companheira do acusado, que relatou que o homem tinha chegado em casa sujo de sangue após o crime; e o dono do estabelecimento que teria vendido a faca utilizada pelo suspeito para atacar Ivaneide.
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Com o apoio de advogados, Bruno fez o pedido de habilitação para se tornar assistente de acusação no caso, tendo a solicitação aceita pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) no mês de junho.
Conforme explicou ao g1, ele poderá atuar no julgamento com auxílio ao Ministério Público. Entre as atribuições da função estão fazer perguntas e indicar novas testemunhas para o processo.
Familiares de Ivaneide, por exemplo, nunca haviam sido chamados para dar testemunho em juízo, após a conclusão do inquérito policial.
Alívio e expectativa
Bruno Fernandes se tornou assistente de acusação em processo contra homem que teria matado a mãe dele
Arquivo Pessoal
Quando Ivoneide foi morta, ela tinha deixado também duas filhas, de 1 e 4 anos de idade, e um filho mais velho, que tinha 9 anos. As duas irmãs de Bruno moram em São Paulo, enquanto ele e o irmão residem em Milhã.
Enquanto tentava novas informações sobre o caso, Bruno preferiu não contar aos irmãos para não alimentar falsas expectativas. Depois, as descobertas foram compartilhadas com os familiares e geraram surpresa entre eles.
“O sentimento da nossa família, principalmente dos meus irmãos, é um só: [pedir por] justiça, somente. Nada, nada do que for feito vai trazer ela de volta, isso é um fato. Então, o nosso desejo é que se faça justiça, mesmo tardia”, comentou.
Após a morte da mãe, Bruno relata ter contado com muito apoio e acolhimento, mas recorda as dores de ter crescido sem conseguir lembrar de como era o rosto de Ivaneide. Ele só conseguiu criar estas memórias com ajuda das fotografias da família.
“Eu tive meu pai, a minha avó e a minha madrasta, que fez um papel gigantesco na nossa vida e é uma pessoa que a gente ama muito... Mas nada substitui o amor de mãe, nada substitui a criação da mãe. E a gente se pega a perguntar: como seria? Como seria essa criação dela? Quem eu seria hoje?”, comenta Bruno.
A próxima etapa do processo — quando o réu será levado a júri popular na comarca de Solonópole — ainda não tem data marcada. A expectativa da família é que não haja uma espera longa por uma chance de ver o acusado responsabilizado pelo homicídio.
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