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Sites de dopamina: como lojas de mentira lucram com a sensação boa de fazer compras online

G1 (Globo)
Sites de dopamina: como lojas de mentira lucram com a sensação boa de fazer compras online

Sites de dopamina: conheça as plataformas com sensação de comprar sem gastar
🛒 Ele tem tudo o que existe em um site de compras tradicional. Você entra, escolhe produtos, lê avaliações, monta um carrinho, chega à etapa de pagamento e acompanha a entrega. Mas ela nunca acontece.
Poderia ser um golpe, mas não é. Os chamados "sites de dopamina" reproduzem a experiência de uma loja virtual em quase todos os detalhes, exceto naquele que realmente importa: a compra. Você não paga, mas também não leva.
🧠 O nome faz referência à dopamina, neurotransmissor associado aos mecanismos de recompensa e expectativa. É ela que está ligada às sensações despertadas durante o processo de consumo.
Nos sites de dopamina, a compra não acontece, mas o prazer de comprar, de certa forma, sim. A proposta é oferecer pequenas doses de recompensa por meio de experiências digitais que imitam situações reais.
Essa tendência se popularizou primeiro na Coreia do Sul com experiências como o Food Only Doesn't Come, uma versão fictícia dos aplicativos de entrega de comida.
A plataforma reúne cardápios, restaurantes, avaliações com estrelas e rankings de estabelecimentos. O usuário pode escolher pratos, montar o pedido e simular a entrega.
Kim, de 25 anos, ouvido pelo jornal sul-coreano "The Korea Times" diz que costuma acessar o site durante a madrugada, quando sente vontade de pedir comida, mas prefere evitar o gasto.
"Muitas vezes, sinto muita vontade de comer de madrugada, mas acabo não pedindo para economizar. Parece um aplicativo de entrega de verdade, então acabo sempre olhando (...) conforme navego, meu humor de alguma forma melhora um pouco", disse Kim ao jornal.
Outras plataformas, como o Dopamine Shopping, reproduzem a experiência de um e-commerce, com categorias como roupas, eletrônicos e cosméticos. Há cupons, descontos, recomendações, carrinho e até rastreamento da entrega. Novamente: sem compras e sem entregas reais.
Para a psicóloga especializada em consumo impulsivo Tatiana Filomensky, o sucesso dessas plataformas tem uma explicação: a dopamina não está presente apenas no momento da conquista, mas também na antecipação. Pesquisar, comparar preços e imaginar o uso de um produto já pode gerar uma sensação de recompensa.
💭 Ficam algumas perguntas: se parte do prazer de consumir acontece antes da compra, o que muda quando essa sensação pode ser acessada sem gastar dinheiro? Essas plataformas podem disputar espaço com as lojas tradicionais? E como esses sites ganham dinheiro se ninguém compra nada?
Abaixo, explore essa discussão a partir dos seguintes pontos:
O que está por trás dos sites de dopamina
Fenômeno é uma ameaça às lojas reais?
O prazer de comprar começa antes do pagamento
Comprar sem comprar pode ajudar a economizar?
Sites de dopamina simulam compras e entregas
g1
O que está por trás dos sites de dopamina
À primeira vista, os sites de dopamina parecem contraditórios: simulam a experiência de consumo, mas não vendem nada. Mas essa visão é superficial.
Por trás da proposta leve, quase inocente, está um modelo já conhecido da economia digital e cada vez mais valioso: observar, registrar e interpretar o comportamento dos usuários.
📱 Cada clique, produto visualizado, tempo gasto em uma página ou horário de acesso deixa um rastro. Essas informações não servem apenas para registrar o que a pessoa fez, mas também para prever o que ela pode fazer.
"O mais valioso não é saber quem você é, mas como você age (...) são os hábitos repetidos, muitas vezes inconscientes, que ajudam as plataformas a prever o que você vai querer", explica o professor de marketing digital Alexandre Marquesi.
Esse tipo de análise permite identificar padrões de comportamento. Uma pessoa que acessa essas plataformas de madrugada, por exemplo, pode estar mais suscetível a determinadas ofertas nesse horário. Outra, que compara produtos repetidamente, pode estar mais próxima de uma decisão de compra.
"Não importa se você não cadastra seu nome nesses sites. É possível entender o comportamento mesmo assim, com IP, cookies e tempo de navegação (...) tudo isso constrói essa identificação do usuário".
Na prática, isso abre diversas oportunidades de negócio. Os dados podem ser usados para publicidade direcionada, venda de espaço para anúncios, definição mais precisa de públicos e até previsão de tendências de consumo.
Empresas dos setores de alimentação, varejo, educação e tecnologia, entre outros, podem usar essas informações para entender melhor o momento de consumo, os hábitos e as preferências dos consumidores.
Além disso, essas plataformas têm fontes diretas de receita. Algumas exibem publicidade e firmam parcerias, mas de forma discreta, para não comprometer a experiência do usuário.
No caso do Food Only Doesn't Come, um dos exemplos mais conhecidos, o próprio site informa que se mantém com anúncios, patrocínios e até doações. A plataforma sugere que quem gostou da experiência contribua com o valor de um café.
Esse detalhe revela a lógica por trás do modelo de negócio: para essas plataformas, manter o usuário engajado é mais importante do que levá-lo à compra.
lataformas como o Dopamine Shopping replicam o comércio eletrônico, com categorias como roupas, eletrônicos e cosméticos.
Dopamine Shopping
Fenômeno é uma ameaça às lojas reais?
A lógica do consumo digital nunca foi apenas racional. Além das compras necessárias, o comércio eletrônico também depende dos impulsos e dos desejos imediatos. Muitas vezes, a decisão é influenciada por fatores como cansaço, tédio ou sensação de merecimento.
Os e-commerces tradicionais aperfeiçoaram essa dinâmica ao longo dos anos. Notificações, descontos relâmpago, recomendações personalizadas e compras com um clique são alguns exemplos.
Agora, os sites de dopamina atendem a esse desejo momentâneo sem que a compra aconteça. Para Marquesi, o fenômeno pode representar uma ameaça a esse modelo específico de comércio eletrônico.
"Todo mundo compra por impulso em algum momento (...) é como entrar no mercado com fome e comprar coisas que não precisa. No digital, a lógica é a mesma (...) quando surge algo que reduz esse impulso, o consumo final pode diminuir".
Para o especialista, o problema vai além da perda da venda. O risco é deixar de acessar justamente o momento em que o consumidor está mais suscetível ao consumo.
Marquesi compara a situação à experiência de entrar no supermercado com fome e sair com muito mais do que o planejado. Se esse impulso encontra um atalho — uma forma de ser satisfeito sem gasto —, ele pode deixar de se transformar em uma compra real.
E mais: em vez de disputar apenas a venda final, essas plataformas podem competir por algo ainda mais valioso: entender quando, como e por que alguém decide consumir. Nesse cenário, quem domina essas informações pode influenciar todo o restante.
A tendência se popularizou na Coreia do Sul com experiências como o Food Only Doesn’t Come
Food Only Doesn’t Come
O prazer de comprar começa antes do pagamento
A ideia de que comprar dá prazer não é nova. No ambiente digital, essa sensação se manifesta ao longo de todo o processo de compra. "A dopamina está muito mais ligada à expectativa do que à conquista em si", explica a psicóloga Tatiana Filomensky.
Isso significa que o cérebro já reage com sensação de prazer ao imaginar uma situação. Pensar em uma viagem, por exemplo, pode ser quase tão prazeroso quanto realizá-la. No consumo, ocorre algo semelhante.
Quando a pessoa começa a pesquisar, comparar preços e ler avaliações, já passa a experimentar essa sensação.
Segundo a especialista, esse processo já existia antes da internet: era o passeio pelo shopping. A diferença é que havia limites mais claros, como horário de funcionamento, necessidade de deslocamento e cansaço.
No ambiente digital, essas barreiras desapareceram, e a experiência se tornou contínua. As plataformas, por sua vez, utilizam diversas estratégias para manter o consumidor nesse estado de expectativa.
🛍️ Mensagens como "últimas unidades", contagens regressivas, alertas de carrinho abandonado e sugestões como "quem comprou isso também levou" não estão ali por acaso. Segundo a psicóloga, esses recursos são pensados para despertar emoções, especialmente a urgência e o medo de perder uma oportunidade.
"Quanto menor o tempo para pensar, maior a chance de a pessoa comprar", resume Tatiana.
Nesse contexto, a razão perde espaço para o impulso. E há momentos em que ele tende a se intensificar, como durante a noite.
"As pessoas estão em um momento de descanso, de lazer, e surge aquela sensação de ‘eu mereço’. Funciona como uma recompensa pelo dia cansativo".
Essa combinação cria um ambiente favorável a decisões rápidas, muitas vezes tomadas sem planejamento.
Comprar sem comprar pode ajudar a economizar?
Se, por um lado, os sites de dopamina levantam dúvidas sobre os impactos no varejo, por outro despertam uma pergunta: eles podem ajudar no controle financeiro?
Segundo Tatiana Filomensky, uma das orientações para quem tem dificuldade em controlar as compras é justamente colocar o produto no carrinho e esperar, criando um intervalo entre o desejo e a decisão.
"Criar um tempo entre a vontade e a decisão (...) outra orientação é remover os cartões cadastrados para reduzir o risco de compras por impulso".
Nesse sentido, essas plataformas podem ajudar a evitar gastos. Mas esse é apenas um lado da questão.
🚨 O mesmo mecanismo que ajuda a conter o impulso também pode reforçá-lo. Ao estimular a busca constante por pequenas doses de prazer, esses ambientes digitais podem manter a pessoa presa ao hábito de consumir, mesmo sem gastar dinheiro, alerta a especialista.
Há ainda outro ponto relevante: a sensação de vazio ao final da experiência. Nesses sites, tudo permanece no campo da imaginação. Para algumas pessoas, isso basta. Para outras, pode gerar frustração ou perder o encanto com o tempo.
Segundo Tatiana, quem não tem dificuldades com o consumo tende a perder o interesse gradualmente, porque a experiência pode parecer incompleta.
“Pode chegar um momento em que a pessoa pensa: ‘ok, mas nada chega’", conclui. ...

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