Canto matricial de Gal Costa reverbera na 'Flor de maracujá' de Roberta Sá

Roberta Sá canta 'Flor de maracujá' (1974), música de João Donato (1934 – 2023) e Lysias Ênio, no ainda inédito álbum 'Viva Donato'
Flora Negri / Divulgação
♫ PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR
♬ Ouvi “Flor de maracujá” na gravação feita por Roberta Sá para o ainda inédito tributo “Viva Donato” e constatei pela enésima vez a influência perene do canto matricial de Gal Costa (1945 – 2022) na música brasileira. E não é porque a música de João Donato (1934 – 2023) e Lysias Ênio foi apresentada ao Brasil na voz de Gal em gravação feita há 52 anos para o álbum “Cantar” (1974).
É porque “Flor de maracujá” ecoa uma leveza e uma atmosfera que me conduzem à arte de Gal Costa. Consta que a própria Gal, mãe de muitas vozes, se reconhecia no canto afinado e leve de Roberta Sá. E o fato é que, quase quatro anos após a morte inesperada da cantora baiana, Gal ainda paira como uma grande referência para muitas sucessoras. A maior referência, para ser mais exato.
E esse eco não vem de hoje. Vi Gal no primeiro álbum autoral de Marisa Monte, “Mais” (1991) há 35 anos. Vi Gal no canto de Tulipa Ruiz no primeiro álbum da artista paulistana em 2010. Vi e vejo Gal no canto de Jussara Silveira. E nem por isso essas ótimas cantoras deixaram de imprimir a própria assinatura vocal e construir a própria história na música brasileira.
É que o canto de Gal Costa se tornou uma escola, um padrão. Uma voz também é um legado que ecoa através dos tempos, passando de geração para geração.
Eu sei que a gravação de “Flor de maracujá” é somente uma entre incontáveis gravações de cantoras que carregam algo de Gal no canto. Uma bonita gravação, aliás. Talvez ouvidos mais jovens nem detectem a presença invisível de Gal nesse fonograma. Para mim, e arrisco dizer que para todos da minha geração, é impossível ouvir “Flor de maracujá” com Roberta Sá sem pensar em Gal Costa. ...
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