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Entenda como prática de dotes de casamento provocou aumento de feminicídios na Índia

G1 (Globo)
Entenda como prática de dotes de casamento provocou aumento de feminicídios na Índia

Esta foto, tirada em 3 de junho de 2026, mostra uma noiva caxemiriana sentada dentro de uma tenda decorada durante seu casamento em Srinagar.
AFP - TAUSEEF MUSTAFA
Um estudo antropológico do King's College de Londres lança nova luz sobre os feminicídios relacionados ao sistema de dotes na Índia. Embora a prática seja proibida no país desde 1961, ela continua amplamente difundida e está associada a um aumento dos assassinatos de mulheres. Segundo a pesquisa, a incapacidade das famílias das noivas de arcar com as exigências financeiras impostas pelos parentes dos noivos frequentemente termina em violência e até morte.
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Segundo o estudo publicado pela universidade britânica, o dote continua proibido na Índia, mas assumiu uma nova configuração. Na prática, passou a funcionar como um valor exigido no mercado matrimonial. Quanto mais elevado o status social do noivo, maiores são as demandas: dinheiro em espécie, joias, carros de luxo ou motocicletas de alto padrão.
Os números mostram que os assassinatos de mulheres ligados a essa prática estão aumentando, sem provocar indignação coletiva significativa. Se a família da noiva não consegue atender às exigências, a esposa pode ser submetida a assédio, violência física e, em casos extremos, ser queimada viva.
No início dos anos 1990, a Índia registrava cerca de 2 mil mortes anuais relacionadas ao dote. Hoje, segundo o estudo, o número ultrapassa 6.500 mortes por ano. A imprensa indiana noticia esses casos quase diariamente, de forma relativamente banal, reflexo de uma sociedade que se acostumou a tratar o casamento como uma transação financeira.
Atualmente, em muitas famílias, ter um filho homem é visto como um investimento. Recursos significativos são destinados à formação de futuros engenheiros, médicos ou profissionais de prestígio. Nesse contexto, o dote passa a ser encarado como uma forma de recuperar esses gastos e obter retorno financeiro. Quanto maior o status social do noivo, mais alto tende a ser o valor exigido.
Noiva passa a ser vista como um “mau negócio” Para além da união matrimonial, as famílias impõem aquilo que o estudo chama de uma verdadeira “lógica extrativista”: se a noiva não consegue atender às exigências financeiras, ela passa a ser vista como um “mau negócio” a ser eliminado. Essa lógica ajuda a explicar números alarmantes: entre 15 e 16 mulheres são mortas diariamente no país.
O estudo do King's College aponta para um feminicídio estrutural, invisibilizado por uma “organização da indiferença”. Nos anos 1980, mulheres eram queimadas vivas por essas mesmas razões, provocando grandes escândalos públicos. Hoje, as agressões assumem formas mais insidiosas. Em muitos casos, o assédio contínuo leva as esposas ao suicídio.
Agora no g1
Abortos seletivos de bebês meninas As consequências desse sistema também aparecem nos casos de feticídio. Para evitar a futura despesa com o pagamento de um dote, algumas famílias eliminam preventivamente meninas antes mesmo do nascimento por meio de abortos seletivos.
Em nível nacional, a proporção de nascimentos caiu para 927 meninas para cada mil meninos. No estado do Punjab, no norte do país, esse número é ainda mais baixo: são apenas 754 meninas para cada mil meninos nascidos.
Na visão dos movimentos feministas e das organizações de defesa dos direitos das mulheres, a solução já não virá das leis, consideradas amplamente ineficazes. A situação exigiria não uma reforma, mas uma verdadeira revolução cultural. Essas militantes tentam mobilizar os jovens para boicotar o sistema de dotes e rejeitar essa lógica de mercado aplicada ao casamento.
Para elas, enquanto as mentalidades não mudarem e o nascimento de uma menina continuar sendo visto como uma ruína financeira, esse massacre silencioso continuará destruindo a sociedade. No entanto, essas vozes encontram cada vez menos eco diante do que o estudo chama, em tradução literal, de “infraestruturas da indiferença”.
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