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Bailarino potiguar que dançava escondido do pai volta a Natal com o espetáculo 'Carlota'

G1 (Globo)
Bailarino potiguar que dançava escondido do pai volta a Natal com o espetáculo 'Carlota'

Cosme Gregory é dançarino
Cedida
Quando começou a fazer aulas de balé, aos 8 anos, Cosme Gregory escondia as sapatilhas dentro da bolsa da irmã para que o pai não descobrisse que ele estava aprendendo dança. Quase 30 anos depois, o bailarino potiguar se apresenta em Natal como um dos integrantes mais antigos da Focus Cia de Dança, companhia da qual faz parte desde 2013.
O retorno acontece com o espetáculo "Carlota – Focus Dança Piazzolla", que será apresentado nos dias 16, 17 e 18 de julho, no Teatro Alberto Maranhão (TAM), espaço onde o artista também construiu parte da própria formação.
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Os ingressos custam entre R$ 15 e R$ 50, conforme o setor escolhido e a modalidade de ingresso, e a sessão do dia 18 contará com audiodescrição. Grupos de projetos sociais previamente agendados terão acesso gratuito.
Superação
Natural de Natal, Cosme iniciou a trajetória na dança por acaso. A mãe o matriculou em um curso de férias de danças populares no Sesc, mas foi o balé que despertou seu interesse.
"Eu comecei a dançar muito cedo, ainda com 8 anos de idade, no Sesc, no Centro da cidade. Tudo começou por causa de um curso de férias que a minha mãe colocou. Era um curso de danças populares, mas eu acho que o balé me cativou em outros lugares", lembra.
Enquanto deveria participar das aulas, ele preferia observar as turmas de balé pela janela e reproduzir os movimentos do lado de fora.
"Eu faltava algumas aulas desse curso para ficar assistindo e reproduzindo do lado de fora as sequências de balé. A professora me viu, falou com a minha mãe, me convidou para participar rapidamente de uma performance de um espetáculo de final de ano e, no ano seguinte, eu estava lá fazendo aula."
O início, porém, precisou ser mantido em segredo dentro de casa. "Foi quase um ano escondido do meu pai dançando balé, escondendo a sapatilha dentro da bolsa da minha irmã e indo acompanhar ela no balé."
Depois das primeiras aulas, Cosme passou a estudar na Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão (EDTAM), dirigida na época por Ivani Rose Medeiros. Foi lá que começou a enxergar a dança como possibilidade de profissão.
"Eu acho que desde o meu primeiro contato com o meu primeiro plié, mesmo sem saber, o meu corpo já entendia que eu não ia ficar num passatempo."
Segundo ele, um episódio marcou definitivamente essa decisão: o primeiro cachê recebido como bailarino, durante a montagem do espetáculo "Um Presente de Natal", dirigido por Diana Fontes.
"Quando eu recebi meu primeiro cachê e consegui comprar uma máquina de lavar, o primeiro DVD e o meu primeiro guarda-roupa, eu comecei a entender que tudo aquilo que eu estava fazendo durante um ano inteiro poderia resultar, sim, em trabalhos", comenta.
Caminho levou o bailarino para fora do estado
Com o avanço da formação, Cosme percebeu que precisaria deixar Natal para continuar evoluindo artisticamente.
Ele passou uma temporada em Portugal e, posteriormente, ingressou na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville (SC), onde também atuou como professor e ensaiador da Companhia Jovem.
"Chegou um momento na minha carreira que eu não tinha muito mais para onde evoluir e realmente precisava criar outros caminhos para que eu pudesse me tornar o artista que eu sou hoje."
Para ele, a distância da família continua sendo a parte mais difícil da carreira. "O maior desafio, pelo menos para mim, é essa distância que eu tenho da minha família. Sair de Natal, ir para Portugal, voltar, depois ir para Joinville... construir essa lacuna onde muitas das minhas conquistas não são vistas pela minha família. Esse é o meu maior desafio como artista", diz.
Em 2012, enquanto tratava uma lesão, Cosme acreditava que seguiria apenas como professor.
Naquele ano, apresentou o solo "Silêncio da Casa" durante o Festival de Dança de Joinville. Na plateia estava Alex Neoral, diretor artístico da Focus Cia de Dança.
"O Alex me viu dançando esse solo durante o Festival de Dança. No final do ano, ele entrou em contato com o Pavel Kazarian, diretor-geral do Bolshoi. O Pavel criou essa ponte entre mim e o Alex."
Cosme Gregory
Cedida
O convite mudou os rumos da carreira. "Eu estava começando a aceitar o caminho de professor, e esse convite veio para mostrar para mim que ainda não era a minha hora de largar o palco."
Cosme integra a companhia há 13 anos. "Estar dentro de uma companhia durante 13 anos é uma afirmação ao meu compromisso com a minha dança, com a seriedade artística que eu levo e o respeito que eu tenho pela empresa", ressalta.
Lesões colocaram carreira em dúvida
Ao longo dos anos, as exigências físicas da profissão fizeram o bailarino conviver com lesões e dores constantes. "Chega um momento na nossa carreira que, inevitavelmente, a gente começa a se machucar. Nós somos atletas", explica.
Hoje, aos 38 anos, Cosme afirma que precisou adaptar a rotina para continuar em atividade, com musculação, aulas e fisioterapia.
Cosme Gregory durante apresentação
Cedida
Mesmo assim, admite que houve momentos em que pensou em abandonar os palcos. "Esse tipo de ocasião faz com que eu realmente pense em desistir do palco, porque chega uma hora que a gente realmente não quer ficar mais sentindo dor."
Segundo ele, o incentivo recebido do público foi determinante para permanecer. "São essas pessoas que fazem com que eu perceba que o meu trabalho como bailarino ainda se faz necessário. Algum dia alguém vai me assistir e eu vou receber uma palavra de muito carinho. Isso faz com que eu reforce o compromisso não só com as pessoas, mas comigo mesmo."
'Carlota' marca reencontro com Natal
Em Natal, a Focus apresenta "Carlota – Focus Dança Piazzolla", espetáculo criado pelo diretor artístico Alex Neoral a partir da obra do compositor argentino Astor Piazzolla.
A montagem presta homenagem à coreógrafa Carlota Portella e marca um retorno do coreógrafo ao movimento como ponto central da criação. Em cena, dez bailarinos exploram elementos do tango em uma linguagem contemporânea.
Cosme participou da construção da obra desde os primeiros ensaios. "Hoje os bailarinos não são apenas intérpretes. A gente também participa da criação do espetáculo."
Para ele, a montagem reúne algumas das cenas mais marcantes da carreira, especialmente pelos desafios físicos e pela intensidade da coreografia.
"É um espetáculo muito intenso, cheio de movimento e emoção. O público pode esperar uma obra com muita paixão", diz Cosme.
A temporada em Natal também contará com ações de acessibilidade. A apresentação do dia 18 de julho terá audiodescrição, e a companhia mantém uma política de ingressos a preços populares. Além disso, grupos atendidos por projetos sociais assistirão ao espetáculo gratuitamente.
Para Cosme, ampliar o acesso à cultura faz parte da missão da companhia. "A cultura não pode ser elitizada. A gente quer que todo mundo possa assistir aos nossos espetáculos. Ter audiodescrição, preços populares e ações voltadas para diferentes públicos faz parte do que acreditamos", disse.
Mesmo depois de se apresentar em diferentes países, voltar a Natal continua provocando um frio na barriga.
Parte dessa emoção está ligada ao Teatro Alberto Maranhão, onde estudou e construiu boa parte da formação artística. "É sempre como se fosse a primeira vez", diz.
Ele diz que o nervosismo não tem relação com a responsabilidade de representar o Rio Grande do Norte, mas com o fato de reencontrar pessoas que acompanharam sua trajetória desde o início.
"Eu estou dançando para a minha família. E quando falo em família, não é só meu pai, minha mãe e meus irmãos. Também penso nos professores, nos colegas e nas pessoas da Escola de Dança e da Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão. Eles fazem parte da minha história", conclui. ...

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