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Peptídeos não regulamentados podem representar riscos ainda maiores para mulheres

G1 (Globo)
Peptídeos não regulamentados podem representar riscos ainda maiores para mulheres

Os perigos ocultos dos peptídeos, e por que as mulheres correm maior risco
Adobe Stock
Uma onda de peptídeos não regulamentados está tomando conta do mundo do bem-estar, vendidos online com promessas ousadas sobre ganho muscular, antienvelhecimento e perda de gordura. Mas cresce a preocupação com os efeitos colaterais, e quase ninguém está se perguntando se essas substâncias afetam homens e mulheres da mesma forma. As evidências sugerem que não.
Mulheres têm uma chance uma vez e meia a duas vezes maior de sofrer uma reação adversa a um medicamento do que homens, para começar em parte porque mais mulheres tomam medicamentos sob prescrição. Elas vivem, em média, mais do que os homens e são mais propensas a doenças que exigem medicação de longo prazo, como osteoporose, lúpus e artrite reumatoide, e tendem a apresentar sintomas mais graves quando as desenvolvem. Isso aumenta as chances de interações medicamentosas antes mesmo que a biologia entre em jogo. Diferenças na forma como o corpo metaboliza e elimina os medicamentos, juntamente com variações hormonais e imunes, aumentam ainda mais o risco.
As mulheres também tendem a apresentar uma resposta imune mais forte a medicamentos, incluindo aqueles que passaram por testes rigorosos, sem falar nos que não passaram.
Agora no g1
Por que os hormônios femininos tornam isso mais arriscado
O ciclo menstrual de uma mulher depende de um sistema de comunicação altamente sincronizado entre o cérebro e os ovários, que garante o fornecimento dos hormônios certos para a reprodução. Esse sistema depende de um equilíbrio delicado entre vários hormônios e de uma comunicação contínua entre regiões do cérebro, como o hipotálamo e a glândula pituitária. Peptídeos que elevam artificialmente os níveis hormonais entram a partir do exterior no sistema, e ele não foi projetado para absorver esse tipo de interferência.
Dois peptídeos comercializados para crescimento muscular e antienvelhecimento — ipamorelina e CJC-1295 — atuam aumentando a produção corporal do hormônio do crescimento e de um hormônio relacionado chamado IGF-1, mantendo os níveis elevados por vários dias seguidos. Esse aumento sustentado pode causar inchaço e retenção de líquidos e tem sido associado a desequilíbrios hormonais, perturbações na função ovariana e a um maior risco de aborto espontâneo.
Essa é apenas uma pequena parte do quadro. O fígado, a tireoide, o pâncreas e as glândulas suprarrenais fazem parte dessa mesma rede hormonal e respondem a ela, e os efeitos mais amplos dos peptídeos nesses órgãos permanecem em grande parte desconhecidos.
Um peptídeo com ligação ao câncer
A timosina beta-4 é um peptídeo produzido naturalmente pelo organismo que ajuda a reparar tecidos danificados. Uma versão sintética de parte desse peptídeo, chamada TB-500, é comercializada como auxiliar na reparação de tecidos, na redução da inflamação e na melhoria da flexibilidade. Embora o peptídeo natural desempenhe um papel útil na cicatrização, ele também foi detectado em vários tipos de câncer, incluindo células de câncer de mama e algumas formas comuns de câncer de pulmão.
As taxas de câncer de pulmão em mulheres americanas com menos de 65 anos ultrapassaram as dos homens da mesma faixa etária em 2021, revertendo uma tendência que se mantinha há décadas. As mulheres também costumam ser diagnosticadas em um estágio mais avançado do que os homens, quando o câncer é mais difícil de tratar. Diante desse contexto, um peptídeo que aparece em células de câncer de mama e de pulmão não é um risco a ser menosprezado — independentemente do padrão histórico por sexo.
Peptídeos de cobre: úteis na pele, arriscados por injeção
O GHK-Cu, um complexo de tripeptídeo e cobre, tornou-se popular em cremes antienvelhecimento para a pele, onde estudos de laboratório sugerem que ele pode favorecer a produção de colágeno e a elasticidade. O problema começa quando ele é injetado.
Peptídeo GHK-Cu injetável é vendido online sem aprovação; especialistas alertam para riscos
Peptídeos injetáveis não são aprovados para uso humano, e a injeção acarreta um risco específico. A dose administrada pode ser muito maior do que a de um creme ou comprimido, já que as substâncias injetadas contornam a digestão e a barreira cutânea e vão diretamente para os tecidos em sua concentração máxima.
Como esses produtos não são regulamentados, os compradores muitas vezes não têm como saber com segurança a concentração real do conteúdo do frasco.
Isso é uma grande preocupação para mulheres em idade fértil, já que não se sabe se esses peptídeos atravessam a placenta e chegam ao feto em desenvolvimento.
O excesso de cobre no organismo pode causar dor abdominal, náusea e vômito. Na gravidez, os riscos são ainda maiores. Pesquisadores descobriram que, para cada micrograma adicional de cobre por mililitro no sangue da mãe, o risco de parto prematuro aumenta em 30%, e a gestação é encurtada em uma média de 1,6 dia.
O excesso de cobre também tem sido associado a retardo de crescimento intrauterino e problemas neurológicos no bebê, bem como a uma série de condições ginecológicas.
Mesmo o local da injeção importa
Para as mulheres, o risco não se resume apenas ao tipo de peptídeo utilizado, mas também ao local onde ele é injetado no corpo. Homens e mulheres distribuem a gordura de maneira diferente, e uma mesma pessoa pode ter mais gordura em algumas áreas do que em outras. As mulheres tendem a acumular gordura ao redor dos quadris, coxas e nádegas, o que significa que há menos tecido adiposo protetor no abdômen, tornando as injeções na barriga mais arriscadas.
Os homens, por sua vez, costumam ser mais pesados, têm uma área de superfície corporal maior e tendem a ter mais água no corpo. Isso significa que em uma mulher de idade e peso semelhantes a mesma dose tem menos espaço para se espalhar e se diluir, de modo que seus efeitos provavelmente serão mais intensos.
Peptídeos não regulamentados são uma aposta arriscada para qualquer pessoa que os consuma. Mas, para as mulheres, uma combinação de fatores biológicos, hormonais e anatômicos aumenta ainda mais o risco. Até que essas substâncias passem por estudos devidamente controlados em voluntários humanos, ninguém pode afirmar com segurança como um determinado organismo irá reagir.
Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.
Adam Taylor é professor de Anatomia na Universidade de Lancaster
Michelle Swainson é professora de Fisiologia na Universidade de Lancaster
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos. ...

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