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Itamaraty teve reunião com Coreia do Sul para tratar de dívida milionária de empresa coreana acusada de calote no Brasil

G1 (Globo)
Itamaraty teve reunião com Coreia do Sul para tratar de dívida milionária de empresa coreana  acusada de calote no Brasil

Gigante coreana pediu falência, diz ter R$ 109 de saldo e pode dar calote milionário.
A Embaixada do Brasil em Seul teve, em maio, as primeiras reuniões com o governo da Coreia do Sul para tratar das dívidas milionárias deixadas pela empresa sul-coreana Posco Engenharia e Construção no Brasil. A companhia é acusada por credores de fraude na falência para deixar o país sem pagar as dívidas, que ultrapassam R$ 640 milhões.
Os encontros foram confirmados ao g1, nesta terça-feira (7), pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Conforme a pasta, as reuniões ocorreram nos dias 26 e 27 de maio com autoridades do Ministério de Comércio, Indústria e Recursos e do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul.
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"O Brasil seguirá acompanhando o caso junto às autoridades sul-coreanas", afirmou o Itamaraty. O assunto deve ser uma das prioridades do novo embaixador brasileiro na Coreia do Sul, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel, cujo nome foi aprovado pelo Senado em abril. Ele deve assumir o posto nas próximas semanas.
A Posco Brasil foi criada em 2011 para atuar na construção da siderúrgica do Pecém (CE), projeto de US$ 5,4 bilhões que durou de 2013 a 2018. Sem estrutura no Brasil, a Posco subcontratou outras empresas para realizar os serviços - parte das contratadas afirma não ter recebido pelos serviços prestados.
As dívidas são de, pelo menos, R$ 644 milhões, mas podem chegar a R$ 1 bilhão. Entre aqueles para os quais a Posco deve dinheiro, estão ex-funcionários, pequenas e grandes empresas, e entes públicos, como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal.
Fernando Pimentel será novo embaixador do Brasil na Coreia do Sul
Edilson Rodrigues/Agência Senado
A Posco Brasil é uma "versão brasileira" da sul-coreana Posco Eco & Challenge. No início de maio, uma decisão da Justiça do Ceará autorizou credores brasileiros a cobrar as dívidas deixadas pela filial brasileira da Posco diretamente à empresa-mãe, sediada na Coreia do Sul.
Embora não seja uma condenação, a sentença abre espaço para que a matriz coreana seja responsabilizada nos processos movidos contra a brasileira - isto é, ela poderá ser cobrada pelas dívidas deixadas no país.
O presidente da Associação Internacional de Credores da Posco - grupo criado para facilitar as cobranças à empresa -, o advogado Frederico Costa, disse que a dívida da Posco no Brasil pode chegar a R$ 1 bilhão.
Ao g1, Frederico Costa disse esperar que o assunto seja tratado por Lula durante visita do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung. Ele chega ao Brasil no dia 27 de julho.
"O ministro Mauro Vieira pediu para a Embaixada do Brasil na Coreia [do Sul] entrar em contato com a empresa, já que a Embaixada da Coreia aqui no Brasil não tava fazendo nada. [Ele] Disse que era um caso de prioridade, inclusive eventualmente isso vai ser pauta da visita do presidente da Coreia aqui no Brasil", disse o presidente da associação.
Costa afirmou que teve uma reunião com membros do Ministério das Relações Exteriores e revelou que o novo embaixador, Fernando Pimentel, já vai assumir o cargo ciente do imbróglio. ""[Ele] já afirmou que esse vai ser o principal desafio dele nessa nova função como embaixador na Coreia", disse.
Infográfico - Local da obra da siderúrgica que seria feita no Pecém em parceria com empresa sul-coreana.
Arte/g1
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Justiça autorizou cobrança
A decisão da 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza que autorizou a cobrança da dívida na Coreia do Sul foi publicada no dia 11 de maio. A sentença acatou, em caráter provisório, um pedido de desconsideração de personalidade jurídica, um mecanismo que permite "desconsiderar" o CNPJ que está sendo processado e responsabilizar os "verdadeiros donos".
A decisão da Justiça cearense, porém, não significa necessariamente que a cobrança e o pagamento serão imediatamente executados na Coreia do Sul. Agora, a matriz sul-coreana será formalmente citada no processo e pode apresentar defesa.
O caso ainda deve esbarrar em uma série de questões jurídicas, uma vez que as decisões brasileiras não se aplicam automaticamente no território sul-coreano.
No pedido de falência, aceito pela Justiça em setembro de 2025, a empresa afirmou que tem um saldo na conta corrente de R$ 109. Além disso, eles declararam possuir cerca de R$ 11 mil em ativos disponíveis, um carro avaliado em R$ 70 mil e um terreno no município de São Gonçalo do Amarante, comprado por R$ 1,6 milhão.
Nos últimos anos, a sede da Posco Brasil foi um escritório de coworking em Fortaleza (CE)
Reprodução/Google Street View
Os credores - pessoas físicas ou jurídicas para as quais a Posco deve dinheiro - acusam a Posco Coreia de ter planejado a falência da sua "versão brasileira" como forma de evitar o pagamento das dívidas no Brasil.
Isso porque quando a empresa declara autofalência, a Justiça analisa se o devedor tem recursos para pagar os débitos. Se não tiver, ele não paga. Como tem poucos recursos declarados, na prática a Posco ia deixar o Brasil sem pagar quase ninguém.
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Alegação de fraude da 'versão brasileira'
Inicialmente, a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) foi um projeto de US$ 5,4 bilhões tocado por duas empresas: a brasileira Vale e a sul-coreana Dongkuk. Mais tarde, a também sul-coreana Posco entrou no negócio, com a CSP ficando 50% com a Vale, 30% com a Dongkuk e 20% com a Posco.
A Posco é uma multinacional da Coreia do Sul, considerada a maior de siderurgia do país e a sexta maior do mundo no ramo. A empresa possui diversos braços, entre elas, a Posco Eco & Challenge, antes chamada Posco Engineering & Construction, especializada em construção.
A Posco Brasil foi fundada para atuar na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), em São Gonçalo do Amarante (CE)
Divulgação/CSP
Pela legislação brasileira, para uma empresa estrangeira atuar no Brasil, ela precisa de um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), isto é, ela precisa abrir uma filial brasileira. Por isso, foi criada a Posco Brasil em 2011, com participação acionária de 99% da Posco Eco & Challenge.
Para realizar as obras da siderúrgica, a Posco Brasil, nova no território brasileiro, terceirizou os serviços e contratou diversas empresas. Da terraplanagem à locação de equipamentos, praticamente todos os serviços da obra foram realizados por terceiras.
A siderúrgica ficou pronta, mas parte das empresas contratadas pela Posco Brasil não receberam o dinheiro pelos serviços para os quais foram contratadas ou receberam apenas uma parcela do valor devido. A falta de pagamento fez com que muitas fornecedoras recorressem à Justiça, dando início ao imbróglio jurídico que culminou, em 2025, no pedido de falência da sul-coreana.
Em agosto de 2025, quando já havia sido condenada diversas vezes na Justiça a pagar dívidas acumuladas, a Posco Brasil entrou com um pedido de autofalência. No pedido de falência, a empresa alegou uma série de motivos para os problemas financeiros, entre eles a pandemia de Covid-19, recessão econômica e falta de novos contratos de obras.
No processo, a Posco Brasil afirmou que devia cerca de R$ 644 milhões a 47 credores, como empresas, ex-funcionários e a União. A Justiça do Ceará acatou o pedido de falência da Posco Brasil em setembro de 2025.
Os credores contestaram, alegando que a empresa fez uma falência planejada, com objetivo de enviar todos os lucros para a empresa-mãe, na Coreia do Sul, e deixar o Brasil sem pagar as dívidas.
Veículo declarado pela Posco Brasil como um dos seus poucos patrimônios no Brasil
Reprodução
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