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Caso Gabriel: mulher que chamou a polícia relata agressões durante abordagem antes de jovem ser encontrado morto no RS

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Caso Gabriel: mulher que chamou a polícia relata agressões durante abordagem antes de jovem ser encontrado morto no RS

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'Voltamos à ditadura?', diz mãe de jovem em júri de ex-policiais acusados de matá-lo
No segundo dia do júri popular dos três policiais acusados de envolvimento na morte de Gabriel Marques Cavalheiro, 18 anos, a moradora que acionou a Brigada Militar (BM) na noite do desaparecimento do jovem, afirmou ter visto três ex-policiais agredirem o jovem com golpes no rosto e no pescoço antes de colocá-lo na viatura.
Os ex-PMs Arleu Jacobsen, Cleber Lima e Raul Veras Pedroso respondem por homicídio qualificado por motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, que sumiu após a abordagem em agosto de 2022 e teve o corpo encontrado uma semana depois, submerso em um açude.
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Segundo a testemunha, Paula Beatriz da Silva, a polícia foi chamada após Gabriel tentar abrir o portão da casa dela. Assustada, ela acionou o 190. Na sequência, a mulher foi tentar entender quem era o homem, momento em que o jovem afirmou estar perdido e procurando a casa de uma prima e do "tio Pacheco".
"Nunca imaginei que seria o meu vizinho da rua do lado. Se ele tivesse falado que era o 'seu Antônio', eu saberia", declarou Paula.
A moradora relatou que, com a chegada da viatura, avisou aos policiais que Gabriel não era bandido, mas que estava levemente alcoolizado e perdido. De acordo com a testemunha, os ex-PMs questionaram o que o jovem fazia no local, e ele repetiu diversas vezes que estava perdido.
Durante a abordagem, conforme o depoimento, Gabriel fez um gesto, levou um tapa no rosto e caiu. Os agentes pediram para ele sentar e, em seguida, o colocaram de pé. Os policiais teriam dito que o conduziriam à delegacia para localizar um familiar. Depois disso, a moradora relatou que o jovem levou um novo golpe na altura do ombro e pescoço, foi algemado e colocado na viatura.
A versão da testemunha vai ao encontro do depoimento do médico legista responsável pela necropsia, que também foi ouvido na terça-feira (30). Para o especialista, a morte de Gabriel aconteceu devido a um trauma causado por golpes de objeto contundente na região cervical. O legista declarou não ser possível precisar a data e a hora da morte em razão das condições do corpo.
Ao todo, seis pessoas foram ouvidas no segundo dia de júri, que se estendeu até as 21h. Além da moradora e do legista, prestaram depoimento uma vizinha que estava na casa de Paula, a tenente-coronel da BM responsável pelo inquérito militar, o perito criminal que analisou o local onde o corpo foi achado e o tenente da BM que atuou nas buscas.
Até o momento, 10 testemunhas já falaram no tribunal. O julgamento segue nesta quarta-feira (1º). Mais nove pessoas devem ser ouvidas, seguidas pelo interrogatório dos réus. Após essa etapa, iniciam-se os debates entre acusação e defesa.
As primeiras testemunhas ouvidas, ainda na segunda (29) foram os pais da vítima e o delegado da Polícia Civil responsável pela investigação na época. Por cerca de uma hora, cada um, Rosane Machado Marques e Anderson Cavalheiro relataram a dor da perda e contestaram a versão dos policiais de que teriam apenas dado uma carona ao jovem.
Rosane revelou a última vez que conversou com o filho, através de ligação telefônica, horas antes dele ser abordado pela guarnição da Brigada Militar.
“Voltamos à ditadura? O que meu filho fez de tão grave para ser morto a pauladas?” , questionou Rosane Marques.
O terceiro a prestar depoimento foi o delegado responsável pelo inquérito policial, José Soares Bastos. Por quase três horas o investigador detalhou as provas reunidas, apontando indícios de agressões físicas antes da morte. Para o delegado, a abordagem truculenta teria sido fatal.
“Fiz o inquérito apontando os policiais e tenho convicção que foram aquelas agressões que mataram o jovem”, define o delegado.
Vídeo mostra abordagem a jovem desaparecido em São Gabriel
Relembre o caso
O jovem, de 18 anos, foi encontrado morto em um açude, na localidade de Lava Pé, em São Gabriel. Segundo a denúncia, momentos antes, ele teria sido abordado por policiais e teria sido agredido por um deles com golpes de cassetete na região cervical. A abordagem foi gravada em vídeo.
Gabriel Marques Cavalheiro se mudou de Guaíba, onde morava com os pais, para São Gabriel, onde iria prestar o serviço militar obrigatório. O jovem estava hospedado na casa de um tio, mas a irmã também morava na cidade.
Ele desapareceu após ser abordado por três policiais militares na Avenida Sete de Setembro. Uma vizinha da casa em que ele estava hospedado chamou a polícia porque, segundo ela, o jovem estaria forçando o portão que dá para o pátio em frente ao imóvel.
Os policiais teriam agredido Gabriel, que foi imobilizado e levado para dentro de uma viatura militar. Testemunhas disseram que ele foi atingido por "pelo menos dois ou três golpes de cassete". Essa foi a última vez que Gabriel teria sido visto com vida.
O corpo de Gabriel foi localizado uma semana depois do desaparecimento, submerso em um açude na localidade. No mesmo dia, três PMs suspeitos do assassinato foram presos.
O que dizem as defesas
Jean Severo, advogado dos ex-soldados Cléber Lima e Raul Veras Pedroso:
“A defesa está muito tranquila, porque o Conselho de Sentença de São Gabriel vai entender o que realmente aconteceu naquela noite fatídica. Esses homens são inocentes e certamente serão absolvidos.”
Maurício Custódio, advogado do ex-sargento Arleu Jacobsen:
“Arleu é inocente, isso não há dúvida alguma. Iremos demonstrar ao povo são-gabrielense que essa foi uma das maiores injustiças cometidas contra um cidadão brasileiro.”
Rosane Marques (à direita) prestou depoimento em júri de ex-policiais acusados de matar o filho dela, Gabriel Marques Cavalheiro (esquerda)
Arquivo pessoal e Reprodução/RBS TV
O que diz o Ministério Público
O promotor de justiça Eugênio Amorim afirmou que o MP vai buscar a condenação dos réus:
“Não podemos trazer Gabriel de volta, mas ao menos impedir que esta família tenha um segundo luto, o da injustiça e da impunidade. O Ministério Público vai forte, vai firme e vai buscar a condenação.”
Gabriel Marques Cavalheiro
Arquivo pessoal
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