Bacellar foi transferido para presídio federal após STF apontar uso de celular na cadeia

A transferência do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar para um presídio federal em Brasília foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a investigação apontar que ele continuava tendo acesso a telefones celulares enquanto estava preso no Rio.
Segundo Moraes, Bacellar recebia privilégios na unidade prisional e, por meio do uso dos aparelhos, seguia exercendo influência sobre integrantes do poder público fluminense.
O ministro é o relator do inquérito que apura um suposto esquema de financiamento ilegal de campanhas eleitorais com recursos do jogo do bicho.
A transferência foi determinada no âmbito da quinta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal no início do mês.
Além de Bacellar, a operação cumpriu mandados de prisão contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho — que já estava preso —, e Márcio Pôncio.
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A investigação
As investigações apontam que o grupo criminoso teria utilizado seis gráficas da Baixada Fluminense e de São Gonçalo para financiar campanhas eleitorais durante as eleições de 2022.
De acordo com a PF, os candidatos contratavam material de campanha dessas empresas, mas o pagamento seria feito com recursos da organização ligada ao jogo do bicho, e não pelos próprios políticos.
Segundo o inquérito, a principal empresa utilizada no esquema foi a Gráfica Editora Completa. Durante as eleições de 2022, ela atendeu 73 candidatos e movimentou R$ 1,488 milhão, valor oriundo quase integralmente de fundos públicos eleitorais.
As empresas investigadas foram alvo de buscas na quinta fase da Operação Unha e Carne. Quatro delas já haviam sido investigadas pela PF em 2022, na Operação Smoke Free, quando Adilsinho teve a prisão decretada.
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Rodrigo Bacellar na sede da PF no Rio
Reprodução/TV Globo
Ainda segundo a investigação, empresas ligadas ao bicheiro mantiveram intensa movimentação financeira com os donos das gráficas. Apenas a Companhia Sulamericana de Tabacos, apontada pela PF como pertencente a Adilsinho, realizou 47 transferências para a Apel Gráfica e Editora, totalizando R$ 1,82 milhão.
O sobrinho do contraventor, Bernardo Coutinho Loyola, também teria recebido R$ 300 mil da mesma empresa.
Lista com 61 políticos
Um dos principais elementos da investigação é uma lista apreendida pela Polícia Federal na mesa de cabeceira de Adilsinho durante a Operação Smoke Free, em 2022.
As planilhas traziam os nomes de 61 candidatos das eleições daquele ano, além de valores e anotações como "em espécie" e "no banco". As quantias registradas ultrapassam R$ 20 milhões.
A partir da apreensão desses documentos, a PF passou a investigar a relação entre as gráficas e os políticos citados.
Segundo o inquérito, a organização criminosa utilizava sua estrutura financeira como canal para escoar recursos destinados ao financiamento de campanhas eleitorais e ao enriquecimento ilícito de agentes públicos, estabelecendo um vínculo entre a contravenção e a administração pública estadual.
Os políticos mencionados nas planilhas não foram alvo da operação deste mês. A investigação está em fase de cruzamento de dados.
De acordo com a PF, o confronto entre os manuscritos apreendidos e as prestações de contas apresentadas pelos candidatos à Justiça Eleitoral revelou convergência de informações, reforçando a hipótese de que dinheiro em espécie era injetado nas campanhas de candidatos que, posteriormente, atuariam em defesa dos interesses do grupo criminoso nos poderes Executivo e Legislativo.
Apesar de a Operação Unha e Carne ter sido deflagrada no dia 2 deste mês, as defesas dos investigados afirmam que só tiveram acesso à decisão judicial nesta semana.
O que dizem os citados
A defesa de Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, afirmou que ele nega ser o autor das planilhas apresentadas pela Polícia Federal e diz desconhecer a origem e o conteúdo dos documentos.
Segundo os advogados, há "patente divergência" entre o manuscrito apócrifo apreendido e o material apresentado pelos investigadores.
A defesa também afirmou que o bicheiro nega qualquer relação com as gráficas investigadas e sustenta que jamais fez pagamentos a agentes públicos ou políticos.
A defesa de Rodrigo Bacellar informou que não vai comentar o caso.
A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) afirmou que não foi comunicada oficialmente sobre a motivação da transferência de Bacellar para um presídio federal.
A pasta acrescentou que, durante o período em que ele permaneceu no sistema prisional fluminense, além das revistas de rotina, a Corregedoria-Geral realizou ações sistemáticas no espaço onde ele estava custodiado e que nenhum material irregular foi encontrado.
A defesa de Bernardo Loyola afirmou que não teve acesso aos autos e que o "cliente desconhece os pagamentos relacionados pela reportagem".
O g1 não conseguiu contato com as seis gráficas citadas na investigação. ...
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