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Brasil tem 63 milhões sem educação básica completa; rede quer ampliar volta à escola e inclusão no trabalho

G1 (Globo)
Brasil tem 63 milhões sem educação básica completa; rede quer ampliar volta à escola e inclusão no trabalho

Sala de aula com professora e estudantes da EJA em Brasília, no DF
Geovana Albuquerque/Agência Brasília
O Brasil tem 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais fora da escola sem concluir a educação básica, o equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária. Apesar da dimensão do desafio, a principal política voltada ao retorno escolar desse público, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), alcança hoje apenas 1,5% da demanda potencial.
Os dados fazem parte do estudo inédito "Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho", elaborado pela Rede EJA e Inclusão Produtiva em parceria com instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil. O relatório conclui ainda que a baixa escolaridade provoca uma perda estimada de R$ 66 bilhões por ano em renda e afirma que o número de brasileiros nessa condição vem diminuindo mais pelo envelhecimento e pela mortalidade dessa população do que pelo retorno aos estudos.
Pesquisadores destacam a necessidade de ampliar a oferta de vagas juntamente com medidas como creches, horários flexíveis e condições para conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares para maior adesão.
O estudo é apresentado durante o lançamento oficial da Rede EJA e Inclusão Produtiva, nesta terça-feira (7), em Brasília. A iniciativa reúne 16 organizações da sociedade civil e organismos multilaterais para colocar a educação de jovens e adultos e a inclusão produtiva no centro do debate público e contribuir para a implementação das metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE).
Agora no g1
Quem são os brasileiros que não concluíram a educação básica
Segundo o levantamento, dos 63,9 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais fora da escola e sem concluir a educação básica:
44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental;
19,3 milhões interromperam os estudos antes de terminar o ensino médio;
63,9% são pessoas pretas ou pardas;
49,2% são mulheres, indicando participação semelhante entre os dois sexos.
Os pesquisadores destacam que esse contingente supera a população de muitos países e representa um desafio estrutural para a educação, a economia e a redução das desigualdades sociais.
Queda do número de pessoas sem escolaridade básica não ocorreu pelo retorno à escola
Entre 2012 e 2025, o número de pessoas fora da escola sem educação básica completa caiu 16%.
O relatório, porém, afirma que essa redução não reflete um aumento expressivo da escolarização da população adulta. Segundo os autores, apenas 8% dessa queda pode ser atribuída à atuação da EJA.
Mais da metade da diminuição ocorreu em razão da mortalidade dessa população, especialmente entre as gerações mais velhas.
Na avaliação dos pesquisadores, o país está "perdendo" essa população antes de conseguir garantir seu direito à escolarização.
Educação de Jovens e Adultos alcança apenas 1,5% da demanda potencial
A EJA é hoje a principal política pública voltada para quem deseja retomar os estudos, mas atende apenas uma pequena parcela da população que necessita dessa modalidade.
A cobertura identificada pelo estudo é de:
1,4% da demanda nos anos iniciais do ensino fundamental;
1,1% nos anos finais do ensino fundamental;
2,3% no ensino médio.
Além disso, o levantamento mostra que o número de municípios sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou entre 2008 e 2024, indicando retração da oferta em todo o país.
Segundo os autores, o descompasso entre a demanda existente e o atendimento oferecido constitui um dos principais desafios da política educacional brasileira.
Norte e Nordeste concentram os maiores déficits
A distribuição da baixa escolaridade não é homogênea no território nacional. O estudo mostra que as maiores concentrações de jovens e adultos sem educação básica completa estão nas regiões Norte e Nordeste, onde, em diversas mesorregiões, mais da metade da população com 15 anos ou mais não concluiu a educação básica.
Os pesquisadores observam, entretanto, que o fenômeno também aparece em áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste, defendendo políticas públicas territorializadas que priorizem as regiões mais vulneráveis.
Baixa escolaridade está ligada à pobreza e à menor renda
O relatório identifica uma forte associação entre escolaridade incompleta e condições socioeconômicas desfavoráveis.
Segundo o estudo, a renda domiciliar per capita média das pessoas fora da escola sem educação básica completa é de R$ 1.427, valor equivalente a 51,4% da renda média daqueles que concluíram a educação básica, estimada em R$ 2.777.
Além disso:
56,5% vivem em domicílios com renda de até um salário mínimo;
32,8% vivem abaixo da linha de pobreza adotada para países de renda média-alta;
a taxa de pobreza é 1,8 vez maior do que entre quem concluiu a educação básica.
O estudo também aponta que a baixa escolaridade permanece associada à pobreza, à precariedade do trabalho e às desigualdades sociais e territoriais.
Homens e mulheres enfrentam obstáculos diferentes para voltar à escola
Os motivos para abandonar os estudos e as dificuldades para retornar variam conforme o gênero.
🙎🏽‍♂️ Entre os homens, o principal fator é o trabalho, tanto para interromper a trajetória escolar quanto para impedir o retorno às salas de aula.
👩🏽 Entre as mulheres, predominam os filhos, as responsabilidades familiares e os cuidados domésticos.
Segundo os pesquisadores, ampliar a oferta de vagas, sem medidas como creches, horários flexíveis e condições para conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares, reduz significativamente as chances de permanência e conclusão da educação básica.
Relatório propõe sete medidas para ampliar a escolarização
Como resposta ao cenário identificado, o estudo recomenda sete frentes prioritárias:
estabelecer metas baseadas no número absoluto de pessoas que concluem a educação básica;
garantir que a certificação por exames seja acompanhada de oferta efetiva de escolarização;
fortalecer ações de busca ativa para localizar quem abandonou os estudos;
direcionar recursos às regiões com maior déficit educacional;
integrar políticas de educação, trabalho e proteção social;
ampliar condições para conciliar estudo, trabalho e cuidados familiares, incluindo creches e horários flexíveis;
assegurar financiamento contínuo, materiais didáticos atualizados e formação permanente de professores.
Nova rede quer fortalecer a Educação de Jovens e Adultos
A Rede EJA e Inclusão Produtiva reúne 16 organizações da sociedade civil e organismos multilaterais e atuará ao longo da próxima década para ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos e promover a inclusão produtiva.
Segundo a iniciativa, o objetivo é produzir e disseminar conhecimento, mapear políticas públicas bem-sucedidas, articular gestores públicos, sociedade civil, setor produtivo e organismos internacionais e apoiar a implementação das metas do novo Plano Nacional de Educação.
Os pesquisadores avaliam que o novo ciclo do PNE representa uma oportunidade para ampliar o acesso da população adulta à educação básica. Sem a expansão da EJA e políticas permanentes de busca ativa, alertam, o Brasil continuará reduzindo esse contingente principalmente pelo envelhecimento e pela mortalidade, e não pela escolarização.
A Rede Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Inclusão Produtiva é composta por 16 organizações parceiras: Ação Educativa, Ashoka, Conhecimento Social – Estratégia e Gestão, Conselho Nacional do SESI, Fundação Arymax, Fundação Bradesco, Fundação Itaú – Itaú Educação e Trabalho, Fundação Roberto Marinho, GIFE – Grupo de Instituições, Fundações e Empresas, Instituto Rodrigo Mendes, Pacto Global da ONU, Redes da Maré, Todos Pela Educação, UNESCO, UNICEF e United Way Brasil – Juventudes Potentes.
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