De camelô aos 14 a influenciadora que recusou R$ 70 mil do 'tigrinho': Nicoly Oliver conta como um acidente mudou sua vida

De camelô a influencer: Nicoly foi atrás do cabelo de R$100... e mudou de vida
Camelô, vendedora de quentinhas na praia, atendente do Poupatempo e promotora de eventos. Antes de conquistar mais de 400 mil seguidores nas redes sociais, Nicoly Oliver, de 24 anos, passou por diferentes profissões para conquistar independência financeira.
Começou a trabalhar aos 14 anos, conciliando a rotina nas ruas com os estudos, e, aos 18, já havia juntado dinheiro suficiente para construir a própria quitinete no quintal da casa da família, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Nicoly Oliver é mais uma entrevistada da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop
Na conversa com o g1, ela relembra o início da vida profissional, conta como um acidente de moto acabou mudando seu destino e revela por que recusou uma proposta de R$ 70 mil para divulgar plataformas de apostas — o chamado "tigrinho".
Ela conta que a trajetória nas redes sociais começou por acaso, depois de um acidente de moto que a deixou quatro meses sem andar.
A influenciadora afirma que nunca planejou viver da internet. A mudança aconteceu em 2024, quando publicou um vídeo antes de sair para o trabalho. No caminho, sofreu um acidente de moto que a deixou 4 meses sem conseguir andar. Enquanto se recuperava, descobriu que o vídeo havia ultrapassado 1 milhão de visualizações. Pouco tempo depois, outro conteúdo, sobre as dificuldades de cuidar do cabelo natural, passou dos 9 milhões de acessos.
"É surreal como Deus trabalha. Eu sofri muito naquele período, mas foi através do acidente que eu me tornei influenciadora. Eu nunca imaginei que um dia estaria falando para tanta gente", diz.
Nicoly Oliver
Arte g1
Hoje, Nicoly produz conteúdos de humor e do cotidiano e dicas de produtos acessíveis voltados principalmente para pessoas das classes C e D. Ela diz que faz questão de mostrar sua realidade.
"Eu tive que mostrar para o público que eu não sou rica. Moro em uma quitinete no quintal da minha família. Quero que as pessoas vejam que dá para se arrumar e se sentir bem mesmo com pouco dinheiro."
Outro assunto abordado na entrevista foi a divulgação de plataformas de apostas. Nicoly conta que recebeu a primeira proposta quando ainda tinha cerca de 10 mil seguidores. Segundo ela, a oferta previa um pagamento de R$ 70 mil.
Apesar do valor, decidiu recusar.
"É tentador, mas eu não consigo. Eu sei como esse dinheiro funciona. Todo dia recebo propostas e nem abro mais as mensagens."
A influenciadora também relembra as agressões que viu a mãe sofrer durante a infância e afirma que essa experiência moldou sua relação com dinheiro e independência financeira.
"Minha mãe dizia para eu ter ela como um mau exemplo nesse aspecto, para eu nunca depender de um homem. Isso virou um combustível para correr atrás das minhas coisas."
Apesar do sucesso nas redes sociais, Nicoly afirma que continua investindo nos estudos. Formada como técnica de enfermagem, ela está concluindo um curso de administração e pretende estudar inglês.
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Ela afirma que prefere manter a credibilidade com os seguidores e acredita que novas oportunidades surgem por causa dessa escolha.
Leia a entrevista completa abaixo:
Como foi sua infância e adolescência?
Nicoly Oliver na época de camelô
Arquivo pessoal
"Foi uma infância muito boa, tranquila, aqui em São João de Meriti. Comecei a trabalhar com 14 anos porque queria ter minhas próprias coisas. Minha mãe dava tudo o que podia, mas eu queria mais conforto e decidi correr atrás.
Primeiro distribuí panfletos e depois virei camelô. Trabalhei em São João, na Pavuna, vendendo de tudo: chinelo, relógio, maquiagem, sutiã, película e capa de celular. Também trabalhei em lava-jato.
Depois fui vender quentinha na Praia de Ipanema e acabei alugando cadeiras e guarda-sóis.
Em nenhum momento parei de estudar. Saía cedo para trabalhar, voltava cheia de areia nas pernas e ia direto para a escola. Sempre estudei à noite."
Nicoly Oliver quando era pequena
Arquivo pessoal
Do que você mais se orgulha dessa época?
"O contato com as pessoas foi o que eu mais gostei. Eu também aprendi a guardar dinheiro. Depositava R$ 10, R$ 20 sempre que podia e consegui juntar R$ 10 mil aos 16 anos.
Com esse dinheiro comecei a construir uma quitinete no quintal da casa da minha mãe. Aos 17 para 18 anos passei a morar sozinha. Sempre sonhei em ter meu próprio quarto."
Você também ajudou seu irmão por meio da internet?
"Meu irmão mais novo é autista e eu o considero como um filho. Através do meu trabalho consegui parceria com uma clínica para ele voltar ao tratamento. A internet abriu portas que eu nunca imaginei.".
Nicoly Oliver quando vendia quentinha
Arquivo pessoal
Você já imaginava trabalhar com internet?
"Nunca. Depois do camelô fui para meu primeiro emprego de carteira assinada e fiquei quatro anos. A rua me ensinou muito e o trabalho também. Aprendi a me comunicar e lidar com o público. Acho que tudo isso me preparou sem eu perceber."
Como aconteceu a virada?
"No dia do acidente de moto eu gravei um vídeo falando sobre um relacionamento abusivo que vivi. Postei e fui trabalhar.
No caminho sofri o acidente, levei 37 pontos no pé e fiquei quatro meses sem andar.
Quando fui olhar o celular, o vídeo tinha passado de 1 milhão de visualizações. Depois gravei outro sobre meu cabelo natural e ele bateu 9 milhões. Eu estava parada em casa e comecei a fazer lives. Quando recebi meu primeiro pagamento da internet percebi que aquilo poderia virar uma profissão."
Como foi o início da carreira?
"Eu não sabia quanto cobrar. Fazia vídeo por R$ 150 porque era o que eu ganhava trabalhando em eventos. Outras influenciadoras começaram a me orientar, me ensinaram a precificar meu trabalho e me apresentaram para lojistas. Foi assim que virei garota-propaganda."
Como a internet mudou sua vida financeira?
"Hoje ganho mais do que quando era CLT. A internet mudou minha vida, mas ainda tenho objetivos.
Só vou dizer que mudei totalmente de vida quando tiver minha casa e meu carro.
Mesmo assim, gosto da liberdade de fazer meus horários. E se um dia acabar, eu tenho outras profissões. Sou técnica de enfermagem, estou terminando administração e quero estudar inglês."
Você já recebeu propostas para divulgar jogos de azar. Por que recusou?
"O tigrinho mudaria a vida da minha família inteira. Minha primeira proposta foi quando eu tinha cerca de 10 mil seguidores. Me ofereceram R$ 70 mil."
"Eu até quis entender como funcionava, mas quando explicaram que o dinheiro dependia do prejuízo das pessoas, eu disse que não dava para mim. Até hoje recebo propostas quase todos os dias. Nem abro mais as mensagens. É tentador, mas eu não consigo."
Como você lida com a exposição da sua realidade financeira?
"Chegou um momento em que as pessoas achavam que eu era rica. Então mostrei minha casa, minha quitinete e expliquei que continuo morando no quintal da minha família."
Meu público é formado principalmente por pessoas das classes C e D. Quero mostrar que dá para se vestir bem, se cuidar e se sentir bonita mesmo sem gastar muito."
Você acredita que inspira outras pessoas?
"Eu acho bonito quando alguém diz isso. Tento mostrar que, mesmo com pouco dinheiro, a gente consegue correr atrás, comprar uma roupa legal, fazer um penteado, melhorar a autoestima. Essa é a realidade do meu público."
Nicoly Oliver
Arquivo pessoal
Do que você mais se orgulha?
"Da Nicoly que eu sou. Porque eu sou íntegra, e a minha mãe foi casada por muito tempo e a pessoa que ela foi casada dizia que eu não ia prestar e ia ter um monte de filho e os meus irmãos, que não são filhos dele, iam ser bandidos. Então, poder mostrar que além de ainda não ter modificado totalmente a minha vida, mas poder mostrar que eu consigo mudar minha realidade e da minha mãe, dos meus irmãos e do próprio filho dele é gratificante. Porque o homem que dá pensão e acha que é o suficiente e não faz mais nada não é pai para mim.
Então, é mostrar para a Nicoly que era camelô, que foi expulsa de casa, que viu a mãe sofrer, que viu a mãe ser ralada dentro de casa pelo marido, ver que hoje minha mãe se libertou, é independente, que ela faz o que ela quer, que ela trabalha para ter as coisas dela e não depende de homem nenhum é muito, muito gratificante para mim, eu tenho pavor desse corredor aqui porque eu era nova e lembro dele arrastando minha mãe pelo cabelo, batendo nela pelo corredor.
Então, assim a gente vê que a gente mudou nossa realidade e sendo honesto. Ele falou que eu ia ter um monte de filho, eu tenho 24 anos e não tenho filho, eu tenho minha casa própria, eu tenho o meu automóvel à vista, tudo certinho, sou habilitada. Eu pude mostrar para ele o que ele disse que nós seríamos, nós não somos e fomos muito melhor. Então, é muito gratificante ser a Nicoly que eu sou hoje.
A dependência emocional é uma coisa muito forte. E foi dos meus 9 aos meus 17 anos que eu vi a minha mãe sendo agredida por um homem e que ela não conseguia sair dessa relação. Eu chorava e falava: ‘mãe, sai’.
Eu já trabalhava como camelô na época, com meus 14, 15 anos. Foi um dos motivos por que eu comecei a trabalhar também. Eu falava para ele assim vai embora que a gente não vai precisar de você. Era muito triste olhar minha mãe viver aquilo tudo e não poder fazer nada, mas é um combustível também de garra.
Minha mãe dizia: ‘você me tenha como mau exemplo, não seja o que eu sou’. Eu admiro muito a minha mãe, mas pelo que ela passou ela não queria que eu passasse. Então, hoje eu não abaixo a cabeça para homem. Eu tenho meu dinheiro, tenho minha condição, porque minha mãe falou para eu não ser o que ela era, então tenho pavor de engravidar."
Nicoly Oliver
Arquivo pessoal
Que mensagem você gostaria de deixar para quem está te assistindo?
"Eu queria deixar para vocês nunca duvidarem do sonho de vocês. É gente, é difícil. Tem vezes que não vai ser fácil não. Mas não desiste. É fácil falar, não desiste. Tenha o plano A, B e C, mas não desista. Às vezes são vídeos bobos. O meu viralizou que eu nunca imaginei que viralizaria.
Se quer viver disso, não espere apoio familiar, faça e você vai ver acontecer. Comece. E, acima de tudo, estuda. Hoje eu faço administração porque eu quero que eu já sou formada. Mas além, para além da administração, eu aprendi um pouco mais sobre informática, entrei no marketing e logística. Você aprende um pouco de tudo isso.
Hoje eu quero conseguir um curso, alguma coisa em inglês, porque já passou eu falando “ok, yes, baby”? Então assim eu estudo para crescer e correr atrás que ficar sentado esperando não vai dar em nada." ...
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