Mãe denuncia morte de bebê minutos após o parto e arquivamento de BO no PI; caso é invesigado

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Hospital Regional Justino Luz, em Picos
Antonio Rocha/TV Clube
Uma jovem de 22 anos denunciou que a filha morreu cinco minutos depois de nascer após a médica que a atendeu insistir no parto normal. O caso aconteceu em janeiro deste ano, no Hospital Regional Justino Luz, em Picos (PI). Segundo a defesa da mãe, o trabalho de parto durou cerca de sete horas porque a médica desautorizou a cirurgia cesárea.
Além disso, a advogada da jovem, Thaysa Soares, afirmou que o boletim de ocorrência feito em fevereiro na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Picos foi arquivado três dias depois, sem abertura de investigação.
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Ao g1, o delegado-geral Luccy Keyko informou que tomou conhecimento do arquivamento e encaminhou a informação à Corregedoria para apurar possível infração administrativa.
Ele afirmou ainda que já há procedimento instaurado para investigar as circunstâncias dos fatos descritos no boletim de ocorrência "em toda a extensão, com o máximo de isenção e rigor técnico".
Agora no g1
A advogada da jovem informou que fez denúncias ao hospital, ao Conselho Regional de Medicina do Piauí (CRM-PI) e ao Ministério Público do Piauí (MPPI).
Procurado pelo g1, o Hospital Justino Luz informou que um comitê interno da unidade apurou a situação e concluiu que a morte da bebê foi um "evento adverso de natureza clínica", sem correlação direta com negligência, imprudência ou imperícia profissional (leia a nota completa).
O CRM afirmou que não se manifesta sobre processos que correm em segredo judicial, enquanto o Ministério Público disse que investiga possíveis falhas no serviço de obstetrícia do hospital.
Mãe pediu pela cesárea
De acordo com a advogada Thaysa Soares, que representa a mãe da bebê, a jovem mora em Itainópolis (PI), a 52 km de Picos, e deu entrada no Hospital Justino Luz às 17h de 3 de janeiro de 2026.
Inicialmente, outro médico a recebeu e disse que ela tinha todas as condições de ter um parto normal, encaminhando-a para a equipe de enfermagem responsável pelo trabalho de parto.
Às 19h, porém, a médica denunciada pela família substituiu o colega na troca de plantão. A partir desse momento, segundo a advogada, começou um processo marcado pelas dores intensas do trabalho de parto e pela ausência da profissional.
"A enfermeira e a fisioterapeuta constataram que as contrações da mãe começaram a se espaçar progressivamente, [o que levou a] uma diminuição acentuada dos batimentos cardiofetais do bebê", contou Thaysa ao g1.
A advogada disse que, a partir das 21h, a paciente estava esgotada fisicamente e não conseguia mais fazer força para que a bebê saísse. A mãe, então, pediu à equipe de saúde que fosse submetida à cesárea — o que foi negado pela médica.
"Depois de quase quatro horas que a médica tinha entrado no plantão, ela compareceu, mas não autorizou a cirurgia cesárea. Manteve a afirmação sempre ríspida, e a justificativa dela foi que a expulsão demorava mesmo, e ficou por isso", relatou.
A filha nasceu às 0h15 de 4 de janeiro, de acordo com a certidão de nascimento, sem chorar e com a cabeça roxa, apresentando sinais de esmagamento. Cinco minutos depois, às 0h20, como aponta a certidão de óbito, a morte dela por parada cardiorrespiratória e insuficiência respiratória foi declarada pela equipe médica.
Thaysa afirmou que a médica não esteve presente durante o nascimento da bebê e, após o falecimento, compareceu somente para suturar a mãe e comentar que estava a "achando forte" depois do trabalho de parto.
Ainda segundo Thaysa, a jovem foi mantida no quarto do hospital, até as 10h, sem qualquer contato com a profissional. Ela expressou o desejo de sair para ir ao velório da filha, o que só foi autorizado após pedido da advogada à assistência social da unidade.
Boletim de ocorrência arquivado
No dia seguinte, em 5 de janeiro, a defesa da família fez uma denúncia à ouvidoria interna do Hospital Justino Luz. Em nota, o hospital informou que as investigações feitas por um comitê multidisciplinar concluíram que a equipe médica "esteve em conformidade com os princípios técnicos e as diretrizes de boas práticas assistenciais".
Um mês depois, em fevereiro, a mãe e a família registraram um boletim de ocorrência contra a médica na 1ª Delegacia de Picos. Contudo, segundo a advogada, três dias depois, o BO foi arquivado pelo delegado que estava tirando férias do delegado responsável pela unidade policial.
"Para nossa surpresa, o delegado que estava assumindo as férias desse delegado era irmão da médica. Quando a gente foi procurar após o período de férias, o delegado responsável, o titular, nos informou que o anterior, no caso, o irmão da médica, havia arquivado o boletim de ocorrência", disse.
"Ele não chegou a instaurar o inquérito, ele pegou o boletim de ocorrência e arquivou, e ficou por isso mesmo. Então nós solicitamos ao Ministério Público para oficiar a corrigedoria, informando a conduta do delegado e que fosse determinado a instauração do inquérito", completou a advogada.
Procurado pelo g1, o MP informou que há um procedimento em andamento para apurar eventual falha na prestação do serviço de obstetrícia do hospital. O órgão também solicitou ao CRM a abertura de sindicância para investigar a conduta dos profissionais envolvidos na denúncia.
Sobre a não instauração do inquérito policial, informou que a Promotoria de Justiça responsável pelo controle externo da atividade policial deverá adotar as providências cabíveis.
Questionado sobre as acusações da defesa, o delegado Rodrigo Morais, atual responsável pela investigação, afirmou que o caso será conduzido com imparcialidade e baseado em critérios técnicos e jurídicos.
"Vamos ouvir todos os envolvidos, incluindo a vítima, testemunhas que estavam no local, profissionais de saúde e a médica. Também vamos solicitar o prontuário médico e aguardar a conclusão dos procedimentos em andamento no CRM", disse.
"Tudo será feito na mais absoluta lisura, dentro dos critérios técnico-jurídicos para eventual responsabilização ou afastamento de responsabilidade. Quero que todos acompanhem, inclusive a Corregedoria e a Delegacia-Geral. Vamos nos aprofundar para nos aproximarmos o máximo possível da verdade dos fatos", completou.
Confira a nota do hospital:
O Hospital Regional Justino Luz esclarece que, em relação ao caso ocorrido no dia 3 de janeiro de 2026, ao tomar conhecimento dos fatos, instaurou imediatamente um comitê interno multidisciplinar para apuração detalhada da situação.
As investigações concluíram que a conduta adotada pela equipe esteve em conformidade com os princípios técnicos e as diretrizes de boas práticas assistenciais vigentes. O desfecho foi caracterizado como um evento adverso de natureza clínica, sem correlação direta com negligência, imprudência ou imperícia profissional.
A direção do Hospital Regional Justino Luz lamenta profundamente o ocorrido, reafirma seu respeito à paciente e aos familiares e se solidariza com a família neste momento. A instituição permanece à disposição para oferecer acolhimento, escuta ativa e todo o suporte necessário.
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