Falta de atendimento, medo e desinformação ameaçam animais silvestres na região de Sorocaba

Falta de atendimento, medo e desinformação ameaçam animais silvestres na região
A fauna silvestre da região de Sorocaba (SP) enfrenta um duplo desafio para sobreviver: a falta de um Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) local e o avanço da violência provocada pelo medo e pela desinformação humana. Espécies como sapos, cobras, gambás e aranhas são frequentemente mortas por moradores que desconhecem o papel vital desses animais no equilíbrio da natureza.
O preconceito contra esses animais ganhou força até nas redes sociais com memes que ironizam o hábito cruel de jogar sal em sapos e lesmas. Atualmente, a unidade de resgate e reabilitação mais próxima de Sorocaba é o Núcleo da Floresta, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) localizada em São Roque (SP), o que torna o socorro a bichos feridos ainda mais complexo.
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Sapo cururu na natureza
oecophylla/iNaturalist
Em entrevista ao g1, a médica veterinária Paula Nochelli Prata explicou que a repulsa visual faz com que a população ignore os benefícios ecológicos trazidos por espécies silvestres e urbanas.
"Eles são essenciais para o controle de pragas e, além disso, dispersam sementes, polinizam plantas ou servem de alimento para outros animais. Quando há a eliminação dessas espécies, acabamos interferindo no funcionamento do ecossistema como um todo", explica.
As lagartixas, conhecidas por parecem estar sempre sorrindo, são grandes aliadas dentro de casa. "Elas ajudam no controle de insetos como mosquitos, baratas e traças", complementa Paula.
Já os gambás, também conhecidos como saruês, se alimentam de escorpiões e pequenos roedores, segundo a veterinária. O avistamento desses animais é bastante comum na região de Sorocaba.
Lagartixa doméstica se alimenta de vários insetos em uma únicas noite
Ricardo Custódio/TG
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Serpente em Uberlândia
UFU/ Thaís Silva
"Eles são inofensivos e importantes para o ecossistema urbano. Eles ajudam no controle de pragas e na dispersão de sementes”, explica.
Os morcegos, segundo Paula, controlam insetos, polinizam flores e ajudam na dispersão de sementes. As lesmas também desempenham um papel ecológico extremamente importante na natureza.
"As lesmas são importantes na reciclagem de nutrientes e na manutenção da cadeia alimentar. As lesmas aceleram a decomposição ao consumir matéria orgânica, como folhas e vegetais mortos, e devolvem nutrientes essenciais ao solo, além de servirem de alimento para aves, anfíbios e pequenos mamíferos", explica.
Enquanto isso, as serpentes auxiliam no controle da população de ratos. Já os sapos, pererecas e aranhas reduzem naturalmente a quantidade de mosquitos e outros insetos, de acordo com a veterinária.
Sem centro de reabilitação
Além disso, segundo Paula, a falta de estruturas adequadas na região dificulta o encaminhamento de animais silvestres e faz com que muitos moradores acabem assumindo os cuidados por conta própria, incluindo gastos financeiros. Confira no vídeo abaixo.
moradores de Sorocaba arcam com resgates de animais silvestres
"É necessária urgentemente a criação de um projeto voltado ao recebimento de animais de vida livre na região. As cidades acabaram misturando a vida urbana com a vida silvestre e, hoje em dia, é comum encontrar maritacas, urubus, carcarás, entre outros animais, em diferentes municípios", explica.
Segundo a profissional, há anos se discute a necessidade de suporte financeiro do poder público para o cuidado desses animais. Leia a matéria completa sobre o tema aqui.
"Há anos se fala na criação de Cetas na região, mas o projeto não avançou. Se até para cães e gatos já é difícil obter suporte, para animais silvestres e não convencionais a dificuldade é ainda maior. Além disso, são animais endêmicos e em grande quantidade, o que faz com que, muitas vezes, não haja interesse do poder público em investir na manutenção dessas espécies", conclui.
Desequilíbrio ambiental e mitos
Morcego da espécie Pteropus niger
tmcroydon2002 / iNaturalist
Paula reforça que o desaparecimento e a falta de acolhimento desses animais acaba causando problemas para o meio ambiente e, consequentemente, para os humanos. "A natureza funciona como uma rede e, quando uma espécie desaparece ou não recebe auxílio, outras são impactadas", diz.
A veterinária explica que o aumento de mosquitos, ratos e outras pragas está relacionado à diminuição desses animais.
"Além disso, para combater as pragas, as pessoas usarão mais pesticidas, o que reduz a polinização e dificulta a regeneração de áreas naturais. Isso não afeta apenas a biodiversidade, mas também a saúde pública, a agricultura e, consequentemente, a nossa qualidade de vida", pontua.
Além disso, existem diversos mitos que persistem por gerações, segundo Paula. Um exemplo são as lagartixas, que na verdade não são venenosas e não transmitem doenças.
"A maioria dos morcegos não se alimenta de sangue, mas sim de frutas, néctar ou insetos. Encostar em sapos não causa verrugas e a grande maioria das aranhas e serpentes não representa perigo quando não é provocada diretamente", diz.
Saruê é um dos animais que mais são resgatados no interior de São Paulo
Paula Nochelli Prata
De acordo com a veterinária, a ciência mostra que esses animais preferem evitar ao máximo o contato com as pessoas e têm um papel fundamental para o equilíbrio ambiental.
"Por isso, a principal orientação é sempre manter a calma e evitar qualquer tentativa de matar ou manipular o animal. Na maioria das vezes, ele está apenas de passagem ou procurando abrigo", alerta.
Se for uma espécie que não oferece riscos, o ideal é permitir que ela saia sozinha ou, quando possível, fazer uma remoção segura, explica a profissional. No caso de cobras ou morcegos, o mais indicado é manter distância e acionar os órgãos responsáveis pelo resgate.
"Respeitar esses animais é uma forma de proteger tanto a nossa segurança quanto o equilíbrio da natureza", diz.
A auxiliar administrativa Thairine Cordeiro, também de Sorocaba, conta que faz de tudo para evitar a morte desses animais quando eles aparecem em sua casa.
"Sempre que vejo uma aranha, sapo ou qualquer bichinho que me dá medo, tento capturá-lo de forma indolor e o devolvo para uma área de vegetação mais próxima. Eu posso não achar o animal mais lindo do mundo, mas sinto muita empatia e amor, porque é uma vida como qualquer outra", finaliza.
Thairine Cordeiro, de Sorocaba (SP), relata desafios após resgatar animal silvestre
Arquivo Pessoal
Aranhas desempenham um papel importante para o equilíbrio da natureza, segundo médica veterinária de Sorocaba (SP)
Camila Silveira
Paula trabalha na área de animais exóticos e silvestres há sete anos
Paula Nochelli Prata
*Colaborou sob supervisão de Eric Mantuan
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