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De piada em jornal a termo universal: como 'OK' se tornou a palavra mais falada do mundo

G1 (Globo)
De piada em jornal a termo universal: como 'OK' se tornou a palavra mais falada do mundo

Definição de OK no Dicionário Aurélio.
g1
Seja em uma conversa entre amigos, na tela de um computador ou em uma troca de mensagens no celular, há uma expressão que ultrapassa quase todas as barreiras linguísticas: "OK". Curta, simples e reconhecida em diferentes partes do mundo, a palavra se tornou um símbolo universal de concordância e confirmação.
Embora existam mais de 7 mil idiomas vivos catalogados atualmente, o "OK" conseguiu o feito raro de ser incorporado a idiomas de diferentes partes do mundo. Para o linguista norte-americano Allan Metcalf, autor de um estudo detalhado sobre o tema que resultou no livro “OK”, a expressão é "a invenção mais sensacional da língua inglesa", superando em alcance qualquer outra criação literária ou linguística.
A palavra é tão onipresente que hoje é compreendida em diferentes países e idiomas, independentemente da língua materna de seus falantes.
Variações da palavra:
O.K.
Okay
Okai
Okei
Oquei
Agora no g1
No entanto, por trás dessa simplicidade visual e fonética, há uma trajetória repleta de coincidências históricas que permitiram sua sobrevivência enquanto outros termos semelhantes caíram no esquecimento.
Do surgimento como uma brincadeira de redação no século XIX até a sua consolidação tecnológica, o termo foi influenciado por política, pela popularização do telégrafo e pela própria sonoridade das letras — o que Metcalf define como uma "filosofia inteira expressa em duas letras".
Uma brincadeira de jornal
Diferente do que muitos podem imaginar, o "OK" não nasceu de uma raiz etimológica profunda, mas de uma brincadeira editorial em Boston, nos Estados Unidos, em março de 1839. Naquela época, era comum que jornais utilizassem siglas e abreviações para criar termos lúdicos e, muitas vezes, grafados de forma propositalmente incorreta.
O registro histórico mais aceito aponta que o termo surgiu como uma abreviação de "all correct" (tudo certo), mas escrita como "oll korrect". O "O.k." apareceu pela primeira vez no jornal Boston Morning Post inserido em uma lista de siglas que incluía termos hoje esquecidos, como "W.O.O.O.F.C." (with one of our first citizens, ou com um de nossos primeiros cidadãos) e "R.T.B.S." (remais to be seen, ou ainda precisa ser visto).
Para Allan Metcalf, o sucesso da expressão é difícil de explicar, já que termos incomuns raramente se fixam no vocabulário popular com tamanha força.
“O.k. é muito incomum, e palavras incomuns dificilmente entram no vocabulário popular. Foi uma combinação muito estranha de coincidências que ajudou essa palavra, que surgiu como uma brincadeira, a se tornar tão importante”, afirmou o pesquisador em entrevista ao g1 na ocasião do lançamento de seu livro.
Essa origem simples, contudo, já foi alvo de diversas lendas urbanas e teorias alternativas ao longo dos últimos 170 anos. Durante suas pesquisas, Metcalf diz ter encontrado ao menos 18 versões diferentes, incluindo uma que sugeria ser um termo da tribo indígena Choctaw, o que chegou a convencer estudiosos no passado.
Segundo o linguista, a verdade histórica é tão simples que "às vezes parece insultar nossa inteligência", levando as pessoas a buscarem explicações mais complexas.
Ok- webstories
Giphy
Do telégrafo à era digital
Se o "OK" nasceu como uma piada de nicho, sua transformação em padrão global deve muito à tecnologia e à política do século XIX. Pouco depois de seu surgimento, a expressão foi adotada na campanha de Martin Van Buren à presidência dos Estados Unidos, em 1840, cujo apelido era "Old Kinderhook". Seus apoiadores formaram o "O.K. Club", dando visibilidade nacional ao termo.
Entretanto, foi a popularização do telégrafo que serviu como o grande motor de propagação internacional. Por ser uma expressão curta, rápida de transmitir em código Morse e com um significado claro de confirmação, o "OK" passou a ser amplamente empregado em comunicações telegráficas internacionais.
Com o passar das décadas, a palavra encontrou apoio no desenvolvimento da informática e da internet. Pouco após o surgimento dos computadores, o termo acabou se consolidando como o texto mais comum em botões de confirmação de programas e sistemas.
Atualmente, mesmo com o surgimento constante de novas abreviações nas redes sociais, nenhuma delas parece ter alcançado difusão internacional semelhante.
Para Metcalf, o "OK" é o "último dinossauro vivo" de uma geração de palavras inventadas por diversão nos anos 1830, o que a torna ainda mais valorizada e resistente ao tempo.
O livro do professor Metcalf, que apresenta a história da 'palavra mais falada do planeta'
Reprodução
Por que o OK funciona?
Além do contexto histórico, a linguística ajuda a explicar por que o "OK" se adaptou tão bem a diferentes culturas. Foneticamente, a combinação das letras O e K é extremamente amigável e a combinação pode ser pronunciada com relativa facilidade em uma grande variedade de idiomas.
Segundo Metcalf, esse contraste visual pode ter contribuído para tornar a palavra memorável. Para ele, o contraste estético entre a forma perfeitamente redonda da letra "O" e a estrutura pontiaguda do "K" ajuda a manter a expressão gravada no vocabulário de forma mais eficiente do que outras opções da época, como "OW".
Para além da forma, o pesquisador defende que a palavra carrega outras características-chave:
"O.k. representa este pragmatismo da mentalidade norte-americana, de querer que as coisas funcionem e completar os objetivos, mesmo que não busque a perfeição e a explicação para tudo", explicou ao g1.
Há também um componente social associado ao termo, popularizado por obras literárias de grande alcance. Na década de 1960, o best-seller "I'm OK – You're OK" (Eu Estou OK, Você Está OK) deu novo significado cultural à expressão ao associá-la à autoestima e às relações humanas.
Décadas depois, o romance "A Culpa é das Estrelas", de John Green, popularizou entre adolescentes a troca de "Okay" como uma forma de cumplicidade entre os protagonistas, dando novo fôlego à expressão na cultura pop.
O sentido empregado nas obras em si fez pouco para mudar a compreensão geral da palavra, mas reforçou a popularização de um termo que não precisa necessariamente de tradução para ser integrado ao idioma e para significar algo.
Ainda assim, mesmo com a difusão do "OK", a palavra não substituiu as formas locais de concordância. Um francês continua dizendo d'accord; um espanhol costuma preferir vale; um japonês recorre a expressões como wakarimashita. O "OK", porém, passou a conviver com esses termos e se tornou uma espécie de linguagem compartilhada de confirmação.
OK é a palavra mais falada do mundo?
Embora Allan Metcalf e outros pesquisadores defendam que o "OK" é a palavra mais falada e escrita do mundo, essa afirmação não pode ser comprovada. A dificuldade de verificar a teoria é grande, já que não é possível monitorar em tempo real cada palavra dita ao redor do planeta.
O consenso é de que o OK é uma das palavras de maior difusão internacional já registradas. Ela leva vantagem por ser utilizado como uma "segunda língua" de confirmação em um grande número de idiomas.
Outros termos em inglês como "hello", "yes", "no" e nomes de marcas globais também possuem alta penetração mundial, mas nenhum apresenta a mesma versatilidade de aplicação do "OK". A palavra funciona como adjetivo, advérbio, verbo e interjeição, adaptando-se a contextos que vão do formal ao extremamente casual.
Portanto, mesmo sem um contador global definitivo, a predominância cotidiana do "OK" sustenta a tese de sua liderança. Ao menos, é o que conclui Metcalf, que acredita que, às vezes, a simplicidade de duas letras é o que há de mais poderoso na comunicação humana. ...

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