Cannabis pode elevar testosterona e outros hormônios em homens jovens, sugere estudo

Cannabis pode elevar testosterona e outros hormônios em homens jovens, sugere estudo
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O consumo de cannabis pode estar ligado a alterações específicas na produção de hormônios masculinos, de acordo com um estudo realizado com jovens adultos na Suíça. O trabalho identificou níveis mais elevados de testosterona, androstenediona e di-hidrotestosterona (DHT) em usuários da substância, quando comparados a não usuários.
Os pesquisadores da Universidade de Genebra (UNIGE) analisaram amostras de sangue de 47 consumidores de cannabis e 47 homens que não utilizavam a droga. Todos tinham entre 18 e 23 anos. O estudo utilizou uma técnica avançada capaz de identificar dezenas de hormônios esteroides simultaneamente e revelou um padrão consistente de aumento dos chamados andrógenos gonadais — hormônios produzidos principalmente pelos testículos.
Os pesquisadores, porém, não descartam a possibilidade de causalidade reversa - que homens com níveis naturalmente mais altos de testosterona sejam mais propensos a usar cannabis.
Segundo os autores, os achados sugerem uma possível interferência dos fitocanabinoides na função endócrina masculina, especialmente nos processos hormonais ligados ao sistema reprodutivo. Mas o estudo não permite concluir que a cannabis seja a causa direta dessas alterações.
Agora no g1
Um dos autores do estudo, Serge Rudaz, explicou ao g1 que os resultados apoiam duas hipóteses principais: ou a cannabis afeta diretamente a produção de esteroides testiculares por meio dos receptores canabinoides presentes nos testículos, ou altera a regulação hormonal ao longo do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
O pesquisador alertou que níveis mais altos de testosterona não devem ser interpretados como evidência de que a cannabis seja benéfica para a saúde ou para a fertilidade masculina.
O estudo foi publicado na revista Communications Medicine e identifica uma associação. Somente estudos futuros poderão estabelecer a causalidade de forma definitiva.
Segundo o autor, não há um benefício dessas alterações hormonais para a saúde e as consequências delas a longo prazo permanecem desconhecidas.
“Devemos destacar esse resultado como uma possível alteração endócrina, de forma semelhante a como falamos sobre desreguladores endócrinos”, diz Rudaz.
Os efeitos da cannabis sobre o sistema hormonal e a fertilidade masculina ainda geram controvérsias na comunidade científica. Estudos anteriores sugeriram que a substância poderia reduzir a contagem, a concentração e a motilidade dos espermatozoides.
Testosterona, androstenediona e DHT aumentaram
Entre os sete principais hormônios avaliados de forma quantitativa, três apresentaram aumento significativo entre os usuários de cannabis: a androstenediona, a testosterona e di-hidrotestosterona (DHT).
A diferença mais expressiva foi observada na testosterona, que apresentou concentração média 3,5 nmol/L maior entre os consumidores da substância. Isso equivale a um aumento de cerca de 23% na produção do hormônio.
Os pesquisadores também identificaram níveis mais altos de di-hidrotestosterona (DHT), considerada uma das formas mais potentes dos hormônios androgênicos. A substância possui capacidade de ligação ao receptor androgênico aproximadamente duas vezes maior do que a testosterona.
Com isso, os três principais andrógenos biologicamente ativos produzidos pelas gônadas masculinas — androstenediona, testosterona e DHT — apareceram elevados nos participantes positivos para THC, principal composto psicoativo da cannabis. Entenda melhor as funções desses hormônios:
Testosterona: nos homens, este é o principal hormônio sexual masculino, produzido principalmente pelos testículos. Ela é responsável pelo desenvolvimento das características masculinas durante a puberdade, como o aumento da massa muscular, o crescimento dos pelos corporais e faciais, o engrossamento da voz e o amadurecimento dos órgãos reprodutivos. Na vida adulta, a testosterona também desempenha papel importante na produção de espermatozoides, na libido, na saúde óssea, na força muscular e na manutenção de diversas funções metabólicas e reprodutivas.
Di-hidrotestosterona (DHT): nos homens, o DHT é um hormônio derivado da testosterona e considerado um dos andrógenos mais potentes do organismo. Produzido pela ação da enzima 5-alfa-redutase, ele desempenha papel fundamental no desenvolvimento dos órgãos genitais masculinos e das características sexuais durante a puberdade. Na vida adulta, ajuda a regular funções da próstata, da pele e dos folículos capilares. No entanto, níveis elevados ou maior sensibilidade à DHT podem estar associados à calvície androgenética e ao aumento benigno da próstata.
Androstenediona: nos homens, este é um hormônio produzido principalmente pelos testículos e pelas glândulas suprarrenais que funciona como precursor da testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Embora tenha atividade androgênica relativamente fraca, ela contribui para a produção de testosterona e de outros hormônios envolvidos no desenvolvimento e na manutenção das características masculinas, como massa muscular, pelos corporais, função sexual e fertilidade. Seus níveis podem ser avaliados para investigar alterações hormonais e distúrbios das glândulas suprarrenais ou dos testículos.
Efeito parece restrito aos testículos
Um dos aspectos que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o fato de que os hormônios androgênicos produzidos pelas glândulas suprarrenais não apresentaram alterações relevantes.
Para os autores, o estudo sugere que a associação observada está concentrada na produção hormonal dos testículos e não em todo o sistema endócrino masculino.
Quanto maior a exposição, maiores os níveis hormonais
Os autores observaram ainda que concentrações mais elevadas de THC e de THC-COOH — principal metabólito do THC — estavam associadas a níveis mais altos de testosterona, androstenediona e DHT entre os usuários de cannabis.
No entanto, quando os pesquisadores compararam usuários ocasionais e crônicos, não encontraram diferenças significativas nos níveis de testosterona entre os grupos. Os usuários crônicos não apresentaram níveis de testosterona significativamente diferentes dos usuários ocasionais.
Isso sugere que fatores como a proximidade temporal do consumo podem ter maior influência sobre os hormônios do que a frequência de uso isoladamente.
Rudaz destaca que é possível haver um efeito dose-resposta, mas os resultados, por si só, não são suficientes para demonstrar isso.
“Quando separamos o grupo de usuários de cannabis em ocasionais e crônicos, apenas a androstenediona permaneceu significativamente aumentada nos usuários crônicos em comparação com os ocasionais, e não a testosterona e a di-hidrotestosterona (DHT). Seria necessário um poder estatístico maior para confirmar essa relação dose-resposta”, afirmou.
No estudo, todos os usuários de cannabis a consumiram recentemente. Rudaz acrescenta que estudos anteriores também relataram que o uso recente pode ser mais importante do que a frequência de uso a longo prazo para determinar os níveis de testosterona.
Como a cannabis poderia influenciar os hormônios?
Os autores discutem diferentes hipóteses para explicar os resultados. Uma delas é que homens que naturalmente possuem níveis mais elevados de testosterona sejam mais propensos a consumir cannabis, o que caracterizaria uma relação inversa entre causa e efeito. Outra possibilidade é que os fitocanabinoides interfiram diretamente no eixo hormonal que regula a função reprodutiva masculina, conhecido como eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Os pesquisadores também consideram a hipótese de uma resposta compensatória do organismo. Nesse cenário, a exposição à cannabis reduziria a sensibilidade aos hormônios androgênicos, levando o corpo a aumentar sua produção para compensar essa alteração.
Apesar dessas possibilidades, nenhuma delas pôde ser confirmada pelo estudo.
O que isso significa para a fertilidade?
Os autores ressaltam que os resultados ainda não permitem concluir quais são as consequências dessas alterações hormonais para a fertilidade masculina.
Segundo o estudo, as evidências disponíveis sobre qualidade do sêmen em usuários de cannabis continuam conflitantes. Enquanto algumas pesquisas não identificaram diferenças importantes, outras relataram redução da concentração e da contagem total de espermatozoides.
Diante dos resultados, os pesquisadores defendem que futuras investigações avaliem se o aumento dos hormônios androgênicos observado entre usuários de cannabis está relacionado a mudanças na qualidade seminal e na saúde reprodutiva masculina.
Limitações do estudo
Os autores destacam que os participantes eram todos homens jovens suíços entre 18 e 23 anos, e que os resultados refletem apenas associações observadas em um determinado momento. Por isso, não é possível estabelecer relação de causa e efeito nem extrapolar automaticamente os achados para mulheres, pessoas mais velhas ou outras populações.
“Devemos ressaltar a dificuldade em obter amostras de doadores saudáveis com pouca variação de idade entre eles, o que é crucial, visto que a testosterona pode ser fortemente afetada pela idade e pelo estado de saúde dos participantes”, diz Rudaz.
Além disso, fatores de estilo de vida como alimentação, consumo de álcool, sono e estresse não puderam ser totalmente descartados como potenciais influências nos resultados.
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