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Guerra entre Estados Unidos e Irã aumenta o risco de desabastecimento global de medicamentos

G1 (Globo)
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Guerra entre Estados Unidos e Irã aumenta o risco de desabastecimento global de medicamentos

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Pacientes relatam períodos de indisponibilidade de medicamentos na Farmácia de Alto Custo de Sorocaba (SP)
TV TEM/Reprodução
O conflito entre Estados Unidos e Irã reacendeu o risco de uma crise global de abastecimento de medicamentos, algo que parecia ter ficado restrito à pandemia de Covid-19.
A elevação dos preços do petróleo, o aumento dos custos de energia, os gargalos logísticos e as incertezas em torno de rotas estratégicas de transporte marítimo e aéreo afetam diretamente uma cadeia farmacêutica mundial altamente concentrada: de um lado, a China responde por uma grande parte dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs – substâncias que produzem o efeito terapêutico do medicamento). De outro, a Índia transforma esses insumos em medicamentos consumidos em todo o mundo.

Segundo cálculos do Institute for Economics and Peace, os impactos econômicos dessa guerra já alcançam cerca de US$ 700 bilhões. A volatilidade do preço do petróleo está no centro dos prejuízos, gerando perdas de receitas de exportação, perturbações nas cadeias de abastecimento (supply chains) e aumento dos custos operacionais.
Especificamente, a redefinição de rotas marítimas e aéreas, o aumento dos prêmios de seguro e os preços mais elevados da energia contribuíram para a redução das margens de lucro do setor farmacêutico. Cerca de 35% dos produtos farmacêuticos de maior valor agregado são transportados por via aérea, assim como parcela relevante dos medicamentos e vacinas essenciais. O bloqueio dessas vias, para fármacos e insumos terapêuticos com prazo de validade curto, é dramático.
Agora no g1
Em contraposição, para a navegação marítima, o fechamento do estreito de Ormuz e os ataques dos Houthis a navios que seguiam em direção ao Canal de Suez obrigaram empresas e armadores a buscar rotas alternativas. Uma das principais estratégias foi redirecionar as embarcações e contornar a África, praticamente dobrando o tempo da viagem padrão, comprometendo as cadeias de abastecimento e ampliando significativamente os custos logísticos.
Leia mais: O Estreito de Ormuz reabriu. Agora a disputa é sobre quem cobra pedágio no mar
A farmácia da Índia e os insumos da China
A relevância desses impactos vai além dos custos imediatos de transporte e energia. A China, cujo mercado farmacêutico deverá atingir cerca de US$ 300 bilhões em 2026, é hoje a maior produtora global de IFAs, responsável por aproximadamente 44% da produção mundial e exportando mais de US$ 42 bilhões anuais.
Ao mesmo tempo, o país tornou-se líder global em inovação farmacêutica e biotecnológica, concentrando cerca de 70% das famílias de patentes farmacêuticas registradas globalmente e ultrapassando os Estados Unidos no volume de patentes farmacêuticas e biotecnológicas.
Já a Índia consolidou-se como a farmácia do mundo. Com um mercado de medicamentos estimado em US$ 65 bilhões, exportações para mais de 200 países e participação de cerca de 20% no mercado global de medicamentos genéricos, ocupa posição central no abastecimento mundial.
As projeções indicam que esse mercado deverá ultrapassar US$ 130 bilhões nos próximos anos e alcançar US$ 450 bilhões até 2047. Entretanto, parcela relevante dessa capacidade produtiva depende da importação de aproximadamente US$ 3,2 bilhões anuais em IFAs chineses.
A dependência mundial dessa cadeia sino-indiana torna-se ainda mais relevante porque tanto a produção industrial chinesa quanto a indústria farmacêutica indiana dependem fortemente da estabilidade das rotas comerciais do Oriente Médio. Desse modo, qualquer perturbação prolongada no fluxo de petróleo, no transporte marítimo ou nos custos de produção tende a repercutir em cascata sobre a oferta global de medicamentos.

Ou seja, a continuação desse conflito pode levar a uma nova crise de abastecimento de medicamentos, provocada pela alta dos custos de energia, pelas dificuldades de transporte e pelas perturbações das cadeias de abastecimento.
O risco e a oportunidade
Com tudo isso, o preço do petróleo mantém-se elevado e instável e as cadeias de abastecimento seguem pressionadas. A estabilidade da região foi abalada, assim como a credibilidade de diversos governos. O financiamento tornou-se mais caro e os mercados de seguros dispararam. O conflito não apenas ampliou problemas estruturais já existentes, mas gerou novos, como a redefinição de rotas de navegação, o aumento dos custos logísticos e o risco de interrupções no fornecimento de insumos estratégicos.
Mesmo após os acordos de paz firmados recentemente, o clima político no Oriente Médio continuará instável e a situação no estreito de Ormuz dificilmente retornará às condições anteriores ao conflito. A companhia Lloyd’s de Londres, com seus mais de 300 anos no ramo de seguros, deixa isso claro no elevado valor dos prêmios cobrados atualmente para cobrir danos a superpetroleiros, cargas e tripulações que atravessam a região. Os principais centros de produção de petróleo e instalações energéticas foram gravemente danificados, sendo incerto o tempo necessário para sua plena recuperação.
A questão do acesso a medicamentos oscila agora entre o drama do desabastecimento em países mais pobres e a alta dos preços em mercados mais ricos. O grau de dependência de insumos importados determina diretamente a sensibilidade aos aumentos dos custos de energia, transporte e produção, com reflexos sobre o abastecimento e a disponibilidade de medicamentos estratégicos.
Frente a esse contexto, o Brasil — que importa cerca de 90% dos seus IFAs da China e da Índia — não tem como se desvencilhar de tais problemas.
Brasil precisa investir em autossuficiência de insumos
No cenário criado pelos conflitos no Oriente Médio, torna-se ainda mais vital a autossuficiência na produção de insumos, sobretudo para medicamentos críticos utilizados em programas estratégicos de saúde. Portanto, há necessidade de mudanças estruturais em áreas que o Brasil pouco avançou, especialmente na diversificação das fontes de IFAs e na atualização da política de inovação e patenteamento de fármacos.
Alguns dos fatores que explicam a lentidão da marcha brasileira nessa direção podem ser buscados nos cortes e bloqueios de verba do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e na inexistência de instrumentos fundamentais para acelerar o patenteamento de novos fármacos, nos moldes do Orange Book.
No sentido do avanço, entre outras medidas, seria necessário estabelecer um sistema de vinculação de patentes – como o que existe desde 1984 nos Estados Unidos, seguido posteriormente por países como Canadá, Singapura, Coreia do Sul, Austrália e China – visando à implementação de acordos comerciais bilaterais. Este objetivo ressalta o entendimento de que tais instrumentos e medidas devem ser tratados como elementos de política econômica.
O conflito envolvendo o Irã acelerou a corrida científico-tecnológica. Cumpre ao Brasil acompanhar o passo. Como dizia a Rainha Vermelha para Alice, no livro Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll, em 1871: “Agora, aqui, veja bem, são necessárias todas as corridas que puder executar para permanecer no mesmo lugar. Se você quiser chegar a outro lugar, deve correr pelo menos duas vezes mais rápido do que isso.”
Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico. ...

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