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A vida presta, Leo Jaime...

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Leo Jaime participa de show no Rio de Janeiro (RJ) em tributo a Erasmo Carlos (1941 – 2022)
Rodrigo Goffredo
♫ PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR
♬ “A vida não presta”. Quarenta anos antes de Fernanda Torres sentenciar que a vida presta (e muito!) ao receber o Globo de Ouro de melhor atriz em janeiro de 2025 pela interpretação de Eunice Paiva (1929 – 2018) no filme “Ainda estou aqui” (2024), Leo Jaime cravou justamente o contrário no título da bela e melancólica balada “A vida não presta”, apresentada pelo artista goiano em 1985 como a terceira das dez faixas do álbum “Sessão da tarde”, título mais bem-sucedido da discografia de Leo Jaime.
Essa associação entre a fala da atriz e o nome da canção de Leo me veio à mente quando assisti à participação do cantor no show em tributo a Erasmo Carlos (1941 – 2022) apresentado por Malu Rodrigues e a banda do Tremendão na noite de quinta-feira, 2 de julho, no Manouche, casa de shows do Rio de Janeiro (RJ).
Não sabia que Leo Jaime participaria do show, mas fiquei feliz com a surpresa de revê-lo em cena. Até porque o próprio Erasmo via Leo como uma espécie de sucessor na dinastia do rock brasileiro.
Talvez a vida prestasse mais se Leo Jaime fosse mais reverenciado. Sim, a partir da década de 1990, a vida e o mercado parecem ter sido injustos com o cantor, compositor, ator e escritor de atuais 66 anos.
Ao longo dos anos 1980, Leo lançou cinco álbuns. Ao primeiro, “Phodas C” (1983, disco de tom tecnopop e repertório irregular), seguiram-se “Sessão da tarde” (1985, LP com lado A de acabamento pop irretocável), “Vida difícil” (1986, primeiro suspiro de maturidade do artista com a bela canção “Nada mudou”), “Direto do meu coração para o seu” (1988, disco romântico no qual o cantor regravou “Gatinha manhosa”, sucesso de Erasmo Carlos em 1966) e “Avenida das desilusões” (1989, disco imerso em um universo em desencanto que trouxe fluente abordagem de “Índios”, música do segundo álbum da Legião Urbana).
A sequência desses cinco álbuns pareceu sugerir uma carreira luminosa para Leo Jaime. Mas tudo degringolou na década de 1990. Trocar a gravadora CBS pela Warner Music se revelaria um mau negócio para o artista. Embate do cantor com a companhia fonográfica após o lançamento do álbum “Sexo, drops e rock'n'roll” (1990) – tentativa frustrada de fazer Leo voltar a um universo adolescente que já não se afinava com um homem de então 30 anos – pôs Leo Jaime dentro da geladeira da Warner.
Foram cinco anos até o retorno do cantor ao mercado fonográfico com bom álbum de intérprete, “Todo amor” (1995). Mas aí o mundo já era outro, a trilha sonora do Brasil já era outra e Leo Jaime perdeu o bonde da história musical, tendo que se reinventar profissionalmente ao dar ênfase aos ofícios de ator, cronista e redator de programas de TV. Tendo estreado no elenco do musical “Os saltimbancos” (1977 / 1978), Leo já era uma artista multimídia antes da criação do termo.
De lá para cá, Leo Jaime lançou somente mais um (bom) álbum, “Interlúdio”, editado já em 2008. Particularmente, sempre fiquei triste com as dissonâncias da trajetória musical de Leo Jaime a partir dos anos 1990. Talvez porque tenha ouvido muito o álbum “Sessão da tarde”, irresistível tratado juvenil sobre o amor e a desilusão sob a ótica dos loosers ou, em bom português, dos garotos pobres apaixonados por meninas de melhores condições sociais.
Sob o prisma pessoal, Leo Jaime também marcou momento inesquecível da minha vida. Tinha eu 33 anos em 1998 quando fui ao Teatro da Praia, no bairro carioca de Copacabana, assistir ao show “Fotografia”, no qual Leo se juntava a Leoni – compositor com bom domínio do idioma pop e revelado como integrante do grupo Kid Abelha no ano em que Leo lançou o primeiro álbum – para passar em revista os cancioneiros de ambos.
Eram somente os dois no palco do teatro e, em determinado momento da apresentação, Leo e Leoni falaram – com certa nostalgia – da modernidade dos anos 1980, da vida e das canções dos tempos de juventude. Ali, naquele flash do show “Fotografia”, eu me toquei – sem sofrimento, mas com algum espanto – que também não era mais jovem.
Hoje, na véspera de completar 61 anos, entendo que há beleza em todo o inexorável fluxo da vida e que ela, a vida, sempre presta, ainda que muitas vezes seja difícil e injusta. Sim, Leo Jaime, Fernanda Torres tem razão. A vida presta...

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