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Almir Sater e Sérgio Reis lembram bronca de Benedito Ruy Barbosa em Jayme Monjardim por troca de música em novela: 'O autor sou eu'

G1 (Globo)
Almir Sater e Sérgio Reis lembram bronca de Benedito Ruy Barbosa em Jayme Monjardim por troca de música em novela: 'O autor sou eu'

Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos
Durante o velório do dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, realizado nesta terça-feira (7) no Centro de São Paulo, os cantores Almir Sater e Sérgio Reis relembraram histórias da convivência com o autor de novelas como "Pantanal" e "O Rei do Gado". Entre as lembranças, contaram um episódio que ilustra uma das características mais marcantes do escritor: a convicção com que defendia cada detalhe de suas obras.
Segundo os artistas, que tiveram as carreiras impulsionadas pelas produções de Benedito, o autor acompanhava de perto até mesmo a escolha das músicas que apareciam em suas novelas. E não gostava quando decisões criativas eram alteradas sem sua aprovação.
"Ele sabia muito o que queria. Os sucessos da novela, na verdade, ele que escolheu tudo", afirmou Sérgio Reis, ao lembrar uma gravação de "Pantanal", de 1990, em que uma orientação do diretor Jayme Monjardim contrariou o texto original de Benedito.
O cantor contou que, durante uma cena, recebeu do diretor Jayme Monjardim a instrução para trocar uma canção por outra.
"Um dia, o Jaime Monjardim falou: 'Não vai cantar essa música, não. Para de cantar Cavalo Preto, canta Chalana. Eu cantei, e ele [Benedito] assistiu", relatou.
O cantor Sérgio Reis e sua esposa chegam para o velório de Benedito Ruy Barbosa na região da Bela Vista, em São Paulo.
Van Campos/AgNews
A reação de Benedito teria sido imediata. Segundo o cantor, poucos instantes após a exibição da cena, o autor entrou em contato para questionar a mudança.
"Aí não deu outra. Meio minuto depois ele ligou: 'Quem deu ordem para você cantar Chalana?'. Eu falei: 'Foi o diretor'. Aí ele [Benetido] deu uma cacetada no Jaime e falou 'segue o que eu escrevi', senão você vai mudar a história. Você não é o autor, o autor sou eu. Ele não era fraco, não", contou Sérgio Reis, arrancando risos durante a conversa com jornalistas.
O corpo de Benedito Ruy Barbosa foi velado no Funeral Home, na Bela Vista. Considerado um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, o autor morreu aos 95 anos em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. Entre seus principais trabalhos estão "Pantanal", "Renascer", "O Rei do Gado", "Terra Nostra" e "Velho Chico".
Inspiração para Pantanal
Durante a despedida, Sérgio Reis também relembrou o surgimento da ideia de "Pantanal", novela que revolucionou a dramaturgia brasileira ao retratar o bioma em locações externas e se tornou um dos maiores sucessos da carreira do escritor.
Segundo ele, Benedito passou um período em sua fazenda, no Mato Grosso, depois de concluir uma novela e em busca de descanso. Foi nesse cenário que teria surgido a inspiração para a trama.
"Quando ele chegou lá e desceu do avião, olhou aquilo, os passarinhos cantando em volta da gente, ele falou: 'Sérgio, eu vou fazer uma novela que vai tomar conta do mundo'", contou.
Décadas depois, a obra continua sendo exibida e é considerada um dos marcos da televisão brasileira. Benedito escreveu "Pantanal" em 1990, durante sua passagem pela TV Manchete, antes de retornar à Globo, onde produziu sucessos como "Renascer" e "O Rei do Gado".
A viola e o grande público
Almir Sater destacou ainda a influência do autor sobre sua trajetória artística.
"Ele acreditou na minha viola, trouxe minha viola para o grande público. Fez muita diferença na minha vida e na minha família. É um cara que vai sempre morar no meu coração", afirmou.
Já Sérgio Reis disse considerar que a carreira dele e a de Almir foram transformadas pelas novelas do dramaturgo.
"Ele alavancou a nossa vida, a nossa carreira. Por isso que eu estou com 86 anos cantando e ele [Almir] continua trabalhando. Graças a ele."
Homenagens
Familiares e artistas comparecem ao velório de Benedito Ruy Barbosa para prestar suas homenagens. O dramaturgo, autor de novelas como "Pantanal" e "Terra Nostra", morreu nesta terça-feira (7) em São Paulo devido a complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor).
O corpo está sendo velado até as 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP.
Emocionados parentes e amigos de Benedito Ruy Barbosa relembraram momentos da convivência com o autor e destacaram o legado deixado por um dos maiores escritores da TV brasileira.
Velório de Benedito Ruy Barbosa
Marília Barbosa/g1
A filha Edilene Barbosa contou que o escritor permaneceu lúcido até os últimos dias, apesar do agravamento de um problema renal e de sucessivas internações por infecções urinárias. "Não tem o que fazer, um transplante ele não suportaria", afirmou.
"Não tem o que fazer, um transplante ele não suportaria"
Ela lembrou que "Pantanal" e "Meu Pedacinho de Chão" estão entre suas obras preferidas e recordou a participação da família na primeira versão da novela e, décadas depois, no remake.
A neta Paula Barbosa, atriz que integrou o elenco do remake de "Pantanal", chorou ao falar do avô. Ela relembrou o lado afetuoso e bem-humorado de Benedito, dizendo que ele a ensinou a dirigir, fazia pedidos inusitados do dia a dia e, no último aniversário, chegou a compor uma música repleta de palavrões para divertir o bisneto de 8 anos.
A atriz Cristiana Oliveira compareceu ao velório de Benedito Ruy Barbosa
Van Campos/AgNews
Intérprete de Juma Marruá na primeira versão de "Pantanal", Cristiana Oliveira afirmou que Benedito continuou a chamá-la pelo nome da personagem após o fim da novela. Ela também contou que o autor insistiu para que ela interpretasse Juma, papel que acabou marcando sua carreira, e disse que se considera uma "embaixadora do Pantanal" por causa da novela.
O ator Oscar Magrini lembrou que estreou nas novelas de Benedito Ruy Barbosa em "O Rei do Gado" e voltou a trabalhar com o autor em outras quatro produções. Segundo ele, seu personagem inicialmente apareceria em cerca de 30 capítulos. "Tinha que morrer porque era o amante da mulher do Rei do Gado. Viraram 135 capítulos. Só tenho a agradecer, afirmou.
O ator Leopoldo Pacheco, que trabalhou com Benedito Ruy Barbosa em "Velho Chico" (2016), a última novela escrita pelo autor, afirmou que ele foi um retratista do "Brasil profundo". Segundo o ator, Benedito tinha a capacidade de transformar em protagonistas personagens, paisagens e histórias do interior do país.
O filho Ruy Maurício Barbosa lembrou a paixão do pai pelo futebol. Segundo ele, Benedito era "mais são-paulino do que torcedor da seleção", vivia os jogos com intensidade e era um torcedor explosivo. Também relembrou uma história que durante anos julgou ser exagero: a de que o pai havia presenciado a chegada de Pelé à Vila Belmiro. Após confirmar o relato com um jornalista que também conhecia o episódio, disse que telefonou ao pai para pedir desculpas por ter duvidado dele.
O ator Oscar Magrini no velório de Benedito Ruy Barbosa
Van Campos/AgNews
O ator Leopoldo Pacheco durante o velório de Benedito Ruy Barbosa
Van Campos/AgNews
Gigante da televisão brasileira
Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos.
Benedito Ruy Barbosa
TV Globo
Seu legado inclui tramas icônicas como "Meu Pedacinho de Chão" (1971), "Pantanal" (1990), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999), marcadas por protagonistas de "bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos", como o próprio definia.
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O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos.
Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "O Estado de S. Paulo".
O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, o começo de sua trajetória como roteirista.
A história do autor que mais retratou o mundo rural nas novelas
Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu "Meu Pedacinho de Chão", novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas.
Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucessos na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em "Cabocla" (1979).
Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.
Autor Benedito Ruy Barbosa
João Miguel Júnior/TV Globo
Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi.
Com "O Rei do Gado" (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária.
Já em "Terra Nostra" (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.
Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de "Sinhá Moça" e "Meu Pedacinho de Chão".
Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar.
Em 2016, escreveu "Velho Chico", novela ambientada na cidade fictícia de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil.
"Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento ao Memória Globo.
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Benedito Ruy Barbosa
Reprodução/TV Globo ...

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