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Nova espécie de mosca pode viver entre 1 milhão de vespas sem ser atacada

G1 (Globo)
Nova espécie de mosca pode viver entre 1 milhão de vespas sem ser atacada

Nova espécie de mosca intriga cientistas ao viver entre até 1 milhão de vespas
Rodrigo de Vilhena Perez Dios
Uma nova espécie de mosca descrita por pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) chamou a atenção por um hábito incomum: ela vive associada aos ninhos de vespas da espécie Agelaia vicina, conhecidas por formar as maiores colônias de vespas sociais do mundo, com até 1 milhão de indivíduos.
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Batizada de Brevialata deceptrix, a mosca foi encontrada em ninhos coletados em Cajuru (SP). Os pesquisadores observaram que ela consegue conviver com as vespas sem ser atacada, mesmo dentro dos ninhos.
Apesar da descoberta, esse comportamento ainda é um mistério. Os pesquisadores não sabem por que as vespas toleram sua presença, se a mosca passa todo o ciclo de vida dentro do ninho nem qual organismo serve de hospedeiro para suas larvas.
Para Rodrigo de Vilhena Perez Dios, pesquisador de pós-doutorado do Museu de Zoologia da USP e autor principal do estudo, a descrição da espécie é o primeiro passo para desvendar essas questões.
“Segundo o relato dos pesquisadores que as coletaram na época, elas entravam e saíam de dentro dos ninhos sem serem atacadas. Agora que a espécie está descrita, e a comunidade científica tem conhecimento de sua existência, precisamos achar novamente ninhos dessa espécie de vespas e estudar essas moscas em mais detalhes”, afirma.
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Um mistério de 30 anos
Embora a espécie tenha sido descrita apenas agora, os primeiros exemplares foram coletados em 1993. Na época, pesquisadores encontraram oito indivíduos associados aos ninhos de Agelaia vicina e os depositaram na coleção entomológica do Museu de Zoologia da USP.
Sem identificação, o material permaneceu guardado por décadas. Os primeiros passos para a descrição da espécie só aconteceram anos depois, durante o pós-doutorado de Rodrigo.
Um estudante de graduação levou um exemplar ao pesquisador e levantou a dúvida sobre se se tratava de uma deformação ou de uma espécie diferente. A partir disso, Rodrigo revisitou a coleção do museu, onde encontrou os espécimes coletados nos anos 1990 e confirmou que se tratava de uma espécie ainda não descrita.
“Essas moscas vieram para a coleção do museu nos anos 90, mas ficaram na coleção como não identificadas desde então, até eu as encontrar. Com uma série maior de exemplares e ao contatar os pesquisadores que as coletaram, que me contaram sobre o comportamento delas, foi possível descrever essa espécie tão curiosa”, relata.
Nova espécie de mosca intriga cientistas ao viver entre até 1 milhão de vespas
Rodrigo de Vilhena Perez Dios
Mosca parasitoide
A principal informação revelada pela descrição da espécie diz respeito aos seus hábitos parasitários. A família à qual ela pertence, Tachinidae, é formada principalmente por espécies parasitoides de outros insetos e artrópodes e reúne mais de 9 mil espécies.
Por isso, os pesquisadores consideram seguro afirmar que a nova mosca também apresenta esse comportamento, embora ele ainda não tenha sido confirmado diretamente.
Nesses insetos, as larvas se desenvolvem dentro de outro organismo e, ao final do desenvolvimento, levam o hospedeiro à morte.
A principal hipótese levantada pelo pesquisador é que as moscas parasitem as larvas das vespas. No entanto, elas também podem utilizar outro inseto que viva nesses grandes ninhos como hospedeiro. Segundo Rodrigo, colônias de insetos sociais costumam abrigar diversos organismos associados, o que amplia as possibilidades.
A mosca mede cerca de 0,6 centímetro e apresenta asas reduzidas, menos cerdas corporais e pernas mais robustas. As vespas com as quais ela se associa chegam a pouco mais de 1 centímetro.
Segundo Rodrigo, ainda não é possível afirmar exatamente qual é a função dessas adaptações, mas elas podem estar relacionadas à vida dentro dos ninhos.
“O corpo e pernas robustos e a ausência de cerdas possivelmente favorecem as moscas a entrar e andar pelo ninho e espaços mais apertados, ou até mesmo se agarrar em algumas vespas”
Já a redução das asas é uma característica observada em diversos insetos com hábitos parasitários.
Proteção e desenvolvimento
Independentemente de qual seja seu hospedeiro, viver próximo de milhares — ou até mesmo de 1 milhão — de vespas pode trazer vantagens importantes para as moscas. Segundo Rodrigo, a principal delas é a proteção contra predadores.
“Estar perto das vespas com certeza provê algum tipo de proteção, pois outros insetos e predadores dificilmente chegam perto desse grande número de vespas”, explica.
Esse tipo de associação, no entanto, ainda precisa ser estudado em campo para que os cientistas compreendam como a mosca consegue permanecer no ninho sem despertar a agressividade das vespas.
Outro mistério envolve as fêmeas da espécie, que ainda não foram encontradas. Até o momento, apenas machos foram coletados. Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que as fêmeas vivam dentro dos ninhos, com base no comportamento dos machos de entrar e sair das colônias.
“Em geral, adultos de machos de moscas parasitoides têm como objetivo principal encontrar fêmeas e conseguir acasalar. Dessa forma, muito provavelmente essas fêmeas devem estar dentro dos ninhos”
Encontrar essas fêmeas e observar o ciclo de vida completo da espécie estão entre os próximos desafios dos pesquisadores.
Mais de três décadas após sua coleta, a pequena mosca continua cercada de perguntas — e pode revelar novas formas de interação entre insetos que ainda passam despercebidas pela ciência.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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