'Dois times': haitianos em Roraima celebram retorno do país à Copa mas dividem paixão com Brasil

AI Summary
Brazil will play Haiti in their second group-stage match of the 2026 FIFA World Cup on Friday in Philadelphia, with all 68,324 available seats sold. Haiti, ranked lowest among the tournament's 48 teams, faces a Brazilian squad composed of elite players valued at significantly greater resources, while the island nation contends with humanitarian challenges and governance instability. The match underscores the competitive and economic disparities between participating nations.
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Haitianos em Roraima celebram retorno do país à Copa mas dividem paixão com Brasil
"É meu sonho, Haiti seguindo na copa e Brasil também", afirma o motorista de aplicativo Jeff Kelly Douezan, de 41 anos. A fala resume o sentimento de uma comunidade de haitianos estabelecidos no bairro Pricumã, zona Oeste de Boa Vista. Durante o Mundial, o grupo vive a alegria de ver o próprio país na competição após 52 anos, mas não deixa de lado o amor pelo Brasil.
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O Haiti ficou mais tempo fora da Copa do que Jeff tem de vida. Por isso, para ele, o cenário perfeito na competição é o sucesso das duas seleções. "Quero que o Haiti ganhe um, e o Brasil ganhe outro. E a gente fique com 4 pontos, e o Brasil fique com 4 pontos também, para que os dois passem. Seria minha alegria ver meus dois times".
A competição trouxe uma emoção inédita para essa geração, pois o Haiti não disputava o Mundial desde 1974. Agora, a torcida se divide entre o país de origem e a nação que os acolheu. Jeff deixou a ilha caribenha rumo à Venezuela, mas a crise o trouxe para o Brasil há 14 anos. Ele se adaptou tão bem que já adotou a cultura roraimense.
"Eu fico feliz de estar aqui no Brasil, é o país dos meus sonhos. Já tenho 14 anos aqui e aonde eu vou? Eu fico aqui, já virei 'negão macuxi'", brinca Jeff, em referência bem-humorada ao termo que se refere ao povo indígena de Roraima, mas também é usado informalmente como gentílico para quem nasce ou se estabelece no estado.
Jeff Kelly Douezan, de 41 anos, mora no Brasil há 14 anos e trabalha como motorista.
João Gabriel Leitão/g1 RR
A união dos haitianos no bairro Pricumã nasceu a partir de uma rede de solidariedade que já dura mais de uma década. O microempreendedor Francknel Clairisier, o "Fran", de 37 anos, é um dos pilares da comunidade.
"Meu coração ficou bem feliz e alegre por saber que o Brasil vai jogar contra o Haiti. É uma grande manifestação de nós haitianos aqui no Brasil e em qualquer país. É histórico", celebrou. O sentimento de pertencimento, no entanto, é dividido com muita gratidão.
Fran chegou ao Brasil em 2015, após deixar o Haiti e passar pela Venezuela, também fugindo do cenário de crise. Hoje estabelecido no ramo de passagens aéreas, ele reflete o orgulho dos compatriotas em ver o país caribenho de volta ao principal palco do futebol.
"Em 2022, 90% dos haitianos apoiaram o Brasil, porque os haitianos têm um amor pelo brasileiro. Agora que o Haiti classificou para a Copa do Mundo, todo mundo que ia ser Brasil vai apoiar o Haiti, porque é nossa nação, nosso país, nossa bandeira", explicou Fran.
Francknel Clairisier, de 37 anos, atua em parceria com brasileira para ajudar outros imigrantes haitianos em Roraima.
João Gabriel Leitão/g1 RR
Rede de apoio voluntária
A trajetória de estabilidade de Fran no Brasil se cruza com a da empresária brasileira Daphany Magalhães Júlio, de 39 anos. Os dois se conheceram em um momento de extrema vulnerabilidade, quando o haitiano chegou a viver em situação de rua. Ela o conheceu por meio de uma professora de francês e iniciou a amizade que evoluiu para a parceria social.
Atuando de forma voluntária há 10 anos, a dupla ajuda novos imigrantes que chegam a Roraima a se estabelecerem. Enquanto Daphany articula o acesso a serviços básicos, como a inclusão de famílias em programas sociais e suporte em atendimentos hospitalares, Fran atua como intérprete para superar a barreira do idioma.
Esse laço de gratidão se reflete diretamente na paixão pelo esporte. "Eles são muito apaixonados pelo futebol. O Haiti entra numa loucura quando o Brasil entra na Copa. Lá eles vestem a camisa e torcem. 90% dos haitianos no país torcem pelo nosso Brasil", relata Daphany.
Comunidade haitiana em Roraima é estabelecida no bairro Pricumã através de rede de solidariedade.
João Gabriel Leitão/g1 RR
Haitianos em Roraima
O impacto da rede de apoio ganha dimensão quando se observa o fluxo migratório da última década. Segundo dados do DataMigra, atualmente existem 361 haitianos com residência ativa em Roraima.
Entenda 🔎: O Haiti enfrenta uma crise humanitária que começou com o devastador terremoto de 2010 e matou centenas de milhares de pessoas e deixou sequelas estruturais até hoje. A fragilidade do país foi intensificada com uma crise política e humanitária crescente. Nos últimos anos, gangues armadas dominaram grande parte do território, inclusive a capital, e a violência se tornou endêmica.
Desde 2013, o estado registrou 32.881 entradas de cidadãos do Haiti. O auge ocorreu entre 2019 e 2020, com 20.131 e 10.543 registros, respectivamente. Nesses dois anos, Roraima foi a principal porta de entrada dessa população no Brasil.
Para quem acompanha essa vivência de perto, o atual momento do futebol é, na verdade, a celebração de uma vitória coletiva. "Nesses 10 anos de luta com eles, ter o privilégio de assistir a um jogo deles torcendo pelo Brasil na Copa passada foi incrível, pude ver o amor deles e vivenciar a história. Tá uma loucura, todo mundo desenfreado, feliz demais", finalizou a brasileira.
🏆 O Haiti é um dos adversários do Brasil no Grupo C desta edição da Copa do Mundo. Realizada em três países — Estados Unidos, México e Canadá, pela primeira vez, 48 seleções disputam a taça mais cobiçada do futebol. O Brasil busca o hexa, enquanto o país caribenho busca avançar pela primeira vez à fase eliminatória da competição.
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