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Terra de Minas usa IA para recriar imagem de Chica da Silva

G1 (Globo)
Terra de Minas usa IA para recriar imagem de Chica da Silva

Ilustração de Chica da Silva
Imagem criada por meio de IA.
O Terra de Minas deste sábado (11) presta uma homenagem a Chica da Silva, 230 anos após sua morte. A partir de pesquisas históricas e documentos da época, o programa revisita a trajetória de uma das personagens mais conhecidas da história de Minas Gerais e mostra como romances, novelas e filmes ajudaram a consolidar, no imaginário popular, a imagem de uma mulher sensual, manipuladora e ambiciosa, nem sempre compatível com o que revelam os registros históricos.
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Para desmistificar essa história, o programa entrevistou historiadores e especialistas, e percorreu os principais lugares ligados à vida de Chica. As gravações foram realizadas em Diamantina, onde ela viveu boa parte da vida; em Milho Verde, onde foi batizada; e na cidade do Serro, no cartório onde estava guardado o testamento de Chica.
Esta reportagem aborda os pontos abaixo:
Inteligência Artificial
Chica jovem e escravizada
Chica adulta
Chica sem peruca
João Fernandes de Oliveira
Inteligência Artificial
Como não existem retratos considerados fiéis de Chica da Silva, algumas cenas do programa foram feitas pelo departamento de arte da TV Globo em Minas, com o auxílio de inteligência artificial. São reconstruções artísticas baseadas em pesquisas e descrições documentais, sem a pretensão de representar a aparência real da personagem.
As ilustrações de Chica da Silva, do companheiro dela, João Fernandes de Oliveira, e dos filhos do casal foram produzidas a partir de referências históricas reunidas durante a apuração da reportagem.
Chica da Silva, João Fernandes e os filhos
Imagem gerada por meio de IA
Para orientar a criação das artes, a equipe utilizou informações do livro "Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito", da historiadora Júnia Ferreira Furtado, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Também houve orientações da professora doutora em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e curadora de arte e moda, Carolina Bicalho, além do uso de registros iconográficos do "Livro de Costumes", um conjunto de aquarelas produzidas por Carlos Julião no século XVIII em Minas Gerais.
Todas as ilustrações foram criadas a partir das orientações dos especialistas, de modo que a inteligência artificial funcionou como ferramenta de reconstrução visual baseada em evidências históricas disponíveis, e não como mecanismo capaz de reproduzir com precisão a aparência real dos personagens.
Para o design gráfico Igor Paiva, que escreveu as orientações para que a IA gerasse as imagens, um ponto importante foi evitar a sexualização da imagem de Chica da Silva. A maior dificuldade foi não cair em um padrão muito europeu.
"Muitas vezes ela criava roupas e cenários parecidos com a nobreza europeia, com vestidos muito armados, ambientes luxuosos demais e pouca relação com o Brasil colonial", disse ele.
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Chica jovem e escravizada
Ilustração de Chica da Silva quando era escravizada
Imagem gerada por meio de IA.
A reconstrução por meio de IA buscou representar diferentes momentos da vida de Chica da Silva. Na juventude, quando ainda era escravizada, foram consideradas as informações da professora Júnia Furtado sobre mulheres da Costa da Mina, local de origem da mãe de Chica da Silva.
"Portugueses achavam as mulheres originárias da Costa da Mina muito bonitas, por serem altas, magras, por terem dentes muito brancos, e terem um contraste, que era uma coisa que eles valorizavam", disse a historiadora em entrevista ao Terra de Minas.
Também foram usados registros documentais que indicam que a Chica escravizada era identificada como "Francisca Parda", designação usada na época para os mulatos de pele mais clara.
Para vestir a Chica jovem foram usadas roupas coloridas e estampadas, seguindo a referência das do vestuário usada pelas mulheres escravizadas na região diamantina, presentes no "Livro de Costumes".
Chica adulta
Ilustração de Chica da Silva com os filhos e mulheres escravizadas
Imagem gerada por meio de IA.
Em relação à fase adulta, quando Chica vivia com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira e ocupava posição de destaque na sociedade do Arraial do Tijuco (antigo nome de Diamantina), a reconstrução levou em conta as transformações descritas pelos historiadores no modo de vida dela e em sua aparência física.
Segundo Júnia Furtado, Chica passou a viver como uma mulher da elite colonial: era carregada em cadeirinhas por pessoas escravizadas, não andava a pé, nem realizava trabalhos manuais e não amamentava os filhos, função que era desempenhada por amas de leite escravizadas.
Nesse contexto, a reconstrução também buscou refletir a mudança no corpo de Chica, que se tornou mais robusto, o que era entendido como sinal de riqueza e prestígio, já que demonstrava que a mulher não precisava trabalhar.
As ilustrações buscaram refletir esse padrão de beleza vigente no século XVIII, e não os referenciais estéticos contemporâneos.
Nas representações dessa fase da vida, as imagens também passaram a refletir o vestuário luxuoso descrito nas fontes históricas: tecidos estampados e de cores vibrantes, joias, patuás e outros adornos característicos das mulheres negras libertas que alcançavam riqueza e prestígio.
"De modo geral, Chica ostentava vestuário rico e colorido, que incluía meias brancas e anáguas da mesma cor, para dar volume, sapatos de seda ornados com fivelas de prata ou pedras coloridas. A saia, de cetim ou de outros tecidos, era sempre de cores vibrantes, listradas ou floridas. Para combinar, blusas de chita ou algodão em tons de verde, vermelho ou branco. Os acessórios eram variados: chapéu de copa alta, brincos de ouro, pedras preciosas e brilhantes, colares e patuás para proteção; nas mãos, um leque de plumas brancas, que deixou para a Santa Casa de Misericórdia do Arraial. A fim de se proteger da névoa e do frio matinal, usava capa dourada ou colorida, que conferia ao conjunto um ar distinto e imponente." (FURTADO, Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito, p. 139)
As escolhas relacionadas ao figurino, às joias e aos acessórios também foram orientadas pela professora doutora em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e curadora de arte e moda Carolina Bicalho.
A pesquisadora contribuiu com referências sobre as chamadas "joias de crioula" — conjuntos de correntes, pingentes e adornos acumulados ao longo da vida por mulheres negras e usados como símbolo de riqueza e poder após a conquista da alforria.
Chica sem peruca
Pintura na casa de Chica da Silva em Diamantina
Saulo Vieira / TV Globo.
Uma das escolhas feitas durante a elaboração das ilustrações foi não representar Chica da Silva com peruca, como em algumas pinturas presentes na casa dela e em cenas do filme Xica Da Silva, de Cacá Diegues, de 1976.
A decisão foi baseada nas pesquisas da historiadora Júnia Ferreira Furtado, que aponta que a informação difundida por Joaquim Felício dos Santos, autor do livro "Memórias do Distrito Diamantino", de que Chica usava uma cabeleira de cachos sobre a cabeça raspada, não encontra respaldo nos inventários conhecidos de mulheres livres e forras do Arraial do Tijuco.
Segundo a pesquisadora, as perucas aparecem com frequência nos registros de homens da época, indicando que se tratava de um adereço predominantemente masculino. Diante da ausência de evidências documentais que confirmassem o uso de perucas por Chica da Silva, a equipe optou por não incluí-las nas reconstruções visuais.
João Fernandes de Oliveira
As imagens de João Fernandes de Oliveira seguiram descrições sobre a indumentária da elite portuguesa do século XVIII, com casacas, tecidos nobres, chapéu, insígnias da Ordem de Cristo e demais acessórios compatíveis com sua posição de contratador dos diamantes.
"O jovem desembargador deveria impressionar os moradores e impor o respeito que exigia sua presença e o importante cargo de contratador de diamantes que iria ocupar. Trajava-se como a elite branca do Arraial, seguindo a moda europeia. A primeira peça do ritual do vestir era a ceroula, seguida da camisa branca de linho com babados, de calção ou calça e meias finas de seda. Por cima, usava-se uma casaca de droguete preta, vermelha ou azul, ou um fraque de baeta, veludo ou seda. Por fim, um casacão ou capote com mangas quase enroladas sobre o corpo. Os adereços eram variados: pescoinho, no bolso, lenço de seda com babados; outro azul para o tabaco; cabeleira; chapéu com presilha e pluma; a cruz da Ordem de Cristo pendurada ao pescoço; sapatos com fivela de prata ou ouro; bengala de tartaruga com castão de ouro ou prata; e anéis de pedras preciosas. Na algibeira, faca e espadachim com cabos de prata, além de pistolas." (FURTADO, "Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito", p. 139)p. 157-158)
Ilustração de João Fernandes de Oliveira e Chica da Silva
Imagem criada por meio de IA.
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