Crise com Michelle complica estratégia de Flávio Bolsonaro para ampliar eleitorado, dizem analistas

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Montagem com fotos da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Adriano Machado/Reuters e Evaristo Sá/AFP
Nos últimos meses, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, tem buscado suavizar a imagem associada ao bolsonarismo radical, adotando um discurso mais moderado para ampliar seu alcance eleitoral, sobretudo entre mulheres e eleitores independentes. Mas, na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo g1, a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pode comprometer essa estratégia ao expor divisões no núcleo bolsonarista e dificultar a tentativa de atrair esses segmentos do eleitorado.
Na terça-feira (24) Michelle publicou um vídeo afirmando ter levado uma "punhalada" no ano passado. A divergência ocorreu quando Michelle criticou a articulação do PL no Ceará para apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo do estado. Ela disse ter sido "maltratada" por Flávio Bolsonaro e afirmou que seu apoio foi tratado como "insignificante".
À época, o senador reagiu dizendo que Michelle havia "atropelado o próprio presidente Bolsonaro" e afirmou que ela "não é política e precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão".
Michelle Bolsonaro expõe briga com Flávio: 'Entendi que não queria meu apoio'
Logo depois, em meio à tentativa de construir uma imagem mais conciliadora, Flávio pediu desculpas à ex-primeira-dama. "Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", escreveu.
Para Flávia Biroli, professora titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a manifestação de Michelle tem potencial para produzir desgaste justamente entre um público que Flávio tenta conquistar, o feminino.
"O que é mais interessante na fala da Michelle Bolsonaro é que ela está ativando as mulheres conservadoras, mas com uma linguagem muito próxima do feminismo, que defende o respeito às mulheres como sujeitos na vida pública e na política. Ela identifica Flávio como um homem que desrespeita mulheres", afirma.
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Segundo Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, a crise complica a estratégia de Flávio não só para ampliar o eleitorado, mas também para atrair apoio de elites políticas que possam lhe dar palanque. "Quanto mais turbulenta for essa campanha, menor será a disposição de aderir a ela", diz a especialista.
Já a cientista política Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro afirma que dados de monitoramento das redes sociais sugerem que o principal efeito da crise não é a perda de apoio de Flávio entre as mulheres, mas o enfraquecimento da capacidade de unificação do bolsonarismo em torno de uma única liderança. "A crise promove um ruído na campanha", diz Luciana.
Flávio repete frases usadas por Lula
Como parte da estratégia de moderação, Flávio Bolsonaro vem adotando um discurso de defesa de programas sociais, semelhante ao usado pela esquerda. Durante evento em Guarulhos, em 20 de junho, ele prometeu cumprir um "pacto contra a fome". Essa foi uma promessa feita por Lula (PT) para o seu primeiro mandato, em 2003.
Dias antes, em evento promovido pela revista Veja, o senador defendeu a manutenção do Bolsa Família e afirmou que o benefício se tornou um "direito adquirido" da população.
Para o consultor de comunicação política Marcelo Vitorino, a estratégia busca ampliar o alcance da candidatura. "A corrente que hoje predomina é a do Lula, que trata muito de pautas sociais. Não existe outro candidato disputando esse espaço. Se Flávio conseguir beliscar 5% desses votos, ele avança sobre o eleitor do adversário", disse o especialista.
Existe uma diferença, contudo, entre estratégia e capacidade de convencer o eleitor, segundo Vitorino. "Para defender pauta social, você precisa ter uma trajetória, uma vida mais dedicada ao social, que dê credibilidade. Se não existe isso, talvez fosse mais estratégico buscar um vice que tivesse o perfil", analisa o consultor.
No mesmo discurso em Guarulhos, Flávio chegou a repetir uma frase usada pelo adversário petista na campanha de 2022. O bolsonarista encerrou sua fala dizendo que "a esperança vai vencer o medo". Segundo Vitorino a oposição entre esperança e medo é um clássico do marketing político.
"Historicamente, vender esperança costuma ser mais eficiente do que vender medo, principalmente quando uma parcela significativa da população avalia positivamente o governo", afirmou o especialista.
Novo discurso sobre tarifas vem após pesquisas eleitorais
A tentativa de moderação também aparece no posicionamento de Flávio Bolsonaro sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Pesquisa Quaest divulgada em junho mostrou que 47% dos entrevistados dizem que Lula é quem melhor representa hoje o discurso de patriotismo e defesa dos interesses do Brasil, enquanto 37% dizem que é Flávio Bolsonaro.
O mesmo percentual (47%) também concorda mais com Lula, que acusa Flávio de ter incentivado o tarifaço, enquanto 35% acreditam na versão do senador, que disse ter pedido ao governo americano para não adotar novas tarifas.
Durante evento que aconteceu em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, após a divulgação da pesquisa, Flávio afirmou que viajará aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras. "Não é justa mais essa sobretaxa nos nossos produtos. Espero que o governo americano mantenha esse mercado consumidor acessível para as nossas indústrias", declarou.
Em 2025, quando Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Flávio evitou criticar diretamente o presidente americano. Embora reconhecesse impactos econômicos, ele chegou a afirmar que o tarifaço poderia dar um "empurrãozinho" para a aprovação da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, incluindo seu próprio pai.
Moderado na pauta social, radical na segurança pública
Apesar da tentativa de ampliar o diálogo com eleitores moderados em temas econômicos e sociais, Flávio Bolsonaro apresentou um plano com 12 medidas para a segurança pública, com propostas mais radicais.
Entre elas estão a redução da maioridade penal para 16 anos; a castração química para condenados por abuso sexual; a construção de cinco presídios de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador; a classificação das facções e das milícias como organizações narcoterroristas; e o redirecionamento de benefícios destinados a familiares de presos para famílias de vítimas.
Para Mayra Goulart, da UFRJ, esse conjunto de propostas mostra que a estratégia de moderação possui limites. Flávio quer contemplar a demanda de eleitores que desejam uma direita mais moderada, dobra a aposta na segurança pública e não abre mão das pautas que caracterizam o bolsonarismo radical
"A extrema direita costuma disputar símbolos tradicionalmente associados à esquerda sem abandonar suas posições centrais. Não é um movimento de moderação propriamente dito, mas de disputa pelo significado dessas ideias", diz Mayra.
Na avaliação de Flávia Biroli, da UNB, o movimento do bolsonarista reflete um desafio comum enfrentado por lideranças da direita.
"Existe uma tensão entre permanecer identificado com a extrema direita radical e ampliar o número de eleitores por meio de uma suavização retórica. Se ele suaviza demais, corre o risco de se tornar apenas mais um político da direita tradicional e perder a identidade construída pelo bolsonarismo", diz a professora. ...