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Venezuela, Colômbia e Cuba: os casos usados pelo Itamaraty ao citar 'risco' de uso da força militar dos EUA no Brasil

G1 (Globo)
Venezuela, Colômbia e Cuba: os casos usados pelo Itamaraty ao citar 'risco' de uso da força militar dos EUA no Brasil

Itamaraty vê risco dos Estados Unidos usarem a foça militar no Brasil depois de classificar PCC e CV como terroristas
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviou um documento à Câmara dos Deputados em que cita o “risco de uso da força militar” dos Estados Unidos no Brasil após a classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
Segundo o Itamaraty, apesar da colocação do ministro em um documento oficial, não há um elemento novo que indique essa possibilidade. O ministro se valeu de episódios recentes na região, como os casos da Venezuela, de Cuba e da Colômbia (leia detalhes mais abaixo).
A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas foi feita pelo governo de Donald Trump no fim de maio —segundo o governo brasileiro, sem conversas formais prévias.
Chanceler Mauro Vieira
Mateus Oliveira/MRE
No documento em que anuncia a denominação, o epartamento de Estado norte-americano, órgão equivalente ao Ministério das Relações Exteriores brasileiro, afirma que o CV e o PCC “são duas das maiores organizações criminosas mais violentas do Brasil”.
E que a influência das facções "e suas redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil”, chegando aos Estados Unidos.
Desde então, o governo brasileiro vem criticando a medida, afirmando que, na prática, ela não cintribui para desestruturar as facções, não ajuda a combater o crime organizado a nível internacional e ainda pode gerar consequências a pessoas e empresas sem relação direta com as atividades criminosas.
Nicolas Maduro chega ao Heliporto do Centro de Manhattan.
REUTERS/Eduardo Muñoz
Nesse contexto, Mauro Vieira, ao responder ao deputado Evair de Melo, citou que uma das consequências possíveis é o “uso da força militar” dos EUA sobre o Brasil.
O ministro se valeu de alguns casos recentes na região para chegar a essa conclusão, entre os quais:
➡️o bombardeio em janeiro deste ano em Caracas, capital da Venezuela, que resultou na prisão do então presidente Nicolás Maduro;
No dia 3 de janeiro, a Venezuela acordou sob o impacto de uma operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do ditador Nicolás Maduro.
Essa foi a primeira intervenção militar direta dos Estados Unidos em um país na América Latina desde a derrubada do ditador do Panamá Manuel Noriega – há exatos 36 anos.
A operação norte-americana ocorreu após meses de tensões entre Estados Unidos e Venezuela. A movimentação militar começou ainda em agosto, sob a justificativa do combate ao tráfico internacional de drogas.
➡️os ataques a barcos supostamente operados por traficantes perto da costa da Colômbia
O governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, realizou ataques contra barcos no Oceano Pacífico, perto da costa da Colômbia, em outubro de 2025.
Na ocasião, um secretário do governo Trump afirmou que as embarcações estavam sendo operadas por traficantes de drogas, porém sem dar provas — disse apenas que os veículos foram rastreados antes do ataque.
As ações militares compõem uma investida do governo Trump contra cartéis de drogas latino-americanos, contra os quais os EUA dizem estar em guerra. As investidas também ocorreram em meio a uma escalada de tensões entre Trump e o governo de Nicolás Maduro, e aumentam o temor por uma iminente operação terrestre e bombardeios em solo venezuelano.
Meses depois, foi realizada a operação militar que resultou na captura de Maduro.
➡️ e a ameaça de Trump de que Cuba “é a próxima”, quando foi questionado sobre os ataques americanos no Irã.
Nos últimos meses, os Estados Unidos vêm aumentando a pressão sobre Cuba em uma tentativa de chegar a um acordo que pode resultar na queda do governo cubano. O presidente Donald Trump tem sugerido, inclusive, que pode tomar a ilha à força.
No dia 20 de maio, o governo dos EUA acusou formalmente Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e ex-presidente de Cuba, de uma série de crimes. A medida representou mais um capítulo na escalada de tensão entre os dois países.
O indiciamento de Castro e a movimentação militar no Caribe relembraram medidas semelhantes adotadas pelo governo norte-americano semanas antes da ofensiva contra a Venezuela. A operação, feita em janeiro, resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.
Assim como acontece agora com Cuba, Trump também fez uma série de ameaças contra a Venezuela e determinou o envio de um forte efetivo militar ao Caribe para pressionar Maduro.
No entanto, uma eventual ação militar contra Cuba pode gerar questionamentos no direito internacional. As justificativas apresentadas atualmente pelos EUA podem não ser suficientes para respaldar uma intervenção militar, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
O que diz o governo brasileiro
Segundo o ministro, a decisão dos EUA de incluir facções brasileiras na lista de organizações criminosas estrangeiras "representa riscos concretos à soberania nacional”.
“Entende-se que a designação de organizações criminosas como terroristas não trará benefícios concretos para a cooperação internacional entre EUA e Brasil no enfrentamento ao crime organizado”, escreveu Mauro a Vieira.
“A referida classificação unilateral poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal. Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”, completou.
O Brasil já enviou uma proposta aos EUA de cooperação bilateral na área, mas não recebeu resposta.
Integrantes do Itamaraty dizem que o fato de o Brasil ser contra a classificação não significa uma defesa do PCC e do CV em si, mas, sim, da legislação brasileira e do entendimento do direito internacional sobre soberania, uma vez que o entendimento do governo brasileiro é que cabe às próprias instituições brasileiras resolver os problemas internos, ainda que com apoio de outros países por meio de cooperação bilateral. ...

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