A Lua pode virar economia? A aposta por trás dos trilhões de dólares da SpaceX

AI Summary
SpaceX is conducting one of the largest initial public offerings in market history, attracting substantial investor demand across multiple continents. The $75 billion fundraising, part of a wave of technology megadeals expected in 2026 and following the company's merger with xAI, is positioned to substantially increase Elon Musk's wealth to unprecedented levels.
Progressive: Progressive-leaning outlets express skepticism about the investment opportunity, with some questioning whether retail investors should participate and warning against being seduced by 'space fantasies' rather than examining underlying financial fundamentals.
Moderate: Moderate outlets take a primarily analytical approach, reporting on strong investor demand across multiple countries while noting significant disagreement among analysts regarding valuation and raising concerns about environmental impacts from related xAI data center operations.
Conservative: Conservative-leaning outlets emphasize the historic wealth creation potential, celebrating Elon Musk's entrepreneurial achievement and highlighting how the offering democratizes access to a major technology investment for ordinary retail participants.
Mais de meio século depois do primeiro passo humano na Lua, a SpaceX tenta convencer investidores de que o próximo grande salto será econômico.
Embora ainda não existam minas, fábricas ou centros de processamento de dados operando fora da Terra, parte da avaliação de US$ 1,75 trilhão (R$ 8,93 trilhões) atribuída à companhia — que estreia na bolsa nesta sexta-feira (12) —, reflete a expectativa de que atividades desse tipo se tornem economicamente viáveis nas próximas décadas.
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Essa visão aparece de forma explícita nos documentos apresentados à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil.
Neles, a empresa de Elon Musk define o espaço como "a maior fronteira econômica da história humana" e argumenta que a queda dos custos de lançamento está abrindo caminho para uma nova fase de expansão produtiva além da Terra.
🌐 Entre os projetos citados estão sistemas de geração de energia solar na superfície lunar, a extração de gelo para a produção de combustível, o aproveitamento de recursos minerais e a construção de fábricas capazes de produzir satélites e componentes eletrônicos.
🚀 Os planos incluem ainda um sistema de lançamento eletromagnético a partir do satélite natural, numa espécie de "catapulta gigante" projetada para enviar cargas ao espaço sem a necessidade de foguetes.
Por mais futuristas que pareçam — dignas de um filme de ficção científica —, essas iniciativas refletem uma revisão das ambições da empresa e uma reorientação de sua estratégia para os próximos anos.
Isso porque, durante anos, o empresário sul-africano apresentou Marte como o grande objetivo da expansão humana no espaço e o destino final dos planos da SpaceX. Agora, porém, a Lua ganha protagonismo como etapa prioritária da estratégia em seus planos mais imediatos.
“A justificativa de Musk é técnica, [pois] janelas de lançamento da Lua são a cada dez dias, em vez de 26 meses de Marte”, explica Álvaro Machado Dias, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo o docente, a mudança também garantiu uma espécie de aderência ao “calendário do investidor institucional”, uma vez que a Lua pode permitir testar tecnologias, construir uma base operacional e acumular avanços de forma mais rápida, compatível com os horizontes de retorno esperados pelos investidores.
O foguete que precisa funcionar… para todo o resto acontecer
Há, porém, um elemento que conecta praticamente todas as ambições da SpaceX para a Lua: nenhuma delas existe sem o Starship, foguete desenvolvido pela companhia.
Não à toa, o veículo aparece nos planos da empresa menos como um produto comercial e mais como o que a companhia define como infraestrutura capaz de sustentar uma futura economia espacial.
Segundo a própria SpaceX, o projeto foi concebido para transportar grandes volumes de carga e tripulação de forma recorrente e economicamente viável. Há também a aposta na capacidade de reabastecimento em órbita, considerada uma peça-chave para missões mais longas e para a expansão das atividades além da Terra.
Na avaliação de Franco Granda, analista sênior de pesquisa da PitchBook, o Starship representa uma mudança estrutural na forma como o espaço pode ser explorado economicamente.
Para ele, o foguete inaugura uma nova etapa na trajetória da SpaceX, em que as missões espaciais deixam de funcionar como iniciativas pontuais e passam a se aproximar de uma lógica industrial baseada em escala, frequência e reutilização.
Cápsula da SpaceX chega à Estação Internacional
REUTERS/Nasa
➡️ O principal obstáculo histórico do setor sempre foi o custo de colocar pessoas e equipamentos em órbita. A proposta da empresa de Musk é inverter essa equação: transformando o acesso ao espaço em uma atividade mais previsível e rotineira.
A expectativa da consultoria é que a combinação entre reutilização e maior capacidade de carga reduza drasticamente os custos de lançamento ao longo do tempo. Se isso acontecer, projetos que hoje parecem economicamente inviáveis poderão ganhar escala e viabilizar uma presença mais permanente fora da Terra.
"Não se trata apenas de chegar à Lua. Trata-se de criar a infraestrutura necessária para permanecer lá e operar em escala", observa Granda.
O que se ganharia produzindo coisas no espaço?
Se a economia lunar ainda soa como um conceito distante, Jan-Erik Asplund, cofundador da Sacra, empresa de pesquisa e inteligência de mercado focada em startups, procura responder à pergunta que costuma separar visão de negócio de ficção científica: onde estaria o retorno financeiro de tudo isso?
Segundo a consultoria, a queda dos custos de acesso ao espaço pode abrir caminho para atividades produtivas que hoje permanecem inviáveis. Parte dessa oportunidade estaria justamente em produzir fora da Terra.
Em alguns casos, o ambiente de vácuo e microgravidade não seria apenas um local alternativo de produção, mas uma vantagem.
➡️ A gravidade terrestre pode gerar impurezas e deformações em materiais sensíveis. Em órbita, esses efeitos tendem a ser reduzidos, permitindo fabricar produtos com características difíceis de reproduzir em solo.
Entre os exemplos citados por Asplund estão medicamentos produzidos em microgravidade, fibras ópticas especiais usadas em telecomunicações e lasers, além de wafers de silício — lâminas que servem de base para a fabricação de semicondutores.
💊 A estimativa da consultoria é que apenas o mercado de medicamentos produzidos nessas condições possa movimentar US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões) até 2030.
🔬 No caso das fibras ópticas do tipo ZBLAN, cuja fabricação é favorecida pela ausência de gravidade, o potencial de mercado nesse período é estimado em US$ 12 bilhões (R$ 61,2 bilhões), enquanto o segmento global de wafers de silício supera US$ 150 bilhões (R$ 765,2 bilhões).
🚀 Já no turismo espacial se espera que a reutilização de veículos como o Starship reduza gradualmente os custos de acesso à órbita, ampliando um mercado que a Sacra projeta em quase US$ 4 bilhões (R$ 20,4 bilhões) até 2032.
"As pessoas costumam imaginar o espaço apenas como um lugar para lançar satélites. Mas a lógica da próxima etapa é usar o ambiente espacial para fabricar produtos que seriam mais difíceis ou mais caros de produzir na Terra", afirma Asplund.
Outro segmento apontado pelo especialista envolve as futuras estações espaciais privadas. Com a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) se aproximando do fim de sua vida útil, a expectativa é que parte dos recursos hoje destinados à sua manutenção seja direcionada para plataformas comerciais em órbita.
Segundo a Sacra, essa transição pode abrir caminho para uma nova geração de laboratórios, fábricas e centros de pesquisa operados por empresas privadas.
Para a SpaceX, porém, o potencial do espaço não se limita à manufatura.
Nos documentos apresentados à SEC, a companhia afirma que vê o espaço não apenas como um local para fabricar produtos, mas também como uma futura base para sustentar a expansão da inteligência artificial.
➡️ A empresa argumenta que o crescimento da inteligência artificial exige volumes cada vez maiores de energia e processamento, pressionando a infraestrutura terrestre. Como resposta, planeja desenvolver uma rede de satélites capazes de funcionar como centros de processamento de dados em órbita, alimentados por energia solar.
Segundo a companhia, essa arquitetura reduziria parte dos custos associados aos grandes centros de dados terrestres. Em órbita, o calor dos equipamentos poderia ser dissipado diretamente para o espaço, diminuindo a necessidade de estruturas convencionais de refrigeração.
“O espaço oferece o potencial de acesso a uma fonte de energia praticamente ilimitada e um ambiente operacional capaz de sustentar computação de alta densidade de forma contínua. Isso inclui vantagens estruturais para geração de energia, resfriamento dos equipamentos e operações ininterruptas à medida que a capacidade aumenta”, afirma a empresa em seu prospecto de abertura de capital.
A SpaceX diz que pretende iniciar a implantação dessa estrutura a partir de 2028. Mais uma vez, o Starship aparece como peça central, já que a companhia considera o foguete indispensável para transportar ao espaço os equipamentos necessários para sustentar essa rede.
Nos cálculos de Asplund, o movimento também representa uma tentativa de disputar uma parcela do mercado global de serviços em nuvem, estimado em US$ 200 bilhões (R$ 1,02 trilhão). Ele ressalta que a empresa mantém conversas com o Google para avaliar a possibilidade de hospedar conjuntamente centros de processamento de dados em órbita.
“Caso avance, a parceria serviria como uma validação da demanda corporativa por infraestrutura de computação espacial e poderia ajudar a garantir as primeiras receitas do programa de constelação de satélites voltados à inteligência artificial”, afirma.
Musk na Base Estelar da SpaceX em Brownsville, Texas
REUTERS/Adrees Latif/Foto de arquivo
Quanto vale uma economia que ainda não existe?
Embora Franco Granda projete que a economia espacial global possa alcançar US$ 1,8 trilhão (R$ 9,18 trilhões) até 2035, ele adota uma postura cautelosa quando analisa algumas das iniciativas mais ambiciosas da SpaceX.
Projetos como data centers orbitais e uma futura base industrial na Lua aparecem na análise como possibilidades de longo prazo — não como fontes concretas de receita para os próximos anos, cuja realização ainda depende de uma série de avanços tecnológicos, operacionais e econômicos.
"A ideia não é dizer que esses projetos são impossíveis. A questão é que eles estão muito além de qualquer horizonte de planejamento de curto prazo", avalia o analista sênior da PitchBook.
🌙 Ele considera propostas como a Moonbase Alpha — um assentamento lunar voltado à produção industrial — conceitualmente plausíveis, mas agressivas em cronograma. A avaliação é que a construção de uma estrutura permanente na Lua seria um projeto medido em décadas, não em anos.
Por isso, Granda atribui receita praticamente zero a iniciativas como bases lunares e computação orbital em seus modelos financeiros atuais.
“A SpaceX será apresentada [aos investidores] tendo a Starlink como motor de geração de caixa, complementada por diversas apostas de valorização futura, como a escala proporcionada pelo Starship, a conectividade direta para dispositivos móveis e a computação orbital”, afirma.
Mas, para a própria SpaceX, a economia lunar também não parece ser o ponto final dessa história.
Nos documentos apresentados à SEC, a própria companhia descreve o satélite natural como uma etapa intermediária rumo a objetivos ainda mais amplos, incluindo o conceito de civilização Kardashev Tipo II (entenda mais abaixo).
Da economia lunar à civilização movida pela energia solar
Arte/g1 ...
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