Vendaval no RJ: especialistas explicam por que rajadas de ventos fortes estão mais difíceis de prever

Vendaval no RJ: especialistas explicam por que rajadas de ventos fortes estão mais difíceis de prever
O vendaval que atingiu o Rio de Janeiro na quarta-feira (29) surpreendeu moradores e autoridades. Rajadas de vento superiores a 100 km/h provocaram mortes, derrubaram árvores, destelharam casas e causaram transtornos em diferentes pontos do estado.
Mas por que um fenômeno tão intenso não foi previsto com antecedência? E por que não houve um alerta antes do início da ventania?
Meteorologistas e pesquisadores ouvidos pelo RJ2 explicam que eventos extremos, especialmente os associados a rajadas de vento muito fortes, são mais difíceis de prever com precisão. Segundo os especialistas, além de modelos meteorológicos mais sofisticados, é necessário ampliar a rede de radares e contar com equipes treinadas para interpretar rapidamente os dados e transformar as informações em alertas.
A ventania registrada na quarta-feira é classificada pelos especialistas como um fenômeno climático extremo.
"É um fenômeno raro, especialmente nesta época do ano, mas fundamentalmente pelos impactos que ele causou. Provocou mortes, derrubou árvores e destelhou casas. Então é um fenômeno extremo, sem dúvida", afirmou Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Segundo os meteorologistas, o fenômeno foi provocado por uma frente de rajada, associada ao encontro e à interação entre massas de ar com características diferentes. A formação de uma linha de cisalhamento do vento contribuiu para a intensificação das rajadas.
Os especialistas ouvidos pelo RJ2 também apontam uma possível relação do episódio com condições atmosféricas associadas ao El Niño.
A intensidade do fenômeno e o período do ano em que ocorreu também surpreenderam a Prefeitura do Rio.
O alerta da Defesa Civil municipal foi enviado às 16h40, quando a ventania já havia começado.
Em entrevista ao RJ1, o prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que as previsões disponíveis até então indicavam ventos fortes, mas em uma intensidade bem menor do que a registrada.
Segundo ele, informações de 11 estações meteorológicas apontavam para ventos de até 60 km/h ou 70 km/h. Na prática, as rajadas ultrapassaram os 100 km/h.
"O que aconteceu ontem foi: essa previsão desses institutos de meteorologia, das 11 estações, falavam em ventos fortes, de até 60, 70 quilômetros por hora. E a gente teve um verdadeiro vendaval. Um temporal de mais de 100 km/h, que acho que surpreendeu inclusive os meteorologistas", afirmou Cavaliere.
Por que é tão difícil prever ventos extremos?
A previsão de chuvas intensas costuma contar com uma série de informações obtidas por satélites, estações meteorológicas e radares. Para ventos muito fortes, porém, a precisão depende de uma observação mais detalhada da atmosfera e da capacidade de acompanhar a evolução do fenômeno em tempo real.
Em países com redes meteorológicas mais estruturadas, radares são conectados a sistemas de computação de alto desempenho. Os dados são processados e interpretados por equipes especializadas, que conseguem identificar mudanças nas condições atmosféricas e emitir alertas com maior antecedência.
No Brasil, os especialistas apontam que ainda há limitações importantes nessa estrutura.
O Brasil possui aproximadamente 40 radares meteorológicos, segundo Marcelo Seluchi. No estado do Rio de Janeiro, são três.
Para o coordenador do Cemaden, seria necessário ampliar significativamente essa rede. Segundo ele, o ideal seria que o país tivesse pelo menos o dobro do número atual de radares.
Mas não basta instalar os equipamentos. "Isso custa bastante caro. Não é apenas uma questão de custos, senão que você precisa de toda uma logística, de um conjunto de profissionais para fazer manutenção e para operar e interpretar esses radares", explicou Seluchi.
Os radares produzem uma grande quantidade de dados que precisa ser analisada por profissionais capacitados. A velocidade entre a identificação de um fenômeno e a emissão de um alerta pode ser decisiva quando se trata de eventos que se desenvolvem rapidamente.
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Novo supercomputador do Inpe ajuda nas previsões
Supercomputador do Inep
Reprodução/TV Globo
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também vem ampliando a capacidade de processamento dos dados meteorológicos.
O Jaci, novo supercomputador do instituto, começou a operar no fim de 2025. O equipamento custou R$ 30 milhões e tem capacidade de processamento seis vezes maior que a do seu antecessor, o Tupã.
A máquina permite melhorar a qualidade das previsões meteorológicas, mas, segundo os especialistas, equipamentos de processamento não resolvem sozinhos o problema da previsão de ventos extremos.
É preciso combinar os modelos computacionais com uma rede maior de observação e profissionais especializados.
Para Gilberto Câmara, ex-diretor do Inpe, o país precisa tratar a melhoria da previsão meteorológica como um investimento de longo prazo.
"É uma questão de decisão de investimento a longo prazo. Esse é o tipo de investimento que não se dá a curto prazo. Você tem que investir em alguns anos, treinar equipes, formar gente, formar grupos de pesquisa, formar grupos de atenção e resposta", afirmou.
Segundo Câmara, o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos exige uma mudança na preparação do país.
"As mudanças climáticas chegaram para valer. Nós temos que investir muito a sério para que esses eventos que vão se repetir no futuro não tenham o mesmo efeito indesejável que tivemos recentemente", disse.
Meteorologista antecipou chegada do fenômeno ao Rio
Giovanni Dolif alertou sobre vendaval
Reprodução/RJ2
Enquanto os modelos disponíveis não indicavam ventos tão intensos na cidade do Rio, o meteorologista Giovanni Dolif acompanhou a evolução do fenômeno por meio de instrumentos de uma rede privada de monitoramento no litoral.
Desde domingo, segundo ele, as previsões já mostravam a possibilidade de formação de uma linha de cisalhamento — uma região de encontro entre ventos com diferentes direções e velocidades — avançando pelo litoral do Sudeste.
Na manhã de quarta-feira, Dolif passou a acompanhar as medições dos anemômetros instalados no litoral de São Paulo.
Por volta do meio-dia, ele identificou rajadas próximas dos 100 km/h na região da Laje de Santos e, cerca de meia hora depois, em Santos.
A partir da observação do deslocamento da linha de vento e da experiência com episódios semelhantes, o meteorologista avaliou que o fenômeno poderia avançar pelo litoral até o Rio de Janeiro.
"Mesmo com as previsões não indicando ventos muito fortes na cidade do Rio de Janeiro, como só com a previsão dessa linha chegar no Rio, vendo a intensidade, com a experiência de que essas linhas de São Paulo geralmente chegam no Rio de Janeiro, eu fiz essa previsão de que aqueles ventos fortes, aliás muito fortes, chegariam também até a cidade do Rio de Janeiro", afirmou.
Dolif publicou um alerta nas redes sociais antes da chegada da ventania ao Rio.
Evento sobre El Niño precisou ser cancelado
O vendaval chegou a interromper um evento que estava programado justamente para discutir os efeitos do El Niño e das mudanças climáticas.
Pesquisadores participariam de um encontro na Praça São Salvador, na Zona Sul do Rio, na quarta-feira. O evento, no entanto, precisou ser cancelado por causa das condições meteorológicas.
O episódio acabou se tornando, na prática, um exemplo dos desafios que os pesquisadores discutiam: como melhorar a capacidade de observar, prever e responder a eventos climáticos extremos.
Para os especialistas, episódios como o vendaval de quarta-feira reforçam a necessidade de ampliar a infraestrutura de monitoramento meteorológico, investir em tecnologia e formar equipes capazes de interpretar os dados e emitir alertas com rapidez. ...
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