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Jovem criado na igreja conta como reconciliou a fé e a sexualidade: 'Parei de pedir para Deus me mudar'

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Jovem criado na igreja conta como reconciliou a fé e a sexualidade: 'Parei de pedir para Deus me mudar'

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Jovem criado na igreja conta como reconciliou a fé e a sexualidade
Durante anos, Gabriel Guedes acreditou que havia algo errado com ele. Criado em uma família evangélica em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, o jovem de 21 anos cresceu cercado pela fé. Mas, ao perceber ainda na infância que sentia atração por outros meninos, passou a viver um conflito silencioso entre a sexualidade e as crenças que aprendeu desde cedo.
As orações então passaram a ser marcadas pela angústia. Entre lágrimas, pedia para que Deus o mudasse.
"Eram muito intensas, sempre começavam com muita ansiedade, medo e choro. Costumava questionar por que era comigo, se era algo tão difícil e doloroso de lidar", relembrou.
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Gabriel Guedes
Reprodução/Redes Sociais
Gabriel conta que percebeu sua atração por outros meninos entre os 8 e os 10 anos de idade. Por influência da família e dos ambientes religiosos que frequentava, passou anos reprimindo os próprios sentimentos. Acreditava que precisava mudar para ser aceito.
🔎 O psicanalista Allan Jovelino explica que o sofrimento psicológico não decorre da espiritualidade ou da religiosidade em si, mas "Das experiências de rejeição, culpa e discriminação vividas por algumas pessoas em determinados contextos religiosos". Leia mais abaixo
Aos 14 anos, Gabriel decidiu contar à família que era gay. Não como um ato de enfrentamento, mas uma tentativa de viver os próprios sentimentos da mesma forma que via os colegas heterossexuais.
"Queria poder sentir de forma livre e natural, me sentir um pouco 'normal' " disse.
A primeira pessoa para quem contou foi a avó. Na família, as reações foram diversas. Mas, apesar dos conflitos, Gabriel guarda com carinho a lembrança do avô, que escolheu acolhê-lo.
"Ele permitiu que o amor dele fosse maior do que qualquer preconceito ou medo que tinha sobre minha sexualidade. No fim da vida, vivemos momentos incríveis por essa decisão", contou.
O acolhimento também apareceu em gestos concretos. Gabriel conta que o avô abriu espaço para que seu então namorado participasse da convivência familiar, atitude que marcou sua vida.
Gabriel quando criança
Reprodução/Redes Sociais
Enquanto alguns parentes lidaram com a situação de forma relativamente tranquila, outros nunca aceitaram completamente sua orientação sexual. Gabriel conta que, após revelar a orientação sexual, foi trancado no quarto durante uma discussão com o pai.
"Ele gritava comigo e dizia que, para viver e morar com os pais dele, eu deveria ser um 'homem de verdade'. Repreendia meus jeitos, minha forma de falar, de me vestir e até de amar", afirmou.
Desde então, a relação entre os dois permaneceu distante.
Para Gabriel, o momento mais difícil de toda a trajetória não foi apenas a rejeição, mas a sensação de abandono familiar.
"Aprendi a lidar com as coisas sozinho e sem precisar deles. Isso me criou uma ausência familiar muito grande."
A reconciliação com Deus
Gabriel chegou a pedir para que Deus o mudasse
Reprodução/Redes Sociais
As experiências vividas durante a adolescência também impactaram a forma como ele enxergava a própria espiritualidade. Em determinado momento, Gabriel acreditou que não conseguiria mais conciliar a fé cristã com a sexualidade.
"Me sentia diferente. De forma religiosa, indigno de falar com Deus e viver nos caminhos dele", lembrou.
Ele chegou a se afastar da igreja e, por um período, pensou que não haveria mais volta. Apesar disso, nunca deixou de acreditar em Deus.
Com o passar dos anos, algo começou a mudar. As orações deixaram de ser pedidos para que sua sexualidade desaparecesse e passaram a ser uma busca por entendimento.
"Eu parei de pedir para Deus me mudar e passei a pedir entendimento."
Segundo Gabriel, a transformação começou a partir desse momento e se consolidou durante um retiro espiritual promovido por uma igreja, quando compreendeu que não precisava escolher entre a fé e a própria identidade.
"Isso ficou muito claro depois do meu encontro com Deus", afirmou.
A experiência fortaleceu a convicção de que sua orientação sexual não o afastava da espiritualidade.
'Minha relação com Deus é entre eu e Ele'
Hoje, Gabriel define a relação com Deus como algo natural e independente da aprovação de terceiros. "Não busco aprovação dos outros para a minha relação com Ele", resumiu.
Para ele, ser um homem gay e cristão significa compreender que a fé vai além da orientação sexual. "Ser cristão vai muito além do que faço a dois com meu parceiro. Não devo me excluir dos caminhos de Deus por causa da minha sexualidade."
Ao longo dos anos, o jovem também encontrou acolhimento em amigos cristãos, que o ajudaram a reconstruir sua relação com a igreja e a espiritualidade.
Quando ouve que uma pessoa gay não pode ser cristã, prefere responder com respeito, mas sem abrir mão das próprias convicções.
"Mostro o quanto esse pensamento é limitado, mas respeito a opinião. De toda forma, minha relação com Deus é entre eu e Ele."
Hoje, Gabriel acredita que pessoas LGBT também merecem viver a fé com dignidade, pertencimento e respeito.
Ao olhar para trás, ele pensa no menino que, aos 10 anos, chorava durante as orações pedindo para deixar de ser gay. Se pudesse encontrá-lo novamente, a mensagem seria simples.
"Eu diria que não há motivos para se preocupar. Deus não vai abandoná-lo por ser quem é. Deus vai amá-lo, cuidar dele e guiá-lo de todas as formas."
Psicanalista explica o desafio de conciliar fé e identidade
O psicanalista Allan Jovelino explica que a discriminação contra pessoas LGBT+ ainda é uma realidade frequente e está presente em diferentes contextos sociais, inclusive em alguns ambientes religiosos.
"Em algumas religiões mais conservadoras, ainda é comum encontrarmos discursos de líderes que afirmam que ser LGBT é pecado. Muitos tratam a homossexualidade como uma escolha ou como uma doença, algo que deveria ser curado. Isso acaba contribuindo para a manutenção e o fortalecimento do preconceito", afirma.
Segundo o especialista, esse tipo de discurso pode causar impactos profundos na saúde mental.
"É muito fácil encontrar pessoas que sofreram homofobia direta ou cresceram ouvindo que homossexuais iriam para o inferno".
"Esse tipo de vivência durante a infância e a adolescência dificulta o processo de autoaceitação e está associado a maiores índices de depressão, ansiedade e comportamento suicida nessa população."
Com experiência no atendimento de pessoas LGBT+, Allan diz que já acompanhou diversos casos em que a religiosidade foi vivida com culpa e sofrimento.
"Ao longo da minha atuação como psicólogo, já atendi diversas pessoas que se sentiam pecadoras e tinham o hábito de rezar para que Deus as transformasse e retirasse o desejo por alguém do mesmo sexo de suas vidas. Crescer em ambientes LGBTfóbicos pode afetar negativamente os relacionamentos, a autoestima e até a carreira dessas pessoas."
Apesar desse cenário, ele observa mudanças positivas nos últimos anos. "Com a criminalização da homofobia, o aumento da representatividade e o crescimento do número de pessoas que vivem sua sexualidade de forma mais aberta, a discriminação tem diminuído em diversos espaços, inclusive em muitos contextos religiosos."
Segundo Allan, cada vez mais pessoas LGBT têm encontrado formas de conciliar espiritualidade e identidade.
"Da mesma forma que vemos pessoas que se afastaram das religiões por terem vivido experiências de intenso sofrimento, também percebo um movimento crescente de pessoas que estão conseguindo exercer sua fé de diferentes formas, seja dentro de templos e grupos religiosos, seja fora deles."
O especialista destaca que muitas delas têm buscado igrejas inclusivas ou outros espaços religiosos onde possam viver a espiritualidade sem abrir mão da própria identidade.
"Muitas pessoas LGBT+ estão encontrando igrejas inclusivas ou migrando para religiões onde se sentem mais acolhidas. Outras desenvolvem sua espiritualidade mesmo fora dos templos religiosos e passam a perceber que discursos discriminatórios de determinados líderes não representam, necessariamente, a relação que constroem com Deus."
Para Allan, é importante diferenciar religiosidade de discriminação.
"O sofrimento psicológico não decorre da espiritualidade ou da religiosidade em si, mas das experiências de rejeição, culpa e discriminação vividas por algumas pessoas em determinados contextos religiosos."
Ele acrescenta que, embora de forma gradual, cresce o número de grupos religiosos que acolhem a população LGBT. "A cada dia se torna mais comum encontrar grupos ecumênicos voltados para a população LGBT, além de padres, pastores e outros líderes religiosos que atuam no enfrentamento da discriminação. Assim, o exercício da fé deixa de estar associado à punição e ao sofrimento e passa a representar pertencimento, cuidado com a saúde mental e senso de propósito."
Hoje, Gabriel acredita que pessoas LGBT também merecem viver a fé com dignidade, pertencimento e respeito
Reprodução/Redes Sociais
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