Dossiês, quebra de sigilo e 'blitz encomendada': veja como funcionava a 'agência' de espionagem de empresário Alan Cavalcante em BH

Mensagens rastreadas pela Polícia Federal entre Tayná e uma agência.
Polícia Federal
A segunda fase da Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18), em Belo Horizonte, teve como alvo uma organização criminosa que atuava em Minas Gerais e era liderada pelo empresário Alan Cavalcante. A companheira dele, Tayná Vitória Cerqueira Gouveia, considerada uma das principais integrantes do grupo, também foi presa.
Alan é investigado pela Polícia Federal como líder de uma organização criminosa investigada por fraudes em licenças ambientais no setor de mineração.
As investigações revelaram a existência de uma estrutura paralela de inteligência voltada para o levantamento de dados sigilosos e monitoramento de autoridades.
O esquema oferecia o acesso ilícito a informações que só poderiam ser obtidas com autorização judicial ou por agentes do Estado.
De acordo com a PF, os dispositivos apreendidos mostram que o grupo utilizava canais permanentes com empresas de investigação que operavam sob nomes como "Rastrear", "Detectar" e "Foco".
A "gerente" do esquema
Com o rastreamento de mensagens, a Polícia Federal teve acesso a conversas de aplicativos entre Tayná Vitória e essas empresas de investigação (veja mensagens acima). Os diálogos extraídos confirmam que a companheira do empresário Alan Cavalcante, era a peça-chave na operacionalização dos pedidos.
Embora não figurasse formalmente nas empresas do grupo, ela atuava como intermediária operacional, sendo a responsável por vários pedidos. Entre as ilegalidades listadas pela polícia estão:
Consulta de placas de veículos e números de telefone
Solicitar diligências de vigilância física 24 horas
Além disso, segundo as polícia, Tayná realizava pagamentos via Pix diretamente para os donos das agências e recebia relatórios para serem repassados para Alan.
Em um dos prints da investigação, Tayná envia a foto de uma placa de carro e pergunta: "Quanto fica?". A agência responde prontamente: "Te mando essa cortesia" (veja os prints mais acima).
Segundo a PF, essa proximidade e a oferta de "cortesias" indicam que o grupo era um cliente VIP e recorrente da estrutura clandestina.
O "Menu" do crime e acesso a sistemas restritos
O que mais impressionou os investigadores foi o nível de detalhamento das informações obtidas. O grupo recebia dossiês completos que incluíam dados de Imposto de Renda, histórico de compras online, registros de vacinação (lotes de vacina contra COVID-19) e endereços vinculados a contas de banda larga.
A PF destaca que o padrão dessas fichas é compatível com consultas indevidas a bases restritas do governo, e há a suspeita de ter agentes públicos envolvidos ou acesso ilegal a senhas institucionais.
Blitz Policial Encomendada
A investigação da Polícia Federal detalhou um plano da organização criminosa para simular uma blitz policial "encomendada" contra a ex-esposa do empresário Alan Cavalcante.
O esquema foi operacionalizado por sua companheira, Tayná Vitória, que negociou com uma agência de investigação a contratação de "parceiros" dentro das forças de segurança para realizar a abordagem.
O objetivo era que um policial civil interrompesse o trajeto de Mônica sob pretexto de "atitude suspeita", acionando logo em seguida a Polícia Militar para realizar o teste do bafômetro e o reboque do veículo, forçando um flagrante de embriaguez.
O serviço clandestino tinha preços tabelados: R$ 7mil para ocorrências em Belo Horizonte e R$ 8 mil em Nova Lima, valores justificados pela necessidade de mobilizar contatos nas corporações.
A investigação também apontou Nas mensagens interceptadas, a agência chegou a dispensar a vigilância física para o flagrante, revelando que o carro da vítima já estava "chipado" — ou seja, monitorado em tempo real por um rastreador instalado ilegalmente.
Alvos: de policiais a juízes
Em uma das consultas realizadas pela organização, o alvo identificado foi um policial civil de Minas Gerais.
O esquema também foi usado para tentar cercar a Justiça. Quando um mandado de segurança de interesse do grupo foi redistribuído para um juiz, Alan ordenou que Tayná fizesse "aquele mesmo trabalho".
A organização teve acesso ao CPF do magistrado, seus dados financeiros e uma árvore genealógica completa, identificando até um primo de primeiro grau do juiz para tentar uma aproximação indireta.
A PF afirma que a manutenção dessa rede representava um "perigo processual concreto", já que o grupo tinha capacidade de intimidar testemunhas e mapear a rotina de autoridades em tempo real, chegando ao ponto de instalar rastreadores clandestinos nos carros dos alvos.
O g1 tenta contato com as defesas de Alan Cavalcante e Tayná Vitória.
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