Mãe denuncia negligência após morte de bebê prematuro em maternidade do Acre: 'Dor que não passa'

Mãe denuncia negligência após morte de bebê prematuro no Acre
Mayra Silva Chaves, de 40 anos, mãe do bebê Lucas Gabriel Chaves Santiago, acusa a Maternidade Bárbara Heliodora, em Rio Branco, de negligência durante o atendimento prestado ao filho e questiona a causa da morte do bebê, informada pela unidade de saúde como sepse (conhecida como infecção generalizada).
O menino morreu no dia 12 de maio, aos 24 dias de vida, após quase um mês internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal. Ele nasceu prematuro em 18 de abril, com 32 semanas de gestação, após a mãe desenvolver um quadro de pré-eclâmpsia durante a gravidez, que era considerada de risco. (Entenda mais abaixo)
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Ao g1, a Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre) informou em nota que não há registro de manifestação formal sobre o caso na ouvidoria da Maternidade Bárbara Heliodora, nem notificação do Ministério Público (MP-AC) relacionada aos fatos relatados pela mãe. (Confira a nota completa na íntegra no final da reportagem)
Já o MP-AC informou, por meio da 2ª Promotoria Especializada de Defesa da Saúde, que as circunstâncias da morte do bebê são investigadas pela Polícia Civil, por meio de inquérito policial. O órgão afirmou ainda que acompanha o procedimento como fiscal da lei e que, após a conclusão das investigações, adotará as medidas cabíveis em relação aos possíveis responsáveis.
Após a morte do filho, Mayra registrou um boletim de ocorrência na Delegacia Especializada Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) e passou a buscar esclarecimentos sobre o caso.
''O Lucas ficou internado na UTI desde o nascimento e morreu na madrugada do dia 12 de maio. A última vez que eu vi ele foi no dia 11. Horas antes de eu receber a notícia da morte, a equipe médica me informou que ele estava bem e estável'', relatou.
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Mayra informou ainda que, dias antes do óbito, falou para os médicos sobre sinais de dor apresentados pelo filho e disse acreditar que o CPAP, aparelho utilizado para auxiliar a respiração de recém-nascidos prematuros, estaria machucando a cabeça de Lucas.
A mãe relatou também que a gestação era acompanhada como de alto risco devido à idade, e ao desenvolvimento de hipertensão durante a gravidez.
''Como disseram que o meu filho morreu de infecção generalizada se segundo os médicos ele já tinha terminado o tratamento e estava bem? Na certidão de óbito tem como a causa da morte sepse, mas a cabeça do meu filho estava machucada, com hematomas'', contou.
Lucas Gabriel Chaves Santiago nasceu prematuro, ficou internado por 24 dias na UTI neonatal e morreu em 12 de maio, em Rio Branco
Arquivo pessoal
Segundo a mãe do menino, cerca de uma semana depois do registro da ocorrência, servidores do Centro de Atendimento à Vítima (CAV), vinculado ao MP-AC, saíram de Rio Branco e foram até a casa dela, em Senador Guiomard, no interior do estado. Ela fazia o pré-natal na unidade de saúde do município e também era acompanhada em Rio Branco, para onde se deslocava a cada 15 dias.
A mãe afirmou, no entanto, que posteriormente entrou em contato com a promotoria e foi informada de que ainda não havia número de processo judicial porque estava em fase de investigação preliminar.
''Os servidores foram até a minha casa para colher depoimento, documentos e outros materiais relacionados ao caso. Eles me disseram que as informações seriam encaminhadas à 2ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Saúde'', relatou.
Parto prematuro e UTI
Segundo ela, no dia 15 de abril, durante uma ultrassonografia de rotina na Maternidade Bárbara Heliodora, a pressão arterial dela apresentou elevação. Após ser avaliada, foi diagnosticada com um quadro inicial de pré-eclâmpsia e permaneceu internada até o dia 18 de abril, quando os médicos decidiram interromper a gestação porque a pressão não baixava.
“Eu já sabia que ele ia nascer e iria para a UTI por conta da prematuridade e do baixo peso. O problema era comigo. Todas as vezes que ouviam o coraçãozinho dele diziam que estava tudo certo, que os batimentos estavam normais”, relembrou.
Lucas foi encaminhado para a UTI Neonatal logo após o nascimento. Segundo a mãe, dois dias depois, em 20 de abril, o bebê sofreu uma parada cardiorrespiratória após receber fórmula.
“Eles deram fórmula para o meu filho, ele começou a vomitar e teve uma parada cardíaca. Precisaram entubar ele'', contou.
Lucas Gabriel Chaves Santiago nasceu prematuro, ficou internado por 24 dias na UTI neonatal e morreu em 12 de maio, em Rio Branco
Arquivo pessoal
Ainda de acordo com Mayra, Lucas permaneceu entubado por cerca de duas semanas e, após apresentar melhora, passou a respirar com auxílio do CPAP. Ela afirma que, após esse episódio, o filho apresentou evolução constante.
Segundo a mãe, ele ganhou peso, passou a receber leite materno e concluiu o tratamento com antibióticos iniciado logo após o nascimento para prevenir e combater infecções comuns em prematuros.
“Ele estava aumentando o peso, mamando bastante, tinha parado de tomar os remédios porque estava evoluindo muito bem, logo iria sair da UTI'', disse.
Ultrassonografia craniana
Mayra relatou também que, após o término do tratamento contra infecção, começou a perceber mudanças no comportamento do bebê. “Meu filho começou a chorar muito. Ele levava a mão na cabeça, puxava os cabelinhos e arrancava o CPAP'', contou.
Segundo ela, no dia 9 de maio, procurou um dos médicos responsáveis pela UTI para relatar que acreditava que o equipamento estava machucando a cabeça do filho. ''Eu disse que ele estava sentindo dores. A resposta foi que iam verificar e conversar com a equipe de enfermagem'', explicou.
No dia seguinte, ainda conforme a mãe, a equipe chegou a fazer uma ultrassonografia craniana no bebê.
“Eles disseram que precisaram fazer uma ultrassonografia de emergência porque ele estava chorando muito. Depois falaram que tinha aparecido um pequeno coágulo de sangue, umas manchinhas na cabeça. Eu falei que tinha avisado que ele estava sentindo dor, mas disseram que isso era normal em crianças prematuras'', relatou.
Após o exame, segundo ela, os profissionais passaram a colocar uma touca sob o CPAP e o bebê começou a receber medicação para permanecer mais calmo. “Diziam que iam dar a medicação porque ele arrancava muito o aparelho”, disse.
Última vez que viu o filho
Mayra afirma que esteve com o filho pela última vez no dia 11 de maio. Naquele dia, fez o método canguru com o bebê e, segundo ela, recebeu informações tranquilizadoras da equipe médica.
“A médica disse que eu podia ir para casa tranquila, porque meu filho estava bem, ganhando peso, mamando direitinho e que, em quatro dias, iria para o canguru'', relembrou.
Como familiares não podem permanecer na UTI durante a noite e ela precisava retornar ao local onde estava hospedada por ser do interior, decidiu voltar para Senador Guiomard para buscar o outro filho, que havia sido autorizado a conhecer o irmão.
Na madrugada seguinte, porém, recebeu uma ligação. “Às quatro horas da manhã me ligaram dizendo que ele tinha passado mal e que era grave. Quando cheguei lá, por volta das cinco horas, meu filho já estava no necrotério todo enrolado'', declarou.
Machucados
A mãe contou ainda que encontrou Lucas enrolado em um cobertor, como se estivesse sendo entregue à família após receber alta. Segundo Mayra, uma profissional chegou a orientá-la a não abrir o corpo. No entanto, ela retirou a touca que cobria a cabeça do bebê.
“Pediram para eu não abrir o pano que cobria o meu filho para eu não sofrer mais, só que eu abri. Foi aí que eu vi o machucado. Nos últimos dias eu não conseguia ver porque ele estava sempre de touca e com o CPAP [...] Entregaram meu filho bem enroladinho, como se fosse um bebê vivo indo para casa'', ressaltou.
A mãe afirma ainda que percebeu, durante o velório, que faltava a ponta de um dos dedos do filho.
“Até hoje ninguém me explicou por que a ponta do dedo do meu filho estava faltando e por que ele estava machucado na cabeça. Eu quero respostas. As pessoas pensam que, por eu ser uma mulher negra e do interior, eu não sei dos meus direitos”, afirmou.
Mayra contou ainda que espera por algum esclarecimento há dois meses, mas ainda não recebeu retorno.
“Eu sei que meu filho não volta mais, mas eu quero respostas. Quero que investiguem o que aconteceu para que outras mães não passem pela dor que eu estou passando. É uma dor que não passa e que eu não desejo para ninguém'', completou.
Nota da Sesacre na íntegra
A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) informa que, até o momento, não há registro de manifestação formal sobre o caso na Ouvidoria da Maternidade Bárbara Heliodora, tampouco qualquer notificação por parte do Ministério Público relacionada aos fatos mencionados.
Esclarece que a Comissão de Revisão de Óbitos atua mediante a formalização da demanda, procedimento necessário para a abertura do processo de análise e investigação, com avaliação técnica da assistência prestada e de toda a documentação clínica do caso.
Diante disso, a Sesacre informa que fará contato com a mãe da criança para convidá-la a comparecer à Ouvidoria da Maternidade Bárbara Heliodora, onde poderá ser ouvida e formalizar sua manifestação. A partir desse registro, será instaurado o procedimento de investigação dos fatos apresentados, garantindo uma apuração técnica, criteriosa e transparente.
A Secretaria reafirma seu compromisso com a transparência, o acolhimento aos usuários do Sistema Único de Saúde e a apuração rigorosa de toda denúncia formalmente apresentada.
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