Grupo ultraconservador excomungado pelo Vaticano recorre da decisão

Papa Leão XIV enfrenta crise com grupos tradicionalistas
O grupo católico ultraconservador Fraternidade São Pio X (SSPX), excluído da Igreja Católica pelo Vaticano no início do mês, informou nesta segunda-feira (13) que apresentou um recurso contra a decisão da Santa Sé.
Em 2 de julho, o Vaticano declarou a SSPX oficialmente "em cisma" após o grupo ordenar quatro bispos sem autorização do papa Leão XIV.
A Santa Sé excomungou os bispos ligados à organização, declarou inválidos os sacramentos celebrados por eles e orientou os fiéis a não aderirem ao grupo.
A Fraternidade São Pio X defende o retorno das missas em latim e rejeita parte das reformas adotadas pelo Vaticano há mais de 60 anos. Entenda mais abaixo.
Em comunicado, a SSPX disse que protocolou um recurso contra a decisão no último sábado (11).
No comunicado, o grupo diz que exerce o direito de pedir a revisão de um ato administrativo que considera lesivo e afirma agir "em espírito de respeito à autoridade eclesiástica" e de "fiel apego à justiça, à verdade e ao bem da Igreja".
A Fraternidade São Pio X também informou que entregou o pedido às autoridades competentes e pediu orações aos fiéis.
Decisão
O Papa Leão XIV acena para a multidão antes de participar das orações na Catedral da Santa Cruz e Santa Eulália, durante sua viagem apostólica, em Barcelona, Espanha, em 9 de junho de 2026.
REUTERS/Yara Nardi
Segundo o Vaticano, a Fraternidade São Pio X está oficialmente "em cisma" com a Igreja Católica, o que significa que a entidade foi oficialmente separada da ordem da Igreja.
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Além da excomunhão dos bispos, o Vaticano advertiu os católicos de todo o mundo que a Fraternidade São Pio X agora celebra sacramentos de forma ilícita e não pode oficiar casamentos nem ouvir confissões com validade perante a Igreja Católica.
A Santa Sé também afirmou que os padres e fiéis leigos que aderirem ao grupo ultraconservador dissidente passam a ser considerados em situação de cisma e excomungados.
Antes da ordenação, Leão XIV havia feito um último apelo ao superior da Fraternidade São Pio X, o padre Davide Pagliarani, para que desistisse da cerimônia. Em carta divulgada pelo Vaticano, o pontífice pediu que o grupo "renunciasse ao projeto" e alertou para as consequências da decisão.
Foram consagrados quatro novos bispos — dois franceses, um norte-americano e um suíço — diante de milhares de fiéis reunidos na sede da fraternidade.
Segundo a Santa Sé, a ordenação de bispos sem o consentimento do papa rompe a comunhão com a Igreja Católica.
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Consagração cismática de bispos realizada pela Sociedade de São Pio X (SSPX), grupo católico tradicionalista, em Écône, no oeste da Suíça, em 1º de julho de 2026.
AFP
Grupo rejeita reformas da Igreja
A Fraternidade São Pio X reúne católicos tradicionalistas que defendem a reversão de mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II.
Entre as principais bandeiras do grupo estão o retorno das missas em latim, celebrações com o padre voltado para o altar — de costas para os fiéis — e a rejeição de parte das reformas litúrgicas e pastorais adotadas pela Igreja nas últimas décadas.
A decisão do Vaticano marca uma nova escalada na crise entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, considerada o maior grupo dissidente do catolicismo tradicionalista.
O que defende a Fraternidade São Pio X?
Consagração cismática de bispos realizada pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em Écône, no oeste da Suíça, em 1º de julho de 2026
FABRICE COFFRINI / AFP
Fundada em 1970 pelo bispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade São Pio X surgiu em oposição às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965.
O concílio marcou uma das maiores reformas da história recente da Igreja Católica. Entre as mudanças, as missas deixaram de ser obrigatoriamente celebradas em latim e passaram a ser realizadas na língua de cada país.
Os padres também passaram a celebrar voltados para os fiéis, e a Igreja ampliou o diálogo com outras religiões.
A fraternidade, porém, considera que essas reformas descaracterizaram a tradição católica. O grupo defende a preservação da liturgia anterior ao Concílio Vaticano II e uma interpretação mais rígida da doutrina da Igreja.
Esta fotografia mostra a tonsura do bispo francês consagrado Michel Poinsinet de Sivry durante a consagração cismática de bispos pela Sociedade de São Pio X (SSPX), organização católica tradicionalista, em Écône, no oeste da Suíça, em 1º de julho de 2026.
FABRICE COFFRINI / AFP
Um conflito que atravessa décadas
O confronto entre a Fraternidade São Pio X e o Vaticano não começou agora. Em 1988, o fundador da comunidade também ordenou quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II, apesar de um apelo para que desistisse da decisão.
Na época, a ordenação levou à excomunhão dos envolvidos. A punição foi suspensa em 2009 pelo papa Bento XVI, em uma tentativa de reaproximação, mas a situação canônica da fraternidade permaneceu irregular e as divergências nunca foram totalmente resolvidas.
Agora, com a ordenação de quatro novos bispos, o grupo volta a desafiar diretamente a autoridade do Vaticano, reabrindo um impasse que atravessa seis pontificados e coloca Leão XIV diante de uma das primeiras grandes crises de seu governo.
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