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Mortes por álcool no trânsito têm queda de quase 20%, mas trajetória de queda não é mantida

G1 (Globo)
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Mortes por álcool no trânsito têm queda de quase 20%, mas trajetória de queda não é mantida

Mortes por álcool no trânsito têm queda de quase 20%, mas trajetória de queda não é mantida
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A taxa de mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool caiu 19,5% no Brasil entre 2010 e 2024, mas o avanço perdeu força nos últimos anos e o número absoluto de vítimas voltou a crescer. Em 2024, o país registrou 13.075 óbitos associados à combinação de bebida alcoólica e direção, alta de 6,2% em relação ao ano anterior, segundo análise do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), divulgada às vésperas do Dia Nacional da Lei Seca, celebrado em 19 de junho.
Apesar de a Lei Seca ser considerada uma das mais rigorosas do mundo e ter contribuído para reduzir a mortalidade no trânsito ao longo de quase duas décadas, especialistas alertam que a legislação, sozinha, já não é suficiente para manter a trajetória de queda. O aumento da frota, especialmente de motocicletas, e a necessidade de reforçar a fiscalização estão entre os desafios apontados.
Lei Seca ajudou a reduzir mortes, mas cenário preocupa
Criada em 2008, a Lei Seca estabeleceu tolerância zero para motoristas que dirigem após consumir bebidas alcoólicas. Desde então, o Brasil registrou uma redução de 19,5% na taxa de mortes atribuíveis ao álcool no trânsito por 100 mil habitantes entre 2010 e 2024.
Mas a análise do CISA mostra que esse ritmo de queda vem desacelerando. Em vez de continuar diminuindo, o número absoluto de mortes voltou a crescer. Foram 13.075 óbitos em 2024, aumento de 6,2% na comparação com 2023.
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O levantamento também mostra crescimento das consequências mais graves da combinação entre álcool e direção. Em 2025, foram registradas 102.440 internações relacionadas a esses eventos, número 1,9% superior ao do ano anterior.
Homens concentram a maioria das vítimas
Os dados revelam que os homens seguem sendo os mais afetados pelos acidentes relacionados ao consumo de álcool.
Em 2024, eles representaram:
86,7% das mortes atribuíveis ao álcool no trânsito;
81,8% das hospitalizações associadas a esses acidentes.
Segundo o CISA, estratégias de prevenção voltadas especificamente para o público masculino são consideradas fundamentais para ampliar a redução da mortalidade.
De acordo com Mariana Thibes, coordenadora da instituição, os resultados obtidos pela Lei Seca ao longo dos últimos 18 anos demonstram sua eficácia, mas a manutenção dos avanços depende de um conjunto de medidas complementares.
Entre elas, estão o fortalecimento das ações de fiscalização, a ampliação do acesso ao atendimento de emergência e campanhas preventivas direcionadas aos grupos mais vulneráveis.
A Organização Mundial da Saúde estima que 36,6% das ocorrências no trânsito entre os homens e 26,3% entre as mulheres são associadas ao uso de álcool, ou seja, uma parcela bem maior das mortes masculinas no trânsito tem o álcool como fator determinante.
Thibes diz que essa estimativa maior não é por uma questão biológica, mas sim comportamental: “O consumo excessivo de álcool ainda é socialmente associado à masculinidade, à ideia de que homem que é homem aguenta beber. Essa mesma lógica opera no trânsito, ou seja, a predisposição para o risco, o excesso de velocidade, a resistência a usar equipamentos de proteção”, afirma.
Por isso, a especialista defende que as estratégias de prevenção avancem além da fiscalização, envolvendo campanhas de conscientização que dialoguem com essas normas culturais de gênero.
Motocicletas ampliam desafio da segurança viária
O aumento das ocorrências envolvendo álcool no trânsito está associado a diversos fatores.
Entre os principais estão:
quantidade de operações de fiscalização com bafômetros;
crescimento da frota de veículos;
aumento dos acidentes envolvendo motocicletas.
O cenário das motos chama atenção. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 40% das mortes no trânsito (com ou sem relação com álcool) registradas em 2023 ocorreram entre motociclistas.
Para especialistas, a expansão desse tipo de transporte tornou o trânsito mais complexo e exige operações de fiscalização mais eficientes, com planejamento e uso de inteligência estratégica para identificar áreas e comportamentos de maior risco.
Tocantins, Piauí e Mato Grosso lideram taxas de mortalidade
A análise também identificou diferenças importantes entre os estados brasileiros. Ao todo, 18 estados apresentaram taxa de mortes por 100 mil habitantes atribuíveis ao álcool superior à média nacional.
Os maiores índices foram registrados em:
Tocantins;
Piauí;
Mato Grosso.
No caso das internações atribuíveis ao álcool, 16 estados ficaram acima da média do país. As maiores taxas foram observadas em:
Espírito Santo;
Pará;
Acre.
Os resultados indicam que o impacto do álcool no trânsito não ocorre de forma homogênea e reforçam a necessidade de políticas regionais adaptadas às características locais.
O que a ciência diz sobre reduzir mortes no trânsito
Um estudo internacional publicado em março de 2026 analisou dados de 165 países para investigar a relação entre os limites legais de concentração de álcool no sangue e as taxas de mortalidade no trânsito atribuíveis ao consumo de bebidas alcoólicas. A principal conclusão foi que reduzir os limites permitidos de álcool para motoristas é uma medida importante, mas insuficiente quando aplicada isoladamente.
Segundo os pesquisadores, as maiores reduções de mortes são alcançadas quando a legislação é acompanhada por:
fiscalização confiável e frequente;
acesso rápido ao atendimento de emergência;
estratégias de prevenção direcionadas aos grupos mais expostos ao risco.
Os resultados reforçam a avaliação de que leis rigorosas continuam sendo essenciais, mas precisam ser combinadas com ações permanentes de fiscalização e políticas públicas de segurança viária para produzir impactos mais duradouros.
“Estudos têm demonstrado que, mesmo com leis existentes, se não houver uso frequente e estratégico do bafômetro nas operações, sobretudo nas áreas onde os dados mostram menor efetividade da Lei Seca, a redução de mortes tende a diminuir”, diz Thibes.
Como o levantamento foi feito
A análise do CISA utilizou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Datasus, aplicando o chamado Fator Atribuível ao Álcool (FAA), metodologia adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para estimar a participação do consumo de bebidas alcoólicas nos acidentes de trânsito.
Segundo os parâmetros mais recentes da OMS, o álcool está relacionado a 36,6% das ocorrências de trânsito entre homens e 26,3% entre mulheres. As taxas por 100 mil habitantes foram calculadas com base nas estimativas populacionais do IBGE.
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