O câncer mudou. E a forma de tratá-lo também

Em pouco mais de três décadas, a oncologia passou por uma das maiores transformações da medicina. Tratamentos que antes exigiam longos períodos de internação deram lugar a terapias mais precisas, com menos efeitos colaterais e maior qualidade de vida para os pacientes. O avanço como a criação da imunoterapia, das terapias-alvo, dos testes genéticos, da medicina nuclear, além da tecnologia mudou não apenas a forma de tratar o câncer, mas também a maneira de enxergar quem enfrenta a doença.
A mudança é acompanhada de perto pela oncologista clínica e diretora administrativa da Oncomed, Cristina Guimarães Inocêncio. Com mais de 30 anos de dedicação a oncologia, ela testemunhou mudanças significativas no cuidado oncológico. "Quando comecei minha residência, o foco estava principalmente na doença. Hoje, além de tratar o tumor, buscamos compreender as características individuais de cada paciente para oferecer terapias mais assertivas e menos agressivas", afirma.
Um dos avanços mais visíveis está na própria quimioterapia. A médica se recorda de uma época em que a internação fazia parte da rotina de muitos pacientes que iniciavam o tratamento. "Era comum vermos pacientes internados durante dias para receber quimioterapia. Além do tratamento em si, precisávamos lidar com efeitos colaterais mais intensos e com uma rotina que impactava profundamente a vida dessas pessoas”.
Atualmente, em muitos casos, a medicação é administrada de forma ambulatorial, permitindo que o paciente retorne para casa no mesmo dia. Além da redução no tempo de permanência hospitalar, houve melhora significativa no controle dos efeitos colaterais, como náuseas, vômitos e fadiga, graças a medicamentos de suporte mais eficazes e a protocolos terapêuticos mais modernos.
Terapia-alvo e precisão - A oncologia também avançou com o desenvolvimento das terapias-alvo. Diferentemente da quimioterapia tradicional, que pode atingir células saudáveis e doentes, esses medicamentos são projetados para agir em alterações moleculares específicas presentes nas células tumorais.
Para a oncologista, um dos avanços mais impressionantes foi a possibilidade de compreender melhor o comportamento de cada tumor. "Há 30 anos, pacientes com o mesmo tipo de câncer frequentemente recebiam tratamentos muito semelhantes. Hoje sabemos que dois tumores aparentemente iguais podem ter características moleculares completamente diferentes. Isso mudou a forma de conduzir os tratamentos."
O sistema imunológico como aliado - Outro marco importante foi a chegada da imunoterapia. Medicamentos conhecidos como bloqueadores de proteínas imunológicas ajudam o sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas. A estratégia trouxe novas perspectivas principalmente para tumores que antes apresentavam poucas opções terapêuticas.
“Passamos a contar com tratamentos que ajudam o sistema imunológico a identificar aquilo que antes conseguia se esconder dele. Em muitos casos, isso ampliou as possibilidades terapêuticas e trouxe resultados que não víamos há alguns anos."
Testes genéticos e biomarcadores - Com o avanço dos biomarcadores e dos testes genéticos, tornou-se possível analisar características específicas do tumor para identificar quais terapias têm maior chance de sucesso para cada paciente. Além de orientar o tratamento, os testes de hereditariedade ajudam a detectar predisposições genéticas ao câncer, permitindo estratégias mais adequadas de prevenção, rastreamento e acompanhamento familiar.
“Esses exames permitem decisões mais individualizadas. Em vez de aplicar um mesmo tratamento para todos, conseguimos adaptar a terapia ao perfil biológico de cada paciente”, explica a oncologista.
Para que essas informações sejam utilizadas de forma eficiente, a oncologia também passou por uma transformação tecnológica importante.
Tecnologia e dados em tempo real - A digitalização dos processos trouxe mais agilidade para o atendimento oncológico. Resultados de exames, imagens e informações clínicas podem ser compartilhados rapidamente entre equipes médicas, contribuindo para decisões mais rápidas e integradas. O uso de dados em tempo real também facilita o acompanhamento da evolução do paciente e a adaptação do tratamento sempre que necessário.
Esse fluxo integrado de informações reforçou uma mudança que, para a médica, é uma das mais significativas das últimas décadas: o fortalecimento do cuidado multidisciplinar.
A força do cuidado multidisciplinar - Hoje, o paciente oncológico conta com uma rede de profissionais que inclui oncologistas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos, cuidados paliativos e outros especialistas.
A abordagem integrada busca tratar não apenas o tumor, mas também aspectos emocionais, nutricionais, físicos e sociais relacionados ao tratamento. Para a médica, a principal transformação da oncologia nas últimas décadas foi a mudança de perspectiva sobre o cuidado.
“O objetivo continua sendo combater o câncer, mas hoje entendemos que qualidade de vida, bem-estar e individualização do tratamento são fundamentais. O paciente deixou de ser apenas alguém que recebe uma terapia e passou a ser o centro de todo o processo de cuidado”. ...
이 뉴스, 어떠셨어요?
탭 한 번으로 반응 · 로그인 불필요