Igreja onde Chica da Silva foi sepultada preserva história em Diamantina

Local onde estão sepultados os restos mortais de Chica da Silva, no cemitério ao lado da igreja
Saulo Vieira / TV Globo
A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco guarda uma das principais lembranças da trajetória de Chica da Silva. Em testamento, ela manifestou o desejo de ser sepultada no templo, onde manteve uma forte ligação ao longo da vida.
O pedido foi respeitado quando morreu, em 15 de fevereiro de 1796, e seu corpo foi enterrado no altar de Santa Isabel, de quem era devota. Mais de um século depois, durante uma reforma realizada na década de 1930, os restos mortais foram transferidos para um cemitério ao lado da igreja.
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Muito além dessa ligação com uma das personagens mais emblemáticas da história de Minas Gerais, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco preserva séculos de memória e mantém viva uma tradição de fé e assistência social iniciada ainda no período colonial.
Segundo Igor Gustavo, vice-ministro da Ordem e responsável pelo culto divino na igreja, a trajetória da instituição reflete a forma como a própria comunidade se organizava para suprir a ausência do Estado.
"Naquele período, as irmandades cuidavam dos doentes, enterravam os mortos e ofereciam assistência aos mais necessitados. Eram o sistema de saúde e assistência social da época", explica.
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Fundada em Diamantina em 1754, a Ordem Terceira de São Francisco nasceu reunindo principalmente portugueses. Ao longo do século XIX, porém, passou a acolher também negros e pardos, movimento considerado essencial para a continuidade das atividades religiosas e sociais da instituição.
A mudança acompanha as transformações de uma cidade marcada pela mineração e pelas complexas relações sociais daquele período.
Fachada da igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Diamantina
Saulo Vieira / TV Globo
A ligação com Chica da Silva
A relação de Chica da Silva com a Ordem Terceira de São Francisco faz parte da memória preservada pela igreja.
De acordo com histórias transmitidas oralmente por gerações, o nascimento de Chica teria sido complicado. Durante o parto, sua mãe, Maria da Costa, sentindo fortes dores, amarrou um cordão de São Francisco à cintura, pedindo proteção para que a filha nascesse com saúde. Segundo Igor Gustavo, esse episódio teria marcado o início da devoção da família a São Francisco de Assis.
Ao longo da vida, Chica manteve uma forte ligação com a Ordem Terceira e frequentava regularmente a igreja.
"Ela tinha um carinho muito grande pela Ordem Terceira de São Francisco, até porque o próprio nome dela é Francisca. Em testamento, ela deixa registrado que queria ser enterrada aqui", conta o vice-ministro.
Na época, o sepultamento dentro das igrejas era uma prática comum entre integrantes de irmandades e ordens terceiras. "Ela foi enterrada no altar de Santa Isabel, que era uma santa de devoção dela", explica Igor.
Além da ligação com a Ordem, Chica também se tornou uma importante colaboradora da Santa Casa de Caridade, criada oficialmente em 1790 para atender pessoas pobres e escravizadas. Ela fazia doações à instituição e era devota de Santa Isabel, cuja imagem do século XVIII permanece até hoje no altar da igreja. "Chica rezou muito diante dessa imagem", afirma o vice-ministro.
Tesouros, fé e tradição
O interior da igreja guarda peças que atravessaram os séculos. Entre elas está um imponente móvel de 1769, utilizado para armazenar as alfaias litúrgicas — os tecidos e paramentos usados nas celebrações religiosas.
Outro destaque é justamente a imagem de Santa Isabel, uma rainha que se tornou santa. Segundo a tradição cristã, ela costumava levar pães escondidos aos pobres. Ao ser surpreendida pela sogra e questionada sobre o que carregava no avental, respondeu que eram flores. Quando abriu o tecido, os pães haviam se transformado em flores.
Para Igor Gustavo, a história simboliza a caridade e o serviço ao próximo, valores que continuam orientando o trabalho da Ordem.
Imagem de Santa Izabel em um dos altares da igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Diamantina
Saulo Vieira / Tv Globo
Trabalho social
Mais de dois séculos depois, a assistência à comunidade segue como uma das principais missões da igreja. A administração é feita por uma mesa administrativa, presidida por uma ministra, e a manutenção do templo depende principalmente da contribuição da comunidade.
"A Arquidiocese nos oferece apoio espiritual, mas toda a parte financeira e de conservação é responsabilidade da própria Ordem", explica Igor.
A taxa de manutenção cobrada dos visitantes — R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada) — ajuda a custear as despesas, mas o funcionamento da igreja depende também do trabalho voluntário dos integrantes da Ordem e das doações recebidas.
Além da preservação do patrimônio histórico, a instituição mantém ações sociais como distribuição de cestas básicas, fornecimento de medicamentos e auxílio a pacientes em tratamento contra o câncer. "Preservar este patrimônio também faz parte do nosso serviço social", conclui o vice-ministro.
Visitação:
Quintas e sextas-feira: das 14h às 17h
Sábado: das 9h às 17h
Domingo e segunda-feira: das 9h às 13h
Missa:
Todos os domingos, às 17h
Taxa de manutenção: Inteira: R$ 10,00. Meia-entrada: R$ 5,00.
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