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'Pai' da música caipira, Cornélio Pires foi jornalista e começou a carreira como faxineiro em jornal de Tietê

G1 (Globo)
'Pai' da música caipira, Cornélio Pires foi jornalista e começou a carreira como faxineiro em jornal de Tietê

Cornélio Pires, 142 anos: série de reportagens do g1 mostra a vida do artista
Impulsionador da cultura caipira, jornalista, escritor, cantor, pesquisador e seguidor do espiritismo. Nascido em Tietê (SP), Cornélio Pires foi um dos grandes pioneiros na valorização da cultura do interior paulista e deixou um legado que atravessa gerações. Sua obra segue como referência para pesquisadores e admiradores, consolidando seu nome como um dos maiores símbolos da cultura caipira brasileira.
Para celebrar a trajetória de uma das personalidades que mais contribuíram para levar a cultura caipira ao grande público, o g1 preparou uma série especial de reportagens sobre os diferentes aspectos da vida e da obra de Cornélio Pires, que nasceu em 13 de julho de 1884.
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Apesar de ter nascido em Tietê, Cornélio morou em diversas cidades paulistas, incluindo Sorocaba, Itapetininga e a capital. A sobrinha neta dele, Maria Osira Martim, de 91 anos, conta que chegou a ter contato com o tio pessoalmente.
“Cornélio era uma pessoa que viajava muito e ficava pouco tempo na cidade. Apesar dele ser um artista conhecido, era uma pessoa muito reservada quando se tratava de família. Ele era uma pessoa que gostava de fazer muita caridade”, descreve Maria.
Cornélio Pires
Acervo/Pedro Massa/Instituto Cornélio Pires
O “pai da música sertaneja” ficou nacionalmente conhecido por gravar a primeira música caipira em um disco de vinil na história do país. Porém, a carreira profissional de Cornélio não começou na música.
Pedro Massa, presidente do Instituto Cornélio Pires, em Tietê, revela que o artista teve seu primeiro emprego como faxineiro no tradicional jornal O Tietê. De família abastada, Cornélio se apaixonou pelos jornais e cresceu gradualmente no meio jornalístico.
“O jornal foi o começo da vida de Cornélio, o ponto de partida. Ele começou varrendo o chão, depois organizando a máquina de tipografia. Todo o processo ele passou nesse jornal em Tietê, que hoje não existe mais”, pontua.
Pedro Massa, presidente do Instituto Cornélio Pires, em Tietê, mantém acervo com diferentes trabalhos do artista
Diogo Del Cistia/g1
A carreira de jornalista começou somente em 1901, quando Cornélio decidiu se mudar para a capital paulista. Lá, ele atuou como repórter em grandes coberturas, incluindo a Revolta da Vacina do Rio de Janeiro.
“Ele começou como repórter no Correio Paulista e tocou a vida por lá por uns dois anos, mas não teve muita visibilidade. Em 1904, na época da Revolta da Vacina, as famílias fugiam do Rio de Janeiro e vinham para São Paulo. Essa foi a grande cobertura da vida dele”, diz Pedro.
Ao saber da situação, o então repórter se dirigiu para a estação de trem da cidade e esperou as famílias chegarem. Assim, ele conseguiu relatos inéditos, que foram divulgados amplamente na imprensa.
“Cornélio pegava a caderneta dele, ia à estação e ficava esperando. A hora que chegava o trem lotado, com as pessoas fugindo da revolta, ele ia abordando e anotando tudo. As matérias foram um sucesso e colocaram ele em um holofote imenso. Ele foi ‘o cara’ da Revolta da Vacina no jornalismo”, declara Pedro.
Depois de atuar na reportagem do Correio Paulista, Cornélio Pires passou por outros jornais, chegando, inclusive, a ser o diretor da Tribuna de Santos. Mesmo com diversas carreiras paralelas, ele nunca deixou de atuar na comunicação.
“O jornalismo era a base cultural da vida dele. Colaborava com jornais do país inteiro. Como ele viajava muito, chegou a escrever para jornais nordestinos e se dava bem em assuntos totalmente diferentes: indo do circo até a policultura brasileira”, observa o presidente do instituto.
Cornélio Pires começou a trabalhar como faxineiro no jornal O Tietê, antes de atuar como jornalista
Diogo Del Cistia/g1
Além de transmitir a informação à sociedade, Cornélio utilizava da profissão para ser uma voz opinativa. Nos jornais, ele teceu críticas diretas e indiretas sobre diferentes assuntos, inclusive contra a repressão política da época.
“Cornélio era uma pessoa que tinha uma visão à frente do tempo com relação à natureza, à preservação ambiental. Na década de 30, ele já falava sobre desmatamento e era abertamente contra a caça de animais. Em 1927, ele criou um almanaque chamado ‘O Sacy’, que tinha charges bem provocativas e abordando questões políticas da época”, lembra.
Ana Luísa (à esquerda) e Maria Osira (à direita) são sobrinhas-netas de Cornélio Pires
Diogo Del Cistia/g1
Para os desenhos do almanaque, Cornélio se juntou com o cartunista Humberto de Souza, conhecido como Voltolino. Em uma parceria considerada histórica na visão de Pedro, a dupla fez críticas explícitas contra a ditadura de Getúlio Vargas.
“Eu não faço ideia de como o Cornélio não foi preso. Ele escrevia abertamente contra Getúlio e, além dos jornais, falava sobre nos discos. Em uma música sobre a revolução de 1930, ele fala que Getúlio ‘passou o povo para trás."
Lanche, não sanduíche
Além do posicionamento político forte, Cornélio foi um amplo defensor do nacionalismo. O escritor era contra a “americanização” da cultura e demonstrava desaprovação, inclusive, ao ver anglicismos na língua portuguesa.
“Cornélio opinava e era um formador de opiniões. Ele pensava globalmente e agia localmente. Defendia as figuras folclóricas e era contra a questão da americanização. Ele não gostava de palavras que vinham de lá, como ‘sanduíche’. O termo correto era lanche”, relata.
Cornélio Pires deixou diversos discos de música caipira
Diogo Del Cistia/g1
Por ser uma figura à frente de seu tempo, Cornélio foi alvo de movimentos de repressão da alta classe da sociedade na época. Apesar da contribuição na cultura nacional, ele não é reconhecido com nenhum título na Academia Brasileira de Letras até os dias atuais.
“Os classicistas intelectuais da época tinham um movimento contra ele. Cornélio não conseguiu entrar em nenhuma academia e não foi agraciado com nenhum título até hoje. Ele não tem reconhecimento como intelectual mesmo inspirando escritores famosos, como Monteiro Lobato”, lamenta Pedro.
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Apesar da personalidade forte, Cornélio é descrito como uma pessoa simpática e altruísta. Ana Luísa Pires, também sobrinha-neta do artista, conta que, ao se mudar da capital para Tietê, ficou surpresa com a quantidade de pessoas interessadas na vida dele.
“Quando cheguei aqui, encontrei muitos ‘cornelianos’. Tem o pessoal do teatro, da música, da dança. Tem o Parque Cornélio Pires, que à época ainda estava funcionando. Na semana de homenagem a ele, que acontece aqui na cidade, a família é sempre convidadam para participar”, descreve a familiar.
Enterrado de pijama e descalço
O artista, depois de ter se consolidado como escritor, jornalista, produtor musical e fiel ao espiritismo, morreu na capital paulista em 17 de janeiro de 1958, em decorrência de um câncer na garganta. Ele foi enterrado no Cemitério Municipal de Tietê, de pijama e descalço a pedido.
“No meio dos caminhos da vida, Cornélio conheceu o kardecismo, que tem o altruísmo como uma das principais bandeiras. As pessoas viviam às custas dele, pois ele ajudava todo mundo e estava bom assim. Quando ele morreu, ele pediu para ser enterrado assim pois doou todas as roupas”, declara Pedro.
Túmulo onde está sepultado Cornélio Pires, no Cemitério Municipal de Tietê (SP)
Diogo Del Cistia/g1
Ao g1, Ana Luísa comenta que Cornélio foi, também, responsável por fundar a Casa dos Meninos, um local de acolhimento para jovens em situação de vulnerabilidade social. O local funciona até hoje e está em atividade desde 1957, um ano antes da morte do artista.
“A intenção era que fosse uma escola técnica, mas ela é muito legal. Hoje, ela dá assistência ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e é um braço da justiça restaurativa de Tietê. Antes, ela era conhecida como Granja Bom Jesus”, detalha.
Na visão de Maria Osira, ser uma parente direta de Cornélio Pires é sinônimo de orgulho. Segundo ela, o tio-avô é um cartão de visita de Tietê.
“Eu tenho muito orgulho de ter um parente artista que ficou famoso com tanta coisa bacana que ele fez. Todos os lugares que eu vou e perguntam da minha família eu falo que sou parente do Cornélio Pires. As pessoas acham muito legal”, comenta.
“Nós temos um compromisso, enquanto família, que é ajudar. Faço sempre questão de estar em tudo que é relacionado a ele. Temos que acompanhar e lutar para manter o legado de uma figura tão importante para todos nós”, finaliza Ana Luísa.
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