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Para que serviu a guerra? A pergunta inevitável levantada pelo acordo entre EUA e Irã

G1 (Globo)
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Para que serviu a guerra? A pergunta inevitável levantada pelo acordo entre EUA e Irã

AI Summary

The US Defense Department has requested approximately $80-103 billion from Congress to cover expenses from military operations in Iran and other defense costs. This comes after the US and Iran reached a peace agreement, though significant issues including Iran's nuclear weapons program and regional security concerns remain to be negotiated. The accord has raised questions among analysts about the adequacy of American negotiating leverage and whether critical issues such as human rights protections and Iran's economic reintegration can be properly addressed in ongoing diplomatic talks.

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Civis iranianos vivem sob a ameaça de ataques há meses
AFP via Getty Imagens, via BBC
O memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Irã, Masoud Pezeshkian, deixou evidentes as consequências políticas, militares e econômicas da decisão mal calculada de atacar o Irã em 28 de fevereiro.
O custo humano já é claro. Milhares de pessoas morreram, muitas delas civis, no Irã e no Líbano.
Os EUA, e por extensão Israel, sofreram uma derrota estratégica. O regime em Teerã enfrentou seu pior pesadelo: uma operação militar conjunta para incapacitá-lo ou destruí-lo conduzida pelos EUA, a potência mais forte do mundo, e por Israel, a superpotência do Oriente Médio. O regime não apenas sobreviveu. Ele saiu fortalecido.
Sua estratégia de bloquear o estreito de Ormuz — e com isso um quinto do fornecimento mundial de petróleo e gás, além de outros componentes vitais da economia global — forçou Trump a concordar com uma série de concessões que enfureceram e alarmaram os críticos mais duros do Irã nos EUA e o governo israelense.
O memorando de entendimento — ou MOU, na sigla em inglês — prevê o fim da guerra no Líbano, mas Israel diz que isso não pode acontecer. Os israelenses querem ter liberdade de ação no Líbano, e essa questão pode provocar uma ruptura ainda maior entre Israel e os EUA, além de favorecer os setores mais radicais do Irã que se opõem a qualquer acordo com os americanos.
Em troca da reabertura do estreito, o texto do MOU afirma que os EUA irão suspender seu bloqueio aos portos iranianos, flexibilizar sanções permitindo ao Irã ganhar bilhões de dólares com exportações de petróleo e iniciar o processo de devolução de bilhões em dinheiro ao Irã, por meio do descongelamento de ativos mantidos no exterior.
Isso tudo antes mesmo de EUA e Irã entrarem no difícil processo de negociar um acordo nuclear. É o preço pago pelos EUA para se voltar à situação de 27 de fevereiro, o dia anterior ao lançamento da guerra pelos americanos e israelenses. Naquele dia, o estreito de Ormuz estava aberto à navegação e negociadores americanos e iranianos discutiam um acordo nuclear.
A assinatura do MOU significa que as negociações serão retomadas e os navios poderão transitar pelo estreito de Ormuz.
EUA e Irã assinam acordo para acabar com a guerra
Erro de política externa
O secretário de Estado de Joe Biden, Antony Blinken, publicou no X: "o único 'resultado' do cessar-fogo é a provável reabertura do estreito de Ormuz — que já estava aberto antes do início da guerra. E aparentemente pagaremos ao Irã por isso."
A questão de para que exatamente serviu a guerra é inevitável e não desaparecerá. Trata-se do maior erro de política externa de Trump até agora.
Pode também significar o fim da longa carreira política do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ele enfrenta eleições em outubro e um acerto de contas com os eleitores israelenses por seu papel nas falhas de segurança — as piores da história de Israel — que permitiram que o sistema militar e de inteligência do país não detectasse o plano do Hamas de invadir Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023.
As políticas militares de linha dura de Netanyahu e seu desprezo pela diplomacia foram concebidos, pelo menos em parte, para restaurar sua reputação como o "Senhor Segurança" de Israel.
Teerã sempre esteve ciente do potencial de poder de fechar o estreito de Ormuz. O mesmo ocorria com os militares dos EUA, seus diplomatas e seus serviços de inteligência.
Mas o antigo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, um homem idoso e cauteloso, optava por não correr o risco de usar o estreito como arma.
Depois que Israel o matou, junto com seus conselheiros mais próximos, nas primeiras operações de bombardeio da guerra, seus sucessores acreditaram, corretamente, que estavam em uma luta existencial e não hesitaram em fechar o estreito.
Eles descobriram o poder de controlar um ponto de estrangulamento da economia global. É uma arma muito mais utilizável, e muito mais barata, do que a rede de aliados e intermediários em que investiram décadas e bilhões para construir no Oriente Médio.
O presidente dos EUA, Donald Trump, aponta o dedo para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enquanto apertam as mãos durante uma coletiva de imprensa após reunião no clube Mar-a-Lago de Trump em Palm Beach, Flórida, EUA, em 29 de dezembro de 2025
REUTERS/Jonathan Ernst
Com exceção do regime de Bashar al-Assad na Síria, que caiu no final de 2024, o chamado "eixo de resistência do Irã" ainda sobrevive, embora por pouco. Mas foi tão enfraquecido por Israel que já nem faz sentido discutir se ainda tem capacidade de "resistência".
O Irã também investiu recursos em um programa nuclear que continua negando ter como objetivo a construção de uma arma, mas que sem dúvida deu a Teerã uma opção e uma ameaça. No entanto, isso provocou uma guerra que, apesar da sobrevivência do regime, causou enormes danos ao Irã.
Fechar o estreito, em contraste, foi fácil e teve um impacto rápido e devastador, espalhando os efeitos para os Estados árabes produtores de petróleo e grande parte do restante do mundo.
O poder das forças aéreas dos EUA e de Israel garantiu uma série de vitórias táticas. Mas elas não foram suficientes para evitar uma derrota estratégica. Isso porque a estratégia EUA-Israel de mudança de regime se baseava em uma série de pressupostos simplistas e equivocados.
O Irã não era como a Venezuela, uma ditadura latino-americana corrupta, que entrou em colapso quando seu líder foi sequestrado e levado a julgamento nos EUA.
O regime iraniano é, sem dúvida, corrupto e altamente repressivo — seus agentes mataram milhares de manifestantes nas ruas do Irã em janeiro — mas também se baseia em uma ideologia, em convicções religiosas e em uma concepção de segurança nacional, martírio e sobrevivência que surgiu da devastadora guerra contra o Iraque de Saddam Hussein na década de 1980.
Quando os EUA deram início à guerra, Trump disse que o regime em Teerã cairia. Ele disse ao povo iraniano que se preparasse para uma oportunidade única em uma geração de recuperar seu país. Pouco depois, exigiu a rendição incondicional do regime.
Netanyahu, que tentou repetidamente, sem sucesso, convencer os antecessores de Trump na Casa Branca a entrar em guerra contra o Irã, usou linguagem bíblica para resumir a magnitude do que acreditava estar prestes a acontecer: "Essa coalizão de forças nos permite fazer o que tenho desejado fazer há 40 anos: destruir completamente o regime de terror."
Nenhum dos dois conseguiu cumprir seus objetivos.
O memorando de entendimento não é um acordo final. É um compromisso de negociar a maior questão entre as partes — o programa nuclear do Irã. Mas já inclui incentivos importantes para o Irã. Se as negociações avançarem, os EUA afirmaram que irão levantar as sanções.
Tudo depende do sucesso de 60 dias de negociações sobre um acordo nuclear — prazo que pode ser estendido e provavelmente será, já que as questões são complexas. Nenhum dos lados confia no outro. Muito pode dar errado. Setores mais radicais em Washington, Teerã e Israel não querem que o acordo funcione.
Se adotar posturas maximalistas nas negociações, o Irã corre o risco de exagerar sua posição e comprometer ganhos econômicos que poderiam aliviar sua economia fragilizada.
Mas este acordo é muito melhor do que uma guerra que matou milhares e ameaçou uma recessão econômica global.
Se um acordo nuclear for alcançado, satisfazendo os EUA e o Irã, e se ambos cumprirem suas promessas, o Oriente Médio poderá ser transformado. Esse é um grande "se", ao final de uma negociação que será longa e difícil. ...

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