Entre a liderança regional e a distância do topo: o lugar do Brasil no cenário acadêmico mundial
45 universidades brasileiras caem em ranking das melhores do mundo
Ao longo dos últimos 12 anos, o Brasil consolidou sua posição de destaque no cenário acadêmico da América Latina, mantendo a liderança regional de forma ininterrupta entre 2014 e 2026, de acordo com uma análise do g1 da série histórica do Center for World University Rankings (CWUR).
Instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de Campinas (Unicamp) foram os pilares desse desempenho, garantindo que o país ocupasse a maior parte das vagas no topo do ranking no recorte continental.
No entanto, a análise dos dados globais revela um contraste preocupante: enquanto o Brasil é destaque positivo entre os vizinhos geográficos, sua posição no topo da pirâmide mundial permanece restrita e em trajetória de declínio.
Atualmente, a maior parte das instituições nacionais enfrenta uma perda de competitividade associada à falta de investimentos, o que dificulta o avanço da educação superior no país.
Trajetória, ápice e resiliência da USP
ECA - USP
Marcos Santos/USP Imagens
A USP tem se mantido como referência da ciência brasileira e latino-americana durante todo o período analisado. Em 2014, a instituição iniciou a série na 131ª posição global, já como a melhor da região.
Após um período de estabilidade, a universidade paulista viveu sua melhor fase da série histórica entre 2018 e 2023, quando conseguiu romper a barreira do Top 100 mundial.
O ápice histórico aconteceu em 2018-2019, quando a USP atingiu a 77ª colocação global, consolidando-se como uma das raras instituições de países em desenvolvimento a figurar em patamares tão elevados de prestígio internacional.
Após esse pico de performance, a trajetória da USP passou a registrar oscilações que indicam a dificuldade de competir com universidades estrangeiras que tiveram investimentos maiores e mais constantes.
Entre 2020 e 2024, a instituição permaneceu em colocação de destaque, mas abaixo do Top 100, flutuando entre as posições 103 e 117 no mundo.
No entanto, as edições de 2025 e 2026 revelam uma tendência de recuo persistente: a universidade ocupou o 118º lugar no ano passado e encerrou o ciclo de 2026 na 119ª colocação.
Essa queda recente não é um fenômeno isolado de rankeamento, mas o reflexo de declínios em indicadores estruturais. Segundo os dados do CWUR, a USP registrou perdas nos critérios de qualidade da educação, empregabilidade, corpo docente e pesquisa.
Para o Dr. Nadim Mahassen, presidente da organização, esse movimento é fruto de "anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos", o que coloca a USP em uma posição de vulnerabilidade apesar de sua liderança regional incontestável.
Apesar dessa queda gradual nos últimos três anos, a USP encerra a série de 12 anos com um saldo positivo em comparação ao ponto de partida em 2014, tendo melhorado 12 posições globais no período.
Brasil lidera na América Latina, mas México avança
As 10 melhores instituições brasileiras, de 2014 a 2026, segundo o Center for World University Rankings (CWUR).
Arte: Kayan Albertin/g1
No cenário regional, o Brasil não apenas liderou, como ampliou o número de instituições reconhecidas internacionalmente. Em 2014, três das cinco melhores universidades da América Latina eram brasileiras: USP (131º), UFRJ (329º) e Unicamp (437º).
Em 2026, o Brasil manteve para si três posições do Top 5 regional, e ainda ampliou a ocupação de colocações mais abaixo entre as 2000 melhores do mundo:
Em 2014, o país tinha cerca de 18 instituições no Top 1000.
Em 2026, saltou para um total de 52 instituições listadas entre as 2000 melhores do mundo, incluindo centros especializados como a Fiocruz, o IMPA e o ITA.
A principal ameaça à hegemonia brasileira na região veio do México, através da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). A trajetória da UNAM é uma das mais ascendentes da série histórica na América Latina: em 2014, a universidade mexicana ocupava a 337ª posição global. Ao longo da década, a UNAM acelerou seu crescimento e, em 2026, alcançou a 287ª posição no mundo, tornando-se a segunda melhor da região e encurtando significativamente a distância para as vice-líderes brasileiras.
Universidade Nacional Autônoma do México
Cande Westh/Unsplash
Esse movimento indica que, embora a USP ainda lidere, o bloco de elite brasileiro formado por UFRJ (346º em 2026) e Unicamp (379º em 2026) enfrenta uma concorrência mexicana cada vez mais robusta.
A Argentina, representada pela Universidade de Buenos Aires (UBA), manteve uma presença constante, mas sem o mesmo fôlego de crescimento do México ou o volume brasileiro.
A UBA figurava em 378º no mundo em 2014 e encerrou 2026 na 354ª posição, alternando-se com a UFRJ e a Unicamp na disputa pelas vagas intermediárias do Top 5 regional.
O panorama de 2026, no entanto, é de alerta para todo o bloco: a queda generalizada atingiu 87% das instituições brasileiras e diversos vizinhos, enquanto universidades da China disparam no ranking impulsionadas por investimentos governamentais contínuos.
Top 10 Mundial
Harvard, uma das instituições de ensino de maior prestígio no mundo
Jornal Nacional/ Reprodução
Enquanto o cenário é rotativo no bloco da América Latina, o contexto mundial indica uma imagem de imobilidade quase absoluta no topo do ranking das melhores instituições globais de 2014 a 2026.
Durante todos os 12 anos da série, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, manteve a 1ª posição global com pontuação máxima de 100. O grupo de elite é controlado por um duopólio formado pelos Estados Unidos e Reino Unido, que sistematicamente ocupam as dez primeiras posições com instituições como o MIT, Stanford, Cambridge e Oxford.
Embora o Top 10 pareça estático, houve mudanças internas na composição desse grupo ao longo da década. Em 2014, instituições como a Universidade de Chicago e a UC Berkeley figuravam entre as dez melhores. Contudo, ao longo dos anos, essas universidades perderam terreno para o avanço de outras gigantes norte-americanas. Em 2026, a Universidade da Pensilvânia (Penn) consolidou sua ascensão, ocupando a 7ª posição mundial, enquanto Princeton subiu da 9ª colocação em 2014 para a 6ª em 2026.
A tendência mais relevante fora do Top 10, no entanto, é o contraste entre o recuo ocidental e a ascensão asiática. Em 2026, pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em número de instituições no ranking (360 contra 313), com 98% das universidades chinesas subindo de posição.
Enquanto isso, potências tradicionais como Japão e Reino Unido enfrentam dificuldades: a Universidade de Tokyo, que em 2014 ocupava a 13ª posição e ameaçava o Top 10, caiu para a 16ª posição em 2026.
Os dados sugerem uma mudança no equilíbrio global da educação superior, marcada pelo avanço de países que ampliaram investimentos em pesquisa e inovação. ...