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Calor extremo leva Europa a repensar aversão ao ar-condicionado

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Calor extremo leva Europa a repensar aversão ao ar-condicionado

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Aparelho de ar-condicionado instalado na janela de um prédio residencial em Nantes, na França, durante a onda de calor que atinge grande parte do país nesta quinta-feira (25).
Stephane Mahe/Reuters
Durante décadas, o ar-condicionado foi visto por muitos europeus como um símbolo de excessos energéticos ou simplesmente um equipamento desnecessário.
Em grande parte do continente, especialmente no norte da Europa, o clima ameno, os altos custos de energia e a preocupação ambiental contribuíram para uma relação distante com a refrigeração artificial. Mas a sucessão de ondas de calor extremas está mudando essa percepção.
Nos últimos anos, temperaturas acima dos 40°C deixaram de ser uma exceção em países como França, Alemanha e Reino Unido. O calor prolongado passou a pressionar sistemas de saúde, infraestrutura urbana e rotinas de trabalho. Em diversas regiões, autoridades têm precisado fechar escolas, emitir alertas e adaptar jornadas laborais para proteger a população dos riscos associados ao calor extremo.
Apesar desse novo cenário, a Europa continua muito atrás de países fora do continente quando o assunto é climatização residencial.
Enquanto em países como os EUA e Japão a proporção de uso de ar-condicionado chega a 90% em residências, na Europa a média está em 20% - puxada, sobretudo, por países europeus do Mediterrâneo. Em países mais ao norte, como a Alemanha, a proporção é de apenas 3%, e, no Reino Unido, de 5%.
Agora no g1
Resistência com raízes históricas
A explicação para essa diferença passa pela história. Até poucas décadas atrás, grande parte da Europa simplesmente não precisava de sistemas de resfriamento. As ondas de calor existiam, mas eram menos frequentes e menos intensas. Como resultado, o ar-condicionado nunca se tornou parte da cultura doméstica europeia da mesma forma que nos Estados Unidos.
A arquitetura também desempenhou um papel importante. Em muitos países do sul europeu, construções tradicionais utilizam paredes grossas, janelas pequenas e sistemas de ventilação natural capazes de reduzir a temperatura interna. Já os centros históricos, protegidos por rígidas regras de preservação, frequentemente dificultam a instalação de unidades externas de refrigeração.
Outro fator é econômico. A energia elétrica na Europa costuma ser mais cara do que nos Estados Unidos, tornando o custo de operação dos aparelhos uma preocupação para muitas famílias. Isso reforçou a ideia de que o ar-condicionado era um luxo, e não uma necessidade.
Uma mulher se protege do sol com um guarda-chuva na Praça do Trocadero, perto da Torre Eiffel, enquanto as temperaturas sobem em Paris durante a segunda onda de calor que afeta grande parte da França, em 20 de junho de 2026
REUTERS/Sarah Meyssonnier
Debate climático ganha força
A crescente demanda por refrigeração coloca a Europa diante de um dilema. De um lado, os aparelhos ajudam a proteger a população contra temperaturas potencialmente fatais. De outro, aumentam o consumo de energia e podem dificultar as metas climáticas da União Europeia, que pretende alcançar a neutralidade de carbono até 2050.
Especialistas alertam ainda para um efeito paradoxal: o calor retirado dos ambientes é liberado para as ruas, contribuindo para o aumento das temperaturas nas cidades. Estudos citados por pesquisadores mostram que o uso massivo de ar-condicionado pode intensificar o chamado efeito de ilha de calor urbana, fenômeno climático no qual as áreas urbanas apresentam temperaturas significativamente mais altas do que as zonas rurais ou áreas verdes vizinhas.
Um estudo de 2020 sobre uso de ar condicionado em Paris constatou que os aparelhos podem aumentar a temperatura externa entre 2 e 4 °Celsius. Esse impacto é especialmente severo nas cidades mais densas da Europa.
Por isso, o debate europeu deixou de ser apenas sobre instalar ou não aparelhos. A discussão agora envolve eficiência energética, modernização de edifícios, ampliação de áreas verdes e desenvolvimento de tecnologias de refrigeração menos poluentes.
Mudança de mentalidade
Mesmo com as reservas ambientais, a realidade climática parece estar acelerando uma mudança cultural. Redes varejistas em países como França registraram altas nas vendas de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado durante as recentes ondas de calor. Fabricantes relatam crescimento da procura também em regiões do norte europeu, tradicionalmente pouco dependentes desse tipo de equipamento.
Na França, o tema chegou ao centro do debate político. Partidos de diferentes correntes discutem até que ponto o acesso ao ar-condicionado deve ser ampliado em escolas, hospitais e residências de idosos, considerados grupos mais vulneráveis aos eventos extremos de calor.
A tendência é que a demanda continue crescendo. Relatórios do setor apontam que ondas de calor mais frequentes, verões mais longos e mudanças de comportamento estão impulsionando a expansão do mercado de refrigeração em toda a Europa.
Segundo análise do portal online alemão especializado em estatísticas Statista, a receita proveniente de unidades de ar-condicionado na Europa aumentará de 8,35 bilhões de euros (R$ 49,4 bilhões) em 2024 para 11,43 bilhões de euros (R$ 67,6) em 2029.
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