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É possível descobrir uma arma nuclear escondida no espaço? Estudo propõe método com pequeno satélite

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É possível descobrir uma arma nuclear escondida no espaço? Estudo propõe método com pequeno satélite

Satélites CS1 e CS2, da missão Cesium Mission 1, usados para testar sistemas de comunicação no espaço.
CesiumAstro/Wikimedia Commons
Uma arma nuclear escondida dentro de um satélite deixaria um rastro impossível de apagar: nêutrons.
É essa a conclusão de um estudo publicado na revista científica "Nature " nesta quarta-feira (08), que propõe, pela primeira vez em uma publicação científica revisada por pares, um método concreto para verificar se um país está descumprindo o Tratado do Espaço Exterior, acordo internacional de 1967 que proíbe a colocação de armas nucleares em órbita.
Segundo as simulações, um pequeno satélite de inspeção poderia confirmar a presença de uma arma termonuclear a cerca de 4 quilômetros de distância após aproximadamente uma semana de observação.
"Ao detectar esses nêutrons, é possível distinguir de forma verificável satélites pacíficos daqueles que carregam uma arma", explica ao g1 Areg Danagoulian, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, que desenvolveu o método.
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A pesquisa teve como ponto de partida o Kosmos 2553, satélite russo lançado em fevereiro de 2022 e colocado em órbita a cerca de 2 mil quilômetros da Terra.
A Rússia afirma que o equipamento é parte de um sistema de radar usado para vigilância e sensoriamento remoto.
Mas autoridades americanas já manifestaram publicamente a suspeita de que o satélite seja, na verdade, uma plataforma de testes para um componente nuclear de uma futura arma antissatélite — o que seria uma violação grave do tratado.
O problema é que, até hoje, não existe um método prático e comprovado para confirmar isso à distância.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
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A proposta de Danagoulian aproveita um fenômeno que já existe naturalmente ao redor do nosso planeta: os cinturões de Van Allen, regiões onde o campo magnético da Terra aprisiona partículas de altíssima energia vindas do espaço, como prótons e elétrons.
☢️ Quando um próton dessa região colide com um material pesado, como o urânio usado em armas nucleares, o choque libera nêutrons como subproduto — um sinal que pode ser captado à distância.
Para isso, o estudo propõe o uso de um segundo satélite, chamado de "inspetor", posicionado a poucos quilômetros do satélite sob suspeita.
Esse inspetor carregaria um detector de tamanho semelhante ao de um pequeno satélite em forma de cubo.
O equipamento teria sensores capazes de identificar a origem dos nêutrons e diferenciar o sinal emitido por uma arma nuclear de outras fontes de radiação no espaço, principal desafio técnico apontado pelo estudo.
➡️ Segundo os cálculos, um satélite suspeito carregando cerca de 95 quilos de urânio — próximo do que se estima em uma ogiva termonuclear — produziria um sinal detectável com mais de 99% de confiança em aproximadamente uma semana de observação, a 4 km de distância.
Com uma frota de dez satélites inspetores trabalhando juntos, esse prazo cairia para cerca de 15 horas.
Aproximações desse tipo entre satélites de diferentes países já aconteceram na prática nos últimos anos sem gerar crises diplomáticas, o que, segundo o autor, sugere que essas distâncias de observação seriam politicamente viáveis.
"Caso um país decida observar o satélite de outra nação, isso certamente poderá aumentar as tensões", ressalta o pesquisador.
"No entanto, o país responsável pela inspeção poderá declarar abertamente suas intenções, compartilhar seus planos com a outra parte e até convidá-la a examinar o satélite inspetor antes do lançamento, para confirmar que ele não possui nenhuma capacidade ofensiva".
Concepção artística do satélite Orbital Test Satellite-2, um dos primeiros projetos da Agência Espacial Europeia para testar tecnologias de comunicação.
ESA/Wikimedia Commons
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Um alerta que remonta à Guerra Fria
O estudo recupera um episódio histórico para justificar a preocupação: o teste nuclear americano Starfish Prime, de 1962, detonado a cerca de 400 km de altitude sobre o Oceano Pacífico.
Foi a primeira vez que o mundo viu, na prática, o que uma explosão nuclear no espaço é capaz de causar.
A bomba, de 1,4 megatonelada, injetou uma quantidade descomunal de elétrons de alta energia no cinturão de Van Allen interno, aumentando em várias ordens de grandeza a população de partículas presas ali.
O resultado veio rápido: em poucos meses, cerca de um terço dos satélites que estavam em órbita baixa na época foram danificados ou destruídos, majoritariamente por causa dessa radiação extra, que degradou eletrônicos e painéis solares.
O teste também gerou um pulso eletromagnético que chegou até a superfície da Terra e se propagou por fios e cabos de energia, provocando apagões em postes de iluminação no Havaí — a milhares de quilômetros do ponto da explosão.
Mais de sessenta anos depois, o cenário mudou bastante, mas o risco, segundo o estudo, é ainda maior.
Imagem de arquivo mostra teste com arma nuclear feito pelos Estados Unidos Yucca Flats, no estado de Nevada, em 1955.
Comissão Atômica dos Estados Unidos via AP
Na época de Starfish Prime, a órbita baixa da Terra abrigava um punhado de satélites experimentais.
Hoje, a mesma região concentra uma quantidade muito maior de equipamentos — de comunicação militar, internet, previsão do tempo e imageamento —, boa parte deles não construída para resistir a picos de radiação como o de uma explosão nuclear.
Uma detonação de 10 a 20 quilotoneladas entre 120 km e 400 km de altitude, por exemplo, poderia inutilizar, ao longo de semanas ou meses, um número expressivo desses satélites "não blindados".
E é justamente esse pano de fundo que dá urgência à proposta do novo estudo: melhor identificar uma arma nuclear escondida antes que ela seja detonada do que lidar com as consequências depois.
O próprio autor do estudo, contudo, destaca que isso se trata de algo conceitual, não de um sistema pronto para uso. Ainda faltam testes, por exemplo, sobre o comportamento do detector em condições reais do espaço e sobre como lidar com um satélite que tente se esquivar da observação.
"Ainda há uma necessidade considerável de desenvolvimento de engenharia, já que o artigo apenas demonstra a viabilidade do método com base em princípios básicos da física e em tecnologias já existentes", alerta Danagoulian.
Ainda assim, o trabalho é descrito, em um comentário publicado também pela Nature, como a primeira base técnica concreta para uma futura política de verificação do tratado.
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