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'Filme de terror': a ameba 'comedora de cérebros' que tem se espalhado pelo mundo

G1 (Globo)
'Filme de terror': a ameba 'comedora de cérebros' que tem se espalhado pelo mundo

Naegleria fowleri, mais conhecida como a 'ameba comedora de cérebros', ataca o tecido cerebral
Bruno da Rocha-Azevedo, Herbert B. Tanowitz e Francine Marciano-Cabral / Interdisciplinary Perspectives on Infectious Diseases
Poucos dias depois do que deveria ter sido um divertido período de férias em família na Costa Rica, Steve Smelski estava na unidade de terapia intensiva, lamentando a morte do seu único filho.
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Jordan tinha 11 anos. Ele morreu de infecção cerebral causada pela Naegleria fowleri, mais conhecida como a "ameba comedora de cérebros".
Tipicamente encontrada em lagos e fontes de águas quentes, além de piscinas abandonadas, a ameba entra no corpo pelas narinas, quando as pessoas pulam na água. Ela começa, então, a atacar rapidamente o tecido cerebral.
"Jordan nadou um dia, uma vez, e, agora, ele se foi", conta Steve, hoje com 67 anos, ao Serviço Mundial da BBC.
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No ano passado, foram identificados mais de 200 casos de infecções por Naegleria fowleri na Índia, o maior surto já registrado em todo o mundo. E novos casos continuam a surgir no país nos últimos meses.
Até então, menos de 500 casos haviam sido identificados em todo o mundo.
O surto gerou novos receios entre os pesquisadores. Eles afirmam que o organismo microscópico está sendo detectado em locais onde raramente era observado.
Em abril, uma criança de nove anos morreu em Rondônia com infecção por Naegleria fowleri, segundo a Agência de Vigilância em Saúde do Estado.
"Acho que haverá mais casos no futuro. Nós iremos observá-los em todo o mundo", afirma o parasitologista molecular Anastasios Tsaousis, da Universidade de Kent, no Reino Unido.
'Ela leva seu cérebro embora'
Jordan Smelski contraiu a infecção durante uma viagem, em 2014
Steve Smelski
Steve Smelski é natural da Flórida, nos Estados Unidos.
Ele havia passado horas com seu filho em uma fonte natural de águas quentes, perto do seu hotel na Costa Rica, quando Jordan começou a sentir dores de cabeça.
Eles voltaram para casa, a dor se agravou e Jordan começou a vomitar.
Seus pais decidiram levá-lo para um hospital local. Lá, ele começou a sofrer alucinações e disse que estava vendo insetos rastejando pelo teto.
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"Ele olhava para nós, mas não sabia quem nós éramos", relembra Smelski. "Acho que ele não sabia quem ele próprio era."
Os médicos lutavam para descobrir o que havia de errado com Jordan, até que ele sofreu uma convulsão e foi levado para a UTI, onde morreria mais tarde.
"Sete dias e meio depois de nadar, ele se foi", lamenta o pai. "Ele não tinha problemas até então. Sua saúde era perfeita."
Jordan morreu de meningoencefalite amebiana primária, a infecção cerebral causada por Naegleria fowleri.
Como muitas outras vítimas da doença, acreditava-se inicialmente que Jordan tivesse meningite, já que os sintomas das duas condições podem ser similares no estágio inicial.
Quando os médicos ligaram os pontos, era tarde demais. A infecção havia gerado grave inchaço no seu cérebro, causando danos irreversíveis.
"Ela leva seu cérebro embora, retira seus pensamentos, você deixa de ser quem é", conta Smelski.
Uma das últimas fotos de Steve Smelski com seu filho Jordan, no tobogã onde o menino contraiu a infecção mortal, na Costa Rica
Steve Smelski via BBC
Por que a ameba aparece em novos lugares?
Entre 1962 e 2023, foram relatados em todo o mundo 488 casos, segundo uma análise de 2025, publicada pelo Journal of Infection and Public Health.
A maioria dos casos ocorreu no sul dos Estados Unidos, no Paquistão e na Austrália. Cerca de 97% das vítimas morreram.
Mas, nos últimos 20 anos, foi detectada uma proporção maior de casos em países do hemisfério norte, incluindo a Itália e a Bélgica.
Novas infecções também foram encontradas nos últimos 15 anos no norte dos Estados Unidos, que é mais frio, incluindo no Estado de Minnesota. E, no ano passado, a Eslováquia registrou seu primeiro caso confirmado de infecção por Naegleria fowleri.
Os casos também foram relacionados a ambientes fora dos lagos e rios tradicionalmente associados à ameba.
Em Taiwan, um homem morreu em 2023 após exposição à Naegleria fowleri em um local fechado de surfe. No mesmo ano, nos Estados Unidos, uma criança contraiu a infecção fatal após utilizar um "tapete de água" contaminado.
Com as mudanças climáticas aquecendo lagos e tanques, a ameba começa a se expandir para regiões onde, antes, era muito frio para que ela pudesse se desenvolver.
Como a ameba entra no cérebro
BBC
"Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa", explica Tsaousis. "Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas."
Ele alerta que não há motivo para pânico, mas as pessoas devem estar "atentas" ao aumento do risco.
Tsaousis também acredita que os cientistas estão começando a detectar melhor a ameba, o que pode estar colaborando para o aumento dos casos registrados.
"Minha hipótese é que os números podem ter sido sempre altos e, agora, estamos simplesmente percebendo o aumento destes casos porque sabemos como fazer o teste", explica ele.
Por que o risco é maior entre as crianças?
Por que o risco é maior entre as crianças?
BBC
Especialistas indicam que as crianças têm maior probabilidade de serem infectadas por Naegleria fowleri do que os adultos.
"A idade em que mais pessoas sofrem da doença ao contraírem a infecção é aos 12 anos, pois as crianças adoram esguichar água quente", segundo o professor Ian Wright, especialista em ciências da água da Universidade do Oeste de Sydney, na Austrália. "É muito cruel."
Alguns cientistas também acreditam que as crianças podem estar em maior risco de contrair a infecção porque a ameba conseguiria atravessar a barreira entre o nariz e o cérebro das pessoas mais jovens com maior facilidade.
"É como um pesadelo, um filme de terror ou um romance de Stephen King", descreve Wright. "É muito improvável contrair a infecção, mas, se ela ocorrer, você provavelmente irá morrer."
No caso de infecções em estágio inicial, os médicos tentam tratar os pacientes com uma combinação de medicações, além de medidas para reduzir o inchaço do cérebro. Ainda assim, o índice de sobrevivência permanece extremamente baixo.
Mas o recente surto em Kerala, um dos Estados localizados mais ao sul da Índia e popular destino turístico, desafiou nossos conhecimentos sobre a real mortalidade da doença.
Ali, mais da metade das 200 pessoas contaminadas sobreviveram, o que está muito acima do índice histórico de sobrevivência de cerca de 3%, segundo uma nova pesquisa publicada na revista Communications Medicine.
As conclusões indicam que as infecções causadas pela ameba comedora de cérebros podem não ser tão fatais quanto se pensava anteriormente.
O diagnóstico precoce, maior conhecimento dos médicos e protocolos de tratamento mais consistentes provavelmente contribuíram para os melhores resultados, segundo a equipe internacional de pesquisadores responsável pelo estudo.
Como se manter em segurança
Além das brincadeiras na água, a ameba Naegleria fowleri também pode entrar no corpo através de sistemas de irrigação nasal, os frascos de bico longo tipicamente utilizados para combater os sintomas de resfriados, infecções dos seios nasais e alergias.
No ano passado, uma mulher até então saudável de 71 anos morreu no Estado americano do Texas, após duas semanas de uso de um desses sistemas, abastecido com água da torneira de um trailer.
A higienização do nariz também pode fazer parte de práticas religiosas, como no islamismo, e de outras práticas como o ayurveda, um sistema de medicina holística originário da Índia.
Os sistemas de irrigação nasal podem ser um caminho fácil para que a Naegleria fowleri chegue ao cérebro
Getty Images via BBC
Medidas simples podem reduzir ainda mais o risco de infecção, que já é naturalmente muito pequeno.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) aconselham o uso de água destilada, esterilizada ou previamente fervida e resfriada para a higienização nasal.
A água da torneira contaminada já foi relacionada a casos raros de infecção.
Ao nadar em água doce quente, a agência recomenda reduzir o risco de que a água entre pelo nariz. Para isso, você pode segurar o nariz ou usar um clipe nasal, ao mergulhar ou pular na água.
"Na dúvida, simplesmente não coloque sua cabeça dentro da água", aconselha Ian Wright. ...

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