‘Perder esse menino é uma dor’: assistente social relata atendimento a bebê de 1 ano que morreu com sinais de abuso

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Comissão de vereadores apura conduta da rede de proteção às crianças em Sorocaba (SP)
Ana Carolina Cirullo/g1
A comissão especial de vereadores da Câmara Municipal de Sorocaba (SP) que apura a conduta do Conselho Tutelar no município ouviu, nesta quinta-feira (2), funcionários da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Oeste que realizaram o primeiro atendimento médico ao bebê Miguel, três meses antes de ele morrer.
🔎Miguel Franco Silva morreu ao dar entrada no Pronto Atendimento (PA) da Zona Norte, em Sorocaba (SP), com sinais de espancamento e abuso sexual. O padrasto e a mãe, Gabrielly Franco Garcia, e Rafael Luis Alves Júnior, de 21 anos, são réus por homicídio qualificado.
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Estiveram presentes na reunião quatro técnicos de enfermagem, uma assistente social, o coordenador administrativo da Unidade de Pronto Atendimento da Zona Oeste e uma médica responsável pela pediatria da unidade. O g1 optou por não identificá-los para preservar a segurança de todos.
Os vereadores questionaram a equipe de enfermagem e a assistente social da unidade sobre as observações feitas pelos profissionais diante das suspeitas de maus-tratos à criança. De acordo com os depoimentos, o bebê apresentava sinais de falta de higiene e um hematoma na testa quando foi atendido no dia 24 de fevereiro de 2024, e o caso foi notificado ao Conselho Tutelar. Miguel morreu no dia 1º de junho.
Uma das enfermeiras que atendeu Miguel, e que não será identificada para preservá-la, informou que a mãe do bebê chegou à unidade alegando que o filho estava com fimose inflamada. A enfermeira disse ter notado que, além da inflamação, a criança estava com assaduras e um hematoma na testa.
“Ele estava com a testa meio roxinha, e no meu relato eu coloquei que ela [a criança] não estava tão bem cuidada como uma criança deveria ser... Eu perguntei ao padrasto sobre as manchinhas na testa e ele falou que era porque tinham um pit bull que pulou na criança. Eu achei estranho e acionamos a assistente social”, disse.
Bebê dá entrada em unidade de saúde morto e com sinais de espancamento e abuso em Sorocaba
Reprodução
A assistente social que atendeu o caso na UPA Zona Oeste também foi ouvida pela comissão e informou que fez o encaminhamento do caso ao Conselho Tutelar no mesmo dia por e-mail. O relatório feito pela profissional foi apresentado à comissão e lido pelo presidente, o vereador Roberto Freitas (PL).
Nos trechos destacados, o parlamentar leu: "Sinais de higiene inadequada, tais como assaduras, unhas grandes e roupa suja. Alimentação equivocada com leite integral diluído em água. Durante o banho foi notado irritação no orifício anal. [...] Diante do exposto esse serviço social realiza a presente solicitação ao conselho tutelar".
Além do acesso inédito ao e-mail, a comissão apurou que, no dia 24 de fevereiro, Miguel foi encaminhado da UPA Zona Oeste para o hospital do Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci). Essa continuidade do tratamento do bebê não era de conhecimento dos vereadores e, por isso, o próximo passo da comissão deve ser ouvir a equipe médica do hospital.
O g1 e a TV TEM questionaram o hospital infantil sobre o atendimento ao bebê Miguel, mas não obtiveram retorno até a última atualização desta reportagem.
'Dor que vocês não têm noção'
Com muita emoção, a assistente social desabafou aos vereadores a sensação de impotência no trabalho de proteção à infância. Para ela, a falta de integração entre os órgãos e a ausência de retorno das solicitações enviadas aos conselhos são a principal falha no trabalho de todos. Em meio a lágrimas, a funcionária afirmou:
"Perder esse menino é muito ruim, porque eu fiz a minha parte. E só fiquei sabendo que foram na casa da família porque saiu na mídia. Mas não tive nenhuma resposta do e-mail [do Conselho Tutelar]. Perder ele é uma dor que vocês não têm noção", disse.
Em nota, o Banco de Olhos de Sorocaba (BOS), instituição responsável pela administração da UPA, reiterou que a unidade atuou de acordo com o protocolo de atendimento no caso do paciente Miguel Franco Silva.
"A UPA Zona Oeste reafirma que atuou de acordo com os protocolos técnicos e assistenciais previstos, garantindo o atendimento à criança, a comunicação aos órgãos responsáveis e o encaminhamento ao serviço de referência, conforme consta em prontuário", afirma o BOS.
Funcionários da UPA Zona Oeste responderam a questionamentos de vereadores de Sorocaba
Ana Carolina Cirullo
Melhorias na comunicação da rede municipal
Os depoimentos desta quinta-feira (2) esclarecerem o protocolo de atendimento da UPA Zona Oeste, mas indicaram outros pontos de falha entre a rede municipal. O vereador Roberto Freitas (PL) afirmou ao g1 que esta reunião gerou novas observações para a comissão.
"Nós identificamos que existe uma lacuna muito grande de comunicação do sistema de saúde, das UPAs, seja qual for, para o Conselho Tutelar. No momento que a assistente social de uma UPA comunica o Conselho Tutelar, ela precisa pelo menos ter a devolutiva. Então, isso precisa ser corrigido e com certeza será apontado no nosso relatório", diz.
A relatora da comissão, vereadora Jussara Fernandes (Republicanos), informou que o relatório final dos vereadores deve ser apresentado na primeira semana de agosto. A próxima reunião está marcada para acontecer no dia 16 de julho.
"A gente tem que entender realmente esses fluxos, entender o que cada unidade está fazendo, como está sendo feito esse atendimento, propor políticas públicas e identificar o que está errado, para que de fato nenhuma criança chegue ao ponto de morrer por uma falha do poder público", finaliza.
Bebê foi levado à UPH da Zona Oeste de Sorocaba
Alexandre Lombardi/Prefeitura de Sorocaba
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