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Por que empresas rivais passaram a cooperar? A nova lógica da indústria e seus reflexos no PIM

G1 (Globo)
Por que empresas rivais passaram a cooperar? A nova lógica da indústria e seus reflexos no PIM

Linha de produção Polo Industrial de Manaus
Foto: Arquivo g1 AM
Foi-se o tempo em que a lógica dos negócios parecia simples: empresas concorrentes disputavam clientes, mercado e tecnologia. Quanto maior o sigilo sobre uma inovação, maior a vantagem competitiva. Essa lógica, no entanto, vem sendo rapidamente transformada por uma nova realidade tecnológica e econômica.
O recente anúncio de que a Yamaha utilizará motor elétrico e baterias desenvolvidos pela Honda em seus novos ciclomotores elétricos voltados ao mercado de entregas urbanas, lançados recentemente no Japão, é um dos exemplos mais recentes dessa mudança. Num primeiro momento, a notícia causa estranheza. Afinal, por que duas empresas que disputam o mesmo mercado compartilhariam uma tecnologia considerada estratégica? A resposta ajuda a compreender uma das mais profundas transformações pelas quais passa a indústria mundial.
O avanço da eletrificação, da inteligência artificial, da conectividade e dos softwares embarcados elevou o custo da inovação a um patamar que poucas empresas conseguem sustentar sozinhas. Em vez de duplicar investimentos em tecnologias que podem ser compartilhadas, muitas organizações passaram a dividir plataformas, conhecimento e infraestrutura, concentrando seus esforços naquilo que realmente as diferencia perante o consumidor: a marca, o design, a experiência, a qualidade e o relacionamento com o mercado.
Esse modelo ganhou um nome cada vez mais presente no ambiente empresarial: coopetição (coopetition), conceito que combina cooperação e competição. Na prática, as empresas continuam concorrendo pelos mesmos clientes, mas passam a cooperar em áreas estratégicas nas quais compartilhar riscos, custos e tempo de desenvolvimento é mais eficiente do que atuar isoladamente.
Embora a parceria entre Honda e Yamaha tenha chamado atenção recentemente, essa iniciativa está longe de ser um caso isolado e recente. Em 2021, Honda, Yamaha, KTM e Piaggio criaram um consórcio para desenvolver um padrão comum de baterias removíveis para motocicletas elétricas, reconhecendo que a expansão desse mercado dependeria também da construção de soluções compartilhadas.
Outro exemplo surgiu há poucos dias, quando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a criação da joint venture entre Foxconn e Mitsubishi Fuso para o desenvolvimento de ônibus sustentáveis e de emissão zero. A decisão demonstra que, quando bem estruturadas, alianças estratégicas entre empresas podem estimular a inovação sem comprometer a livre concorrência. Ao contrário, ampliam a capacidade de investimento, aceleram o desenvolvimento tecnológico e fortalecem todo o ecossistema produtivo.
Essa é, provavelmente, uma das principais características da nova economia industrial. A competição não desapareceu. Ela apenas mudou de configuração.
Cada vez mais, as empresas deixam de competir exclusivamente entre si para disputar espaço entre ecossistemas de inovação. O diferencial competitivo já não está apenas em desenvolver tudo internamente, sob absoluto sigilo, mas também na capacidade de construir alianças estratégicas, compartilhar competências e reduzir o tempo necessário para transformar conhecimento em novos produtos e soluções alinhados às demandas do mercado.
Essa transformação merece atenção especial no Polo Industrial de Manaus (PIM). Responsável por praticamente toda a produção nacional de motocicletas e por uma parcela significativa da indústria eletroeletrônica brasileira, o Polo reúne, em um mesmo ambiente, algumas das maiores empresas globais desses segmentos. São concorrentes no mercado, mas que compartilham desafios semelhantes, como a eletrificação, a digitalização dos processos produtivos, a incorporação da inteligência artificial, a formação de mão de obra especializada e o fortalecimento da cadeia de fornecedores.
Nesse contexto, a cooperação deixa de ser apenas uma tendência internacional e passa a representar uma oportunidade estratégica também para o ecossistema industrial amazonense. Institutos de pesquisa e desenvolvimento, universidades, startups, fornecedores e as próprias indústrias instaladas no PIM podem ampliar sua competitividade ao desenvolver soluções de interesse comum, preservando, ao mesmo tempo, aquilo que constitui a essência da competição entre as empresas: a inovação aplicada aos seus produtos, suas marcas e seus mercados.
Compreender essa nova lógica significa entender para onde caminham os investimentos da indústria mundial. A tendência aponta que será cada vez mais importante observar como as empresas estão estruturando suas estratégias de inovação, o que vai muito além de acompanhar indicadores de produção, faturamento ou exportações.
Quem aprende a cooperar em tecnologias comuns consegue direcionar mais recursos para aquilo que realmente gera diferenciação e valor agregado. Isso exige uma gestão cada vez mais estratégica, capaz de identificar quais competências devem permanecer exclusivas e quais podem ser desenvolvidas em parceria para acelerar a competitividade.
Talvez a maior transformação não esteja na motocicleta elétrica, no ônibus de emissão zero ou na próxima geração de baterias, mas, sobretudo, na mudança de mentalidade. Em um ambiente de inovação acelerada, cooperar deixou de ser apenas uma alternativa entre concorrentes. Tornou-se uma estratégia de negócios.
Em relação ao PIM, essa mudança traz uma reflexão importante. Em um cenário em que a inovação passa a ser construída cada vez mais em rede, a competitividade não dependerá apenas da capacidade de produzir mais ou reduzir custos. Ela estará, também, na habilidade de integrar empresas, fornecedores, centros de pesquisa e talentos em torno de desafios comuns, fortalecendo um ecossistema capaz de inovar com mais rapidez e gerar maior valor para a indústria brasileira.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia. ...

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