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Para crianças, choro é expressão emocional por falta de repertório de linguagem, diz especialista; pai que chutou filha no PR disse que a agrediu porque ela estava chorando

G1 (Globo)
Para crianças, choro é expressão emocional por falta de repertório de linguagem, diz especialista; pai que chutou filha no PR disse que a agrediu porque ela estava chorando

Pai é flagrado chutando filha de três anos, no Paraná
O choro é uma ferramenta que a criança usa quando ainda não tem repertório de linguagem o suficiente para se expressar. No entanto, muitas vezes, a ação é interpretada de maneira inadequada pelos adultos, conforme explica Juliana Prates, doutora em Estudos da Criança e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
"A gente chora por vários motivos, mas as crianças, principalmente, quando elas não têm o repertório verbal de expressar aquilo que é a sua insatisfação, aquilo que é a sua angústia. Muitas vezes elas não têm uma capacidade de regulação emocional que não seja através do choro. As crianças vão chorar e isso, muitas vezes, é lido socialmente como um comportamento inadequado, como uma birra, como uma má criação", explica a pesquisadora.
A discussão veio à tona depois que um pai foi flagrado chutando a filha de três anos, em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná. A cena foi registrada por câmeras de segurança no domingo (5). Assista ao vídeo acima.
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O homem, que não teve o nome divulgado oficialmente, foi preso preventivamente nesta quinta-feira (9). Em depoimento à Polícia Civil, ele afirmou que chutou a criança porque ela estava chorando.
Segundo Prates, existe também uma cultura de julgamento social que coloca nos familiares e cuidadores das crianças a responsabilidade de controlar o comportamento das crianças, em especial quando elas não seguem as regras sociais estabelecidas pelos adultos.
Nesse contexto, a sociedade reforça a ideia de que as crianças podem ou devem apanhar para se comportar melhor, como se essa fosse a única estratégia possível, explica a pesquisadora.
"A gente precisa também ser tolerante a momentos em que as crianças têm comportamentos que são considerados inadequados e em que os pais não estão agredindo fisicamente as crianças, mas estão calmamente esperando que a criança se acalme, estão oferecendo estratégias para que elas possam se regular, sem que isso seja entendido como displicência ou negligência", orienta.
A solução, conforme Prates, passa pelo amadurecimento da percepção de que crianças não são propriedade da família, mas que têm direito a uma família. Assim como entender que crianças são pessoas com direitos, com sentimentos, com necessidades e com expressões.
"A gente tem uma baixa tolerância para os comportamentos inadequados das crianças. Isso faz com que os pais muitas vezes fiquem muito constrangidos também quando a criança apresenta qualquer tipo de comportamento considerado inadequado", defende.
Uma pesquisa encomendada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e realizada pelo Datafolha revelou que 29% dos entrevistados admitiram o uso de práticas violentas, como palmadas e beliscões, em crianças de até 3 anos.
A pesquisa aponta ainda que 58% dos entrevistados dizem colocar a criança de castigo e que 43% relatam gritar ou brigar como forma de disciplina. Foram 2.206 pessoas ouvidas em todo o Brasil.
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Após ver a criança sendo chutada pelo pai, o empresário José Fernandes interveio na situação. A ação dele, conforme Juliana Prates, reflete um comportamento que deveria ser coletivo.
Ela explica que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que o dever de garantir o desenvolvimento, a dignidade e os direitos fundamentais das crianças é uma responsabilidade dividida entre a família, a sociedade e o Estado.
"Isso significa que a gente precisa estar vigilante sobre as dimensões de cuidado e prevenção de violência. Significa que a gente deve apoiar o cuidado e que a gente deve intervir em casos de violência. É preciso, sim, que a gente se posicione", defende a pesquisadora.
Aqueles que presenciarem qualquer tipo de agressão contra esse grupo podem realizar uma denúncia anônima pelo Disque 100, canal do Governo Federal, ou pelo 181 do Disque-Denúncia, do Governo do Paraná.
Além disso, é possível acionar o Conselho Tutelar, o Ministério Público, a Polícia Militar e a Polícia Civil.
Homem foi preso quatro dias depois da agressão
Pai é flagrado chutando filha de três anos, no Paraná
Reprodução
As imagens gravadas no domingo (5) mostram o pai caminhando com a menina e o enteado, de cinco anos. Em certo momento, ele para e dá um chute na filha, que cai no chão. Segundos depois, outro homem aparece se aproximando, abre os braços e tenta intervir na cena, mas é confrontado.
O caso chegou à polícia na terça-feira (7), dois dias após a agressão. O crime passou a ser investigado a partir de um boletim de ocorrência registrado pela mãe da menina, que só soube do crime depois de ver as imagens nas redes sociais.
Um inquérito foi instaurado e o homem prestou depoimento. Ele disse que chutou a criança porque ela estava chorando. Depois disso, ele foi liberado para responder pelo crime de lesão corporal em liberdade.
Em situações de lesão corporal, o flagrante se caracteriza quando o crime está sendo cometido ou acabou de acontecer, portanto acaba a possibilidade de prisão por flagrante quando não há continuidade do crime.
Nesta quinta-feira (9), porém, ele foi preso preventivamente. Segundo a Polícia Civil (PC-PR), a prisão do homem foi solicitada após a investigação identificar um histórico de agressões contra as crianças que conviviam com ele — a filha e o enteado de cinco anos.
Ele está na cadeia de Francisco Beltrão, sem prazo para ser liberado. O homem passou por audiência de custódia e está sendo representado pela Defensoria Pública.
A Polícia Civil formalizou pedidos de medidas protetivas de urgência em favor da menina, do irmão dela e da mãe que realizou a denúncia. O Conselho Tutelar também acompanha o caso.
Pai é flagrado chutando a filha em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná.
Reprodução
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